NO VAGAR DA PENUMBRA
05 de Novembro de 2014

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                                               Imagem: VintagePrintable

 

No número 37 da Rue de la Bûcherie, muito perto da fachada sul da catedral de Notre-Dame e com vista para o Sena, num prédio construído no século XVII, um excêntrico americano, conhecido pelos seus ideais comunistas e pela frugalidade dos gastos, abriu os cordões à bolsa apenas para expandir uma monumental livraria, ponto de passagem tanto de aspirantes a escritores como de autores consagrados ( por exemplo Henry Miller, Allen Ginsberg, Julio Cortázar e, mais recentemente, Paul Auster, Martin Amis e Zadie Smith).
De acordo com familiares e amigos, George Whitman era um homem profundamente tímido, mas, por mais paradoxal que possa parecer, com uma tendência inata para a hospitalidade. Talvez por isso, no topo de uma porta no segundo andar da sua livraria, ele tenha feito inscrever uma espécie de epigrama que atribuía a Yeats (“Be not inhospitable to strangers lest they be angels in disguise”), mas que de facto é uma citação bíblica (na edição que consultei, datada de 1978 e publicada pela Difusora Bíblica, esta passagem da Carta aos Hebreus tem a seguinte versão em português: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.”)
Segundo o relato de Bruce Handy, que assina um artigo na Vanity Fair de Novembro intitulado In a Bookstore in Paris… , cerca de 30 000 aspirantes a escritores foram acolhidos na livraria a troco de algumas horas de trabalho. Whitman, que faleceu a 14 de Dezembro de 2011, com 98 anos de idade, era porém dado a alterações de temperamento e a acessos de peculiaridades que, conforme exemplos citados por Handy, podiam ir desde o acto de atirar livros às pessoas, com afecto ou irritação, até à proeza de servir vinho aos convidados em velhas latas de atum em vez de copos (Anaïs Nin e Maria Callas recusaram…)
A livraria é actualmente gerida pela filha, Sylvia Whitman, e a recepção aos visitantes é também feita por Colette, a cadela mistura de labrador e collie , e por Kitty, a gata que sobreviveu ao dono, e que, no site em renovação da livraria, aparece numa soberba pose, solene e esfíngica, em cima de uma mesa. Não fosse a minha aversão a viajar, talvez motivada pela minha rendição a um pecado capital (a preguiça, obviamente, embora não seja o único…a gula também…e fiquemos por aqui…), e eu aceitaria o convite familiar, que tenho delicadamente recusado, para visitar Paris pela primeira vez, na condição de me conduzirem à Rue de la Bûcherie. E não, que fique bem claro, não iria à procura de anjos. Há, por vezes, mais grandeza nos demónios que habitam os humanos.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:30 link do post
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