NO VAGAR DA PENUMBRA
02 de Agosto de 2016

Louise Brooks_bd42.jpg                                Louise Brooks (Courtesy of Bert Christensen)

 

Miranda, 22 anos, adoptou o estilo de uma estrela de cinema dos anos 30 do século passado e cobra setecentos dólares por uma hora de sexo. Derek, estudante de arte, limita-se a chicotear ou a bater nos clientes, ou a ser objecto de desejo, exibindo músculos e deixando-se tocar. Jenna teve um cliente que só quis pentear-lhe o cabelo, durante horas, enquanto ela via televisão. Katie, uma nova-iorquina de 23 anos explica que quase todas as suas amigas praticam algum tipo de trabalho sexual. E diz que é quase uma moda (“almost trendy”).

 

A necessidade de dinheiro é a motivação essencial. Há propinas cada vez mais elevadas, empréstimos para pagar e não têm vontade de fazer, como diria uma escritora portuguesa, um downsizing do seu lifestyle. Muitos deles são filhos da classe média e da classe média-alta, mas não pretendem sobrecarregar os progenitores com as exigências de um padrão de vida que pretendem manter. Alisa, quem tem perfis nos sítios Seeking Millionaire e Date Billionaire e se relacionou durante dois anos com um conhecido investidor de São Francisco, diz que tem uma amiga que exerce esta actividade para poder adquirir produtos de luxo (“I do it for the Chanel”, confessa ela.) O pagamento tanto pode ser efectuado em dinheiro (via PayPal, por exemplo) como em géneros. Existem listas para facilitar a vida aos clientes. Há quem indique iPhones, computadores portáteis ou televisões, mas também mobília, utensílios de cozinha ou produtos para a barba.

 

Nancy Jo Sales, a jornalista que descreve esta tendência de certa juventude americana na Vanity Fair, explica que à medida que nos Estados Unidos se “intensifica o debate acerca da descriminalização do trabalho sexual, discretamente a prostituição tornou-se aceitável (mainstream) entre os jovens, encarada como uma opção viável perante uma situação económica difícil e legitimada por uma vaga de feminismo que interpreta a sexualização como empoderamento”. O cliente quer ter a girlfriend experience sem o investimento emocional de construir uma relação, por mais ténue que seja. Já a fornecedora de emoções constrói uma versão romanceada de uma vida sofisticada e permeável ao luxo, minimizando escrúpulos morais e desprezando gostos pessoais. Como escreveu Isabel Marie no seu romance A Criada: “A memória é a nossa encenadora, aquela que organiza a nossa vida. É ela quem escolhe a sequência, o corte, a colagem, a ordem e que, de acordo com o seu talento, faz da mais banal vida um romance.”

 

(A Criada teve edição portuguesa da Terramar, em 1997, e narra as peripécias de uma doutora em filosofia que decide tornar-se empregada doméstica – na verdade, criada para todo o serviço –, cujas tarefas, diz, “ocupam as mãos e deixam o espírito livre (…) ao passo que a reflexão nos abandona aos perturbadores”.)

 

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:01 link do post
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