NO VAGAR DA PENUMBRA
03 de Dezembro de 2014

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                        "Narciso" de M. Caravaggio (Courtesy of www.bertc.com)

 

Na era das redes sociais, da partilha da mais banal acção quotidiana (o acordar desgrenhado, a refeição suculenta, a fotografia de férias, a ambição da mala Chanel, a opinião definitiva e virulenta acerca do assunto do dia), da exposição do narcisismo e da construção de uma persona alternativa para além do bem e do mal, da veracidade e da verosimilhança, somos todos convidados para a festa da vida em directo.
Agora que todos podemos ser produtores de conteúdos, sem filtros, a ideia parece ser construir uma montra virtual, onde público e privado se tornam categorias indistintas, e se exibem talentos, competências, banalidades e alarvidades com a naturalidade de quem participa numa gigantesca celebração de transparência global.
Na excelente crónica que escreveu para o Expresso do fim-de-semana, Pedro Mexia recorda que Mark Zuckerberg fez equivaler um mundo ideal a um estado em que conhecêssemos tudo uns dos outros, e cita o ensaísta Byung-Chul Han para explicar que isto conduziria a uma espécie de clandestinidade da privacidade, que “seria uma forma de vergonha”, “de encobrir o que é inaceitável, e não apenas o que é íntimo”.
A ideia de que seria fenomenal escancarar o mais íntimo de cada um de nós é abstrusa. Partindo do princípio que isso implicaria o desvendar de acções e de pensamentos, não só teria como consequência a inviabilização das relações sociais tout court (o oposto, portanto, do pretendido com as redes sociais), como, no contexto dos relacionamentos amorosos, seria um mortal inibidor da sedução.
Mas o pior de tudo isto é que, ao sermos convocados para partilhar com um universo incalculável um acto privado, qualquer recusa possa ser interpretada como um sinal de camuflagem de uma qualquer desconformidade, vergonha ou interdito. É este abusivo nexo de causalidade, que pode transformar uma acção íntima num pretexto para a intimação e a intimidação, que arrisca deslocar para um patamar antidemocrático o mais democrático dos instrumentos de comunicação.

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:00 link do post
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