NO VAGAR DA PENUMBRA
21 de Junho de 2016

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“BELA LICENCIADA, 24a, carente de afecto e ajuda económica atende Srs. no Porto.”

 

Qual a relevância da formação superior? Fornecer uma maior competência para argumentar se a Economist está certa quando defende que o Brexit enfraqueceria a Europa mas deixaria o Reino Unido “mais pobre, menos aberto e menos inovador”, e também “menos influente e mais paroquial”? Ou para participar na discussão se o atentado de Orlando é predominantemente uma manifestação de terrorismo islâmico ou de homofobia? Estaremos perante uma possuidora de um saber com a dimensão, a abrangência e a profundidade de um, digamos, José Rodrigues dos Santos? Capaz de expor, com igual clareza e autoridade, a problemática da existência de Deus, as minudências da física quântica e a origem das grandes ideologias do século passado?

 

Presumamos, meramente a título especulativo, que a bela licenciada exerce a actividade de prestadora de cuidados sexuais. O grau académico constituirá uma vantagem competitiva? Instilará no comércio de sensações uma sofisticação erótica?

 

Também não é previsível o efeito da confessada carência de afecto. Tanto poderá despertar o instinto protector dos provedores de afecto da linha marcelista, como poderá esbarrar na frieza inabalável dos denunciadores da pieguice da linha passista.

 

O mesmo sucederá em relação à debilidade económica. Que, depreende-se, poderá ser também financeira. Se esteve desempregada, por que razão não emigrou, engrossando o lote dos expatriados altamente qualificados?

 

A ajuda pressupõe um donativo. A bela licenciada, por uma questão de dignidade pessoal, sobretudo para se sentir útil, “atende o doador”. Não é verdadeiramente uma transacção comercial. Muito menos tributável. Ela pode ser liberal, mas não é uma profissional liberal. Não passa factura com número de contribuinte, dedutível como despesa geral…familiar!? Ou despesa de saúde? O atendido também não pode deduzir o valor ofertado no IRS. Não é enquadrável no mecenato social, não se trata objectivamente de um donativo sem contrapartidas.

 

Atende senhores no Porto. O ofício é limitado em termos de género e de geografia. Mas é na caracterização que de si mesma faz que reside a minha principal objecção: duvido seriamente que BELA LICENCIADA seja mais apelativo que BELA LICENCIOSA.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:30 link do post
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