NO VAGAR DA PENUMBRA
07 de Outubro de 2015

A alternativa de confiança esbarrou na descrença dos portugueses (demasiado inclinada para a esquerda alienando o centro ou, pelo contrário, demasiado ancorada nas restrições orçamentais para apresentar uma programa suficientemente distinto?). A maioria absoluta da coligação esfumou-se (a vitória premiou o cumprimento do programa de ajustamento, mas a sua escassez penalizou o encarniçamento ideológico?) e, em consequência, a esquerda tornou-se maioritária. As sondagens nas suas diversas modalidades espelharam correctamente os humores do eleitorado, e, contrariando expectativas iniciais, a abstenção atingiu valores históricos.

 

A última sondagem da Intercampus, antes do escrutínio, no entanto, além de auscultar as intenções de voto, com a coligação claramente à frente, colocou uma série de questões que suscitaram e suscitam perplexidade. Mais de 57% dos inquiridos consideraram que a situação no país estava pior ou muito pior que há quatro anos. E confiavam mais em António Costa do que em Passos Coelho para combater o desemprego (35% e 29,2%, respectivamente) e para estabelecer políticas sociais correctas (33,7% e 28,2%). E também, talvez um pouco surpreendentemente, para diminuir as despesas públicas (31,3% e 29,9%). Eram avaliados quase da mesma forma em relação à capacidade para fazer crescer a economia (33% para Costa e 32,8% para Passos Coelho). Parece evidente uma dissonância entre as respostas às perguntas concretas e a intenção de voto e, agora, o voto expresso nas urnas.

 

O estrondoso crescimento do Bloco de Esquerda e o ligeiro acréscimo da CDU contribuíram para uma maioria de esquerda que se parece confrontar com a sua previsível esterilidade. Para que serve uma imensa maioria com duas forças partidárias que se deleitam na acutilância discursiva e no protesto militante sem ambicionarem gerar uma estrutura de poder? Apetece instá-los a serem realistas e a exigirem o possível esticando as possibilidades.

 

Quanto à coligação que continuará a exercer o poder, é caso para dizer que acabou a impunidade. A impunidade do radicalismo travestido de patriotismo e inevitabilidade. A impunidade da aversão à clareza e à verdade sem subterfúgios. A impunidade do gangsterismo constitucional e do bullying da austeridade. Bem podem Pedro e Paulo esbanjar a palavra humildade e enlaçá-la com mesuras e tons melífluos, pois a prepotência vai ceder à negociação, a vigilância dará lugar à sindicância e a obstrução será legítima para barrar o inadmissível.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:04 link do post
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