NO VAGAR DA PENUMBRA
14 de Fevereiro de 2017

O líder da oposição que ganhou as eleições disse que nunca outro ministro errou tanto quanto Mário Centeno. A sério? Isto dito por quem chefiou um Governo que para 2013 previa um crescimento de 1,2% do PIB (-1,4% foi a meta atingida), um incremento no investimento de 3,9% (-6,3%), uma taxa de desemprego de 13% (16,2%) e uma dívida pública em percentagem do PIB da ordem dos 106,8% (128%). E cujas execuções orçamentais se caracterizaram pelo recurso sistemático aos rectificativos. Aos pares. E cujo ministro das Finanças, Vítor Gaspar, na carta de demissão datada de 1 de Julho de 2013, afirmou textualmente: “A repetição destes desvios [no défice e na dívida] minou a minha credibilidade enquanto Ministro das Finanças.” E, mais à frente, reputando de “muito graves” o nível de desemprego e de desemprego jovem, considerava urgente a transição para uma “nova fase do ajustamento: a fase do investimento!” E concluía, talvez entre a lucidez e o desencanto: “Esta evolução exige credibilidade e confiança. Contributos que, infelizmente, não me encontro em condições de assegurar.”

 

Chamam-lhe risco sistémico. Parece algo difuso e indefinido mas, talvez por isso, inegável. É um espectro que ninguém quer ver materializar-se completamente. E, acima de tudo, o sistema financeiro é vital para a prosperidade das nações. Por isso, na Europa, entre 2008 e 2010 foram intervencionadas 215 instituições financeiras. Em Portugal, como no resto do mundo, graças a um estatuto especial, parte imunidade, parte impunidade, os banqueiros são uma casta superior que, nos intervalos da sua missão de aspergir o sistema circulatório da economia com crédito, se pode entreter a dar a extrema-unção a governos ou a perorar sobre a resistência dos portugueses à austeridade. Estes missionários da criação de valor, comportando-se, claro, segundo inatacáveis padrões de conduta, acabam por desenvolver uma espécie de complexo de prima-dona, reivindicando privilégios que lhes permitam auferir os proveitos do seu esforço por detrás de um biombo que os proteja da transparência. Porquê? Se calhar, porque o rei vai nu.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:01 link do post
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