NO VAGAR DA PENUMBRA
01 de Maio de 2017

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O centenário do fenómeno comummente apelidado de aparições de Fátima parece ter contribuído para um debate acerca da forma mais rigorosa de o caracterizar, nomeadamente por parte de figuras representativas da hierarquia da Igreja portuguesa ou de respeitados teólogos ou clérigos que evitam, por feitio ou por estratégia, a contestação aberta à doutrina oficial.

 

Não estamos, portanto, no âmbito da denúncia activa e da crítica feroz de figuras heterodoxas como o padre Mário Oliveira, que designa o descrito no relato dos três pastorinhos de “encenações teatrais”, e que classifica Fátima como um “negócio, pura idolatria”, em síntese, um testemunho de “desamparo espiritual”. Quando D. Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano, ou Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, referem a necessidade de distinguir aparições de visões (“uma aparição é algo objectivo”, afirmou este último em entrevista ao Expresso; “as visões são fenómenos místicos, espirituais, não físicos”, declarou o primeiro ao Público), há uma preocupação de rigor que procura pôr uma poderosa manifestação espiritual a salvo do escárnio e da ridicularização. E, por isso, nem um nem outro prescindem da clareza de certas afirmações, como é o caso de D. Carlos Azevedo ao afirmar que “Nossa Senhora não aprendeu português para falar com Lúcia” ou que “Maria não vem do céu por aí abaixo”. E é também o caso do P. Anselmo Borges ao afirmar taxativamente que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”.

 

Era de esperar que estas considerações inquietassem as facções mais conservadoras da Igreja. Porventura, receiam, com o paternalismo e a epidérmica reacção com que encaram qualquer desvio da linha tradicional como um desafio à autoridade e uma porta aberta ao transvio do rebanho, que a grande massa ignara dos fiéis não alcance a subtileza desta distinção. O padre Gonçalo Portocarrero de Almada concede no Observador que os acontecimentos de Fátima não constituem “matéria de fé”, e que “não oferece dúvidas que, de facto, Nossa Senhora não apareceu, em sentido técnico, na Cova da Iria”, mas discorda do P. Anselmo Borges quando ele se refere a “uma experiência religiosa interior” dos pastorinhos. Socorre-se de Bento XVI para descrever o sucedido como uma circunstância em que “a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos”. O colunista do Observador discorda também da afirmação do P. Anselmo Borges de que se pode “ser um bom católico e não acreditar em Fátima”, considerando “pouco provável” que “quem não aceita o veredicto da hierarquia eclesial em relação a estas aparições” o possa ser. Portocarrero de Almada subscreve a ideia do cardeal Ângelo Sodano de que “a visão de Fátima refere-se sobretudo à luta dos sistemas ateus contra a Igreja e os cristãos”, pelo que se depreende que o imperativo da expansão da fé torna irrecorríveis os veredictos da hierarquia e censurável toda e qualquer dissensão.

 

Frei Bento Domingues, na sua colina dominical no Público, afirmou ter relido as Memórias de Lúcia. Especificamente em relação à descrição do Inferno considera que “não excede” o que escutara em criança, concedendo que “como sugestão para um filme de terror” não estava nada mal. Reconhecendo que “Nossa Senhora mostrou que era uma pessoa muito organizada e pouco supersticiosa com o dia 13”, Frei Bento Domingues declara-se “desapontado com a pouca originalidade das suas revelações e pedidos”. (São admissíveis estes considerandos bem-humorados ou estará neste momento o P. Portocarrero de Almada à beira da apoplexia a marcar o número do altíssimo - a hierarquia, claro, não a divindade?)

 

Frei Bento Domingues não foi vidente. Não terá tido, nas palavras de outro Bento, o XVI, “uma percepção real de origem superior e íntima” que distinguirá as visões sagradas da profana fantasia. Talvez por isso, ou sobretudo por considerar a reflexão teológica mais útil que o estatuto de divulgador dos veredictos da “hierarquia eclesial”, considera que “Fátima dá uma imagem do catolicismo português que não corresponde à reforma desencadeada pelo Papa Francisco.”

publicado por J.J. Faria Santos às 17:14 link do post
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