NO VAGAR DA PENUMBRA
24 de Maio de 2016

Seria hilariante se não fosse trágico. A absurda hipótese de vermos um Presidente Trump a gerir a “excepcionalidade americana” e a projectar o seu poder a nível global ameaça concretizar-se. Sintoma disto mesmo é, não apenas a sondagem da Fox News que o coloca três pontos à frente de Clinton (embora a da CBS/New York Times o apresente a seis pontos dela), mas sobretudo a forma surpreendente como ele conseguiu atrair figuras do seu partido, e não só, que resistiam a apoiá-lo e até o criticavam acerbamente. Será a estratégia de moderação do conteúdo do discurso suficiente para atenuar a péssima opinião que dele têm mulheres, jovens, negros, asiáticos e hispânicos? Ou estará a contar com o efeito positivo da reunião das tropas no seio do Partido Republicano, e com a impopularidade da sua previsível oponente no eleitorado masculino?

 

Adam Gopnik, num artigo para a New Yorker (The Dangerous Acceptance of Donald Trump), não faz a coisa por menos: “Podemos discutir se lhe devemos chamar fascista ou populista autoritário ou uma piada grotesca transformada num pesadelo engendrado a meias por Philip K. Dick e Tom Wolfe, mas seja qual for o rótulo Trump é um inimigo declarado da ordem constitucional liberal dos Estados Unidos”. Gopnik, que recorda o epíteto de “mentiroso patológico” endereçado a Trump por Ted Cruz, acrescenta que as mentiras dele aparecem em tal quantidade que “antes que uma possa ser refutada chega uma nova para o seu lugar”. Também Jonathan Freedland, num texto publicado no Guardian, descreveu a relação do magnata com a verdade como “indiferente, ocasional e distante”. Mas convicto de que este traço de carácter não é impeditivo do sucesso eleitoral, iniciou a sua peça afirmando taxativamente que “Nesta era da política pós-verdade (post-truth politics), um mentiroso convincente (unhesitating liar) pode ser rei”. Ou Presidente, acrescento.

 

“Os grandes políticos têm-se sempre caracterizado pela consistência das suas convicções centrais, da sua força de carácter na defesa dos seus ideais e pelo autoconhecimento que dá corpo a uma liderança ousada. Hillary tem-se quase sempre batido por boas causas. Contudo, há muitas vezes um desfasamento entre as suas convicções e palavras e as suas acções. É nisso que Hillary desaponta. Mas nada está decidido. Ela ainda tem tempo para provar a sua causa, para realizar aquelas coisas que a tornam especial, e não temê-las ou camuflá-las”, escreveu Carl Bernstein em “Uma Mulher no Poder” (edição portuguesa Casa das Letras). Esperemos que estas palavras de 2007 de Bernstein permaneçam actuais em 2016. Porque repousa sobre os ombros de Hillary a responsabilidade de evitar a eleição de um anti-Obama e manter viva a tradição de uma América aberta ao mundo, respeitadora da diferença e garante intransigente da liberdade.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:46 link do post
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