NO VAGAR DA PENUMBRA
14 de Janeiro de 2015

Geopolitical-Map-Europe-French-circa-1900-color1.j                                               Imagem: Vintageprintable

 

Perante a barbárie torna-se imperioso defender o essencial: os nossos adquiridos civilizacionais, a liberdade de expressão, a imprensa livre das ameaças despóticas. E sobretudo que a nossa vida não seja o preço da nossa liberdade.

Podemos depois discutir tudo o resto: os modelos de multiculturalismo e as fórmulas de integração, a resistência à assimilação e a segregação, a islamofobia e a ameaça dos nacionalismos, os limites da liberdade de expressão e a fronteira ténue entre a sátira feroz e a provocação gratuita. Mas antes de mais, é preciso afirmar o básico sem que este seja contaminado por um qualquer tipo de relativismo que, mesmo fortuitamente, possa ser entendido como uma forma de contextualizar e desculpabilizar o inadmissível e o insuportável.

Talvez não seja despiciendo, como contributo para que não se produza a amálgama de julgar todos os muçulmanos pela bitola dos terroristas que executaram o atentado no Charlie Hebdo, lembrar que no Alcorão a referência à compaixão e à misericórdia de Deus ocorre 192 vezes, ao passo que a cólera ou a vingança dele apenas surgem mencionadas 17 vezes; e que nele se pode ler a seguinte exortação:. “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não ama os agressores” (2:190); ou ainda evocar o dito canónico de Maomé que designa por “jihad maior” a luta contra o mal no coração de cada um, colocada num patamar acima dos inimigos externos.

Como escreveu Teju Cole no site da The New Yorker: “Nem sempre é fácil ver a diferença entre uma certa dissensão religiosa espirituosa e uma agressiva agenda racista, mas é necessário que tentemos”, considerando que os cartoonistas do Charlie Hebdo não foram “simples mártires do direito a ofender: eram ideólogos”. Mas nem por um momento isto o faz hesitar na defesa intransigente desse direito. Esta prerrogativa é vigorosamente apoiada por Jeffrey Goldberg no site da The Atlantic: “Para mim, parece estúpido e autodestrutivo permitir que homens armados nos digam o que podemos ou não escrever, ou ler.”

Teju Cole rejeita que a violência jihadista seja “a única ameaça à liberdade nas sociedades ocidentais”, lembrando os casos de Edward Snowden, perseguido por ter revelado mecanismos de “vigilância em massa”, e de Chelsea Manning, penalizada devido ao seu papel no caso conhecido como WikiLeaks. Já Clara Ferreira Alves (A Revista do Expresso), considerando que o “Islão moderado, constituído por gente decente, está acocorado de medo” ou se recusa a confrontar os seus radicais, não hesita em afirmar que “Este Islão (…) Representa uma ameaça tão séria como o nazismo que sucedeu a Weimar e não sei quantos morrerão até percebermos isto”.

Resta-nos a defesa intransigente do Estado de direito e das liberdades fundamentais. E que a nossa capacidade de resistência e de persuasão, e a boa vontade dos muçulmanos moderados, consigam transformar a forma de saudação que dá título a este post (as-salamu ‘aylakum - a paz esteja contigo) numa barreira eficaz contra a ignorância, o radicalismo e a desumanidade.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:16 link do post
Janeiro 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
15
16
17
18
19
20
22
23
24
25
26
27
29
30
31
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
comentários recentes
Uma clarificação em resposta a interpelação do lei...
Bom dia, Mas do que li pelo menos das citações que...
blogs SAPO