NO VAGAR DA PENUMBRA
19 de Abril de 2016

41_07_87---Dead-End-Road-Traffic-Sign_web.jpg                                               Imagem: Freefoto.com

 

Ela está a morrer. Pode ser que o ignore, ou pode ser que escolha ignorar, participando com estoicismo num teatro de bonomia. Aqui e ali perturbado por um lamento ou por um queixume. Aprecia a bondade de familiares e amigos, mesma quando esta (mais que a doença) parece confiná-la a uma inactividade tão próxima da inutilidade (não se esforce! Repouse!). Invoca uma doença grave, mas não necessariamente fatal, para justificar os cuidados dos que lhe são próximos, alimentando uma farsa (ilusão) que redundará em tragédia.

 

Familiares e amigos já sabem o que esperar, mas não sabem quando. “É insuportável a visão de um ser vivo que combate com a morte, e ora parece prevalecer, ora parece perder-se”, escreveu Elena Ferrante em Os Dias do Abandono. Cada dia parece ser negociado. Para estender um contrato celebrado à nascença por tempo indeterminado com o nosso corpo. Que termina quase sempre da mesma forma: denunciado unilateralmente. Como uma máquina ou um produto, também ele tem um período de vida útil. Que nos recusamos a aceitar. Ingloriamente.

 

Como é o quotidiano vivido a partir de um leito num quarto sem vista, iluminado pela claridade do Sol intermitente de uma Primavera chuvosa? E o correr dos dias, iguais e sem sinais de recuperação, transformará o teatro da bonomia num monólogo desesperado, contrariado por piedosas proclamações de recuperação (Vais ver que melhoras! Este tempo também não ajuda...)? É uma daquelas situações em que o uso da mentira é não só permitido como até recomendado. (“Sempre que necessário e sem hesitação”, afirmou a actriz Sally Field em resposta à pergunta “Em que ocasião mente?” do Questionário de Proust da revista Vanity Fair.)

 

A degradação do corpo aniquila os moribundos. A espera derrota os sobreviventes. Porque esta espera é uma emboscada, não um encontro que se aguarda ansiosamente. Porque esta espera não permite a esperança.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:18 link do post
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