NO VAGAR DA PENUMBRA
01 de Março de 2016

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                                          Fonte: Faceboook esquerda.net

 

O que é que define “uma afronta aos crentes”? Afirmar, por exemplo, que Jesus não nasceu a 25 de Dezembro, muito menos numa gruta, e que os reis magos não eram reis é um desrespeito à crença? E será “blasfemo e ofensivo” dizer que “factualmente, a Bíblia é uma mentira. Mas é melhor do que uma mentira – é uma ficção.” (Régis Debray in Público, 23 de Novembro de 2002) ?

 

E será “ofender a sensibilidade das pessoas” escrever que “na Igreja Católica, o respeito pelos direitos humanos é praticamente inexistente”, e que catalogar “qualquer relação sexual fora do casamento” como “um pecado grave”, é um princípio que “nem se poderá fundamentar na Bíblia nem no direito Natural” (Herbert Haag in A Igreja Católica ainda tem futuro?, Editorial Notícias) ?

 

E será “falsear a verdade” aventar que algumas acções milagrosas de Jesus que devolveram a saúde a quem padecia de doença “podem ser explicadas como curas psicossomáticas ou como vitórias da mente sobre a matéria”? Ou recorrer à “psicologia de grupo” para explicar o milagre da multiplicação dos pães (todos tinham trazido alimentos e quando “Jesus e os discípulos começaram a dividir a sua comida, todos na multidão se sentiram encorajados a fazer o mesmo e a comida foi mais do que suficiente.” (E. P. Sanders in A Verdadeira História de Jesus, Círculo de Leitores) ?

 

Em Dezembro de 1999, um inquérito dirigido pelo Centro de Sondagens SIC procurou indagar como os portugueses imaginavam Jesus Cristo se ele regressasse à Terra nesse momento. 50% dos inquiridos disseram que a principal mensagem que ele transmitiria seria de paz; 60% responderam que ele pertenceria à classe baixa; 62% afirmaram que ele seria apolítico; e 70% consideraram que ele não ficaria satisfeito com a prática da Igreja Católica. Não sabemos se esta última opinião se mantém actual, mas talvez fosse curial não presumir com facilidade o que crentes ou não crentes consideram “blasfemo e ofensivo”.

 

Escreveu Sanders na obra citada: “ Jesus preferia o encorajamento à censura; ele não julgava; era compassivo e clemente; não era puritano, mas alegre e festivo”. Não sei o que é mais ridículo em toda a polémica do cartaz (ou da imagem só para as redes sociais…) do Bloco de Esquerda – se a pueril e desnecessária tentativa de humor fracturante dos bloquistas, se a reacção desproporcionada e gongórica da hierarquia e dos crentes com carreira política.

 

(O extraordinário padre Gonçalo Portocarrero de Almada, colunista do Observador, jornal que paradoxalmente tanto censura o radicalismo e o extremismo, ilustrou de maneira exemplar o que eu adjectivei como ridículo e desproporcionado. Após ter proclamado a “natureza essencialmente anticristã do Bloco de Esquerda e da sua política”, e concluído que “depois deste incidente nenhum cristão coerente poderá ser seu membro, ou nele votar, sem prejuízo da sua integridade, ou da sua inteligência”, o licenciado em Direito e doutorado em Filosofia arrancou com esta tirada soberba: “…não será exagerado afirmar, graças a esta campanha e não só, que os católicos portugueses fazem, de algum modo, parte da Igreja que sofre perseguição. Que grande honra, para nós, fazer parte do grupo dos milhões de católicos que são perseguidos pelos regimes totalitários comunistas, como os da China e da Coreia do Norte, e pelo fundamentalismo islâmico ou laicista!”)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:11 link do post
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