NO VAGAR DA PENUMBRA
27 de Junho de 2017

IMG_feu_magritte.jpg

 

Este texto não é sobre o incêndio, as falhas do SIRESP, as insuficiências da protecção civil, a anarquia no ordenamento do território, as falhas de cidadania ou a responsabilidade de autoridades e eleitos políticos. Este texto não é sobre os que morreram, os que se salvaram ou os que salvando-se morreram um pouco.

 

Este texto não é sobre o deputado da oposição indignado por Marcelo ter ajudado o Governo “a esconder as deficiências da sua actuação”, nem sobre a jornalista que acha que o Presidente “protagonizou em Pedrógão o maior show de afectos da sua magistratura”, destacando que ele “chegou ao terreno um dia antes do PM”.

 

Este texto não é sobre bombeiros desesperados, articulando via rádio pedidos de ajuda entrecortados por lágrimas, sobre a carrinha de peixe requisitada para albergar cadáveres, ou ainda sobre o desabafo de um secretário de Estado nos braços do Presidente: “Não vamos conseguir, estamos perdidos”.

 

Este texto não é sobre o colunista do Expresso que acha que o “incompetente” António Costa já deveria estar “politicamente destruído”, nem sobre o colunista do Público que não apreciou o “show de afectos” do PR porque “usar os abraços para desculpar a incompetência é obsceno”.

 

Este texto não é sobre as peças jornalísticas cuidadosamente encenadas e com direito a banda sonora, embelezadas com travellings de drones, com direito a títulos “apelativos” do género “Estrada da Morte” como se fossem um trailer de  uma fita de Walter Hill ou Quentin Tarantino. Um filme-catástrofe. Nem sequer sobre jornalistas consagradas em reportagens ilustradas com cadáveres. Como se a sua palavra fosse insuficiente, escassa. Como se o horror fosse indizível sem o visível.

 

Este texto é acerca do quê? De como concordando todos com um apuramento exaustivo do que terá sucedido, com a consequente enumeração dos factos e a previsível atribuição de responsabilidades, ninguém conseguir resistir à gritaria das conclusões instantâneas e dos libelos acusatórios. Por isso, este é sobretudo um texto contra o ruído. Poupem-nos a indignações efusivas nos púlpitos públicos. E às estilizadas imagens a preto e branco sublinhadas por música fúnebre. Por agora, concedam-nos o silêncio.

 

(Imagem: pormenor de "L'échelle de feu" de René Magritte)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
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