NO VAGAR DA PENUMBRA
05 de Setembro de 2017

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Ouvi dizer que Cavaco Silva estava preocupado com a independência de orgãos como o Banco de Portugal e o Conselho de Finanças Públicas e lembrei-me logo dos tempos em que ele vociferava contra “as forças de bloqueio”, ou seja, “todos aqueles sectores ou políticos que, frontal ou encapotadamente, querem impedir a legislação reformadora e querem bloquear a modernização do país”.

 

Constou-me que Cavaco Silva considerou que em Portugal também existem fake news, e que se teria indignado com a hipótese de “um Presidente telefonar a um jornalista para lhe passar uma notícia”, e ocorreu-me aquele episódio 2 em 1 em que um assessor de Belém recebeu “indicação superior” para se encontrar com um jornalista para relatar uma mirabolante teoria da conspiração, segunda a qual o Presidente da República estaria sob a vigilância do Governo.

 

Li que Cavaco Silva procurou incutir aos jovens alunos “coragem para combater o regresso da censura” (?) e recordei o episódio “Sousa Lara” em que um escritor foi vítima das suas convicções ideológicas (deve ser um exemplo de como a realidade derrotou a ideologia…).

 

Os jornais relataram que Cavaco Silva teceu considerações acerca de “aumentos de impostos indirectos”, “cativações de despesa” e “deterioração da qualidade dos serviços públicos” e reparo que desvalorizou os grandes indicadores económicos como o crescimento do PIB, a taxa de desemprego, o défice orçamental, o investimento ou a dívida pública.

 

Noto que Cavaco Silva aludiu aos “devaneios revolucionários” de uma certa esquerda e logo rememoro um bem-humorado texto de Woody Allen, onde ele apresenta como requisitos para o sucesso de uma revolução alguém ou algo indutor da revolta e que os revoltosos apareçam e façam a revolução. Allen, que reduz a revolução a uma espécie de dança de salão, frisa ser imprescindível que ambas as partes (opressores e oprimidos) compareçam num determinado local a dada hora, especificando que o vestuário é habitualmente casual.

 

Cavaco Silva, que se levantou às seis da manhã e chegou à Universidade de Verão do PSD em mangas de camisa e sem gravata para dar uma “aula informal e despretensiosa”, proclamou que os revolucionários europeus acabaram a perder o pio. O que, do ponto de vista dele, deve ser preferível à “verborreia frenética da maioria dos políticos”. Livre do espartilho do fato presidencial assumiu-se como líder inspirador de uma facção, a sua facção. Está de regresso a casa e optou por restringir a sua influência ao seu clube ideológico. Está de regresso às suas obsessões, aos seus rancores e ressentimentos.

 

Deixou-se fotografar em grupo (o mestre inspirador dos jovens discípulos) e acedeu a um retrato a dois, conta o Público. Mas quando o jovem sacou do telemóvel para a selfie da moda, eis que, decerto horrorizado, o Aníbal guerreiro da realidade se viu forçado a pedir a uma terceira pessoa para produzir o instantâneo. Um mito alimenta-se de símbolos. Nem que seja de símbolos de mesquinhez. Tudo é relevante na luta do intrépido Aníbal contra o abominável homem das selfies.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
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