NO VAGAR DA PENUMBRA
18 de Outubro de 2016

Ideo_ionline.jpg                                                           

Nos dias que correm, parece que a ideologia é a “má moeda” a precisar de uma ordem de despejo. Um conjunto de convicções alinhadas de forma a compor uma visão da sociedade e a erigir um programa de acção que a materializasse é agora encarado como um entrave ao progresso e ao desenvolvimento. Como explicou Adérito Sedas Nunes, “os processos de competição, de tensão e de conflito ideológicos desenrolam-se, precisamente, entre grupos portadores de distintas concepções acerca da sociedade e do seu futuro”. Ora, a menos que se defenda que duas pessoas de boa-fé, perante os mesmos dados, tirem necessariamente conclusões idênticas, ou que, ironicamente, se tenha interiorizado a superioridade de determinado modelo de organização social e política, parece pouco avisado desvalorizar a ideologia.

 

Podem Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa, tão diferentes e tão iguais, proclamar, respectivamente, que “a realidade acaba sempre por derrotar a ideologia” e que “a realidade é mais forte que a ideologia”. E também Teodora Cardoso, do seu púlpito de independência, esclarecer que tem “a ideologia da racionalidade económica”. Sedas Nunes, que na acção política via a ideologia como “um projecto colectivo de futuro social” impulsionado por um sistema de “coerência variável” onde se misturavam ideias, elementos emocionais e uma vontade de poder, enfatizava que os diversos sistemas diziam respeito “à vida dos homens em sociedade”. Não será sensato vislumbrar racionalismo numa visão humanista da política?

 

Os campeões da realidade talvez encontrem motivo de reflexão nas achegas que Sedas Nunes fornece, referentes a uma das funções sociais das ideologias, designadamente enquanto “meios de acção para conservar ou transformar as realidades sociais”. E exemplificava com a situação dos estratos mais desfavorecidos da sociedade que, “por imperativo de limitações técnicas e económicas inexoráveis”, podem permanecer insatisfeitos e protestar contra novos sacrifícios. Porém, se a “direcção política do Estado” justificar esses sacrifícios, eles tornam-se “consentidos” (por oposição a impostos), funcionando até como um “factor de coesão social e política”, em nome de um futuro melhor. Explicitava Sedas Nunes: “Nesta justificação, perante a sociedade e mormente ante os estratos inferiores, do esforço e dos sacrifícios requeridos pelo desenvolvimento económico, intervêm as ideologias”.

 

“Quem tem ética passa fome”, afirmou desassombradamente há alguns anos a rainha da trash TV, Teresa Guilherme. Aguardemos encarecidamente que ninguém, seja político no activo grávido de convicções inabaláveis, senador com as vestes de reserva moral da nação ou sumidade económico-financeira alimentada a chá e racionalidade, alguma vez se lembre de recriar a frase, bradando que quem tem ideologia passa fome.

 

 (Citações de Sedas Nunes retiradas de Introdução ao estudo das ideologias)

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:14 link do post
Outubro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
17
19
20
21
22
23
24
26
27
28
29
30
31
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
comentários recentes
Uma clarificação em resposta a interpelação do lei...
Bom dia, Mas do que li pelo menos das citações que...
blogs SAPO