NO VAGAR DA PENUMBRA
04 de Abril de 2017

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                                                     Fonte: libero.pe

 

Imaginemos por um momento que o busto de Cristiano Ronaldo é a versão escultórica do retrato de Dorian Gray. Não é despicienda a proximidade artística entre a selvática representação produzida por Emanuel Santos do futebolista/empresário/filantropo/playboy internacional e a obra-prima de Wilde. Sabemos que Cristiano pediu ao escultor que umas rugas que estavam “salientes” fossem “desbastadas” para que o rosto ficasse “mais liso e jovial”. Curiosamente, outras saliências numa outra obra de arte não motivaram a mesma reacção do jogador, o que é compreensível dado que a juventude dourada revê-se numa virilidade reforçada. Mesmo em repouso. Ou firmemente ancorada nas pernas antes de disparar o remate fatal para a equipa adversária. Como explicava Lord Henry Wotton a Dorian Gray: “Quando a sua juventude o abandonar, também a sua beleza o abandonará, e então tomará a súbita consciência de que mais nenhuns triunfos lhe restam, ou terá de se contentar com esses mesquinhos triunfos que a memória do seu passado tornará mais amargos que derrotas. (…) Você pode ser o seu símbolo tangível. Com a sua personalidade, não há nada que não possa fazer. O mundo pertence-lhe por uma temporada…”

 

É certo que Oscar Wilde descreveu a obra de Basil Hallward como um “retrato em corpo inteiro de um jovem de uma beleza invulgar”, ao passo que o busto concebido por Emanuel Santos foi divulgado em todas as plataformas possíveis e imaginárias em tom jocoso, questionando a semelhança com o homenageado. E se tal como Gray viu a marcas do tempo contaminarem o seu retrato enquanto ele se manteve jovial, as dissemelhanças (ou deformações) do busto de Cristiano forem uma espécie de representação do Ronaldo fora do pedestal da perfeição física e moral? Estaríamos assim perante uma espécie de humanização do ídolo, com uma subalternização do seu ego e uma espécie de celebração dos seus defeitos e imperfeições. A ser assim, mesmo que tudo tenha acontecido à revelia da vontade ou da consciência de CR7, há um mérito indiscutível do escultor.

 

Claro que esta minha leitura da obra é pessoal e escandalosamente subjectiva. Já Wilde explicava que “Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo. Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas. Os que lêem o símbolo fazem-no a suas próprias expensas. O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida”.

 

(As citações de O Retrato de Dorian Gray reportam-se à edição da Relógio D’Água com tradução de Margarida Vale de Gato.)

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:13 link do post
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