NO VAGAR DA PENUMBRA
05 de Dezembro de 2017

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“Quando não quero, salto. O que está do outro lado? Não sei”, fala, como quem explica que a coragem pode ser ao mesmo tempo fruto da revolta e parceira da incerteza. Simone de Oliveira que, entrevistada para a revista do Expresso, diz que as “coisas foram acontecendo porque tinham de acontecer”, apesar de tudo soube dizer não ao destino e redesenhar o mapa da sua vida. Talvez por sempre ter prezado a independência e a liberdade, que lhe permitiram, por outro lado, dizer presente sempre que o amor a quis ou a paixão a incendiou. A mesma liberdade (“sou muito cabra quando quero”) que lhe possibilitou reagir a uma traição amorosa atirando ao prevaricador: “vais para a mesma cama de onde saíste”, permite-lhe agora confessar, desassombradamente, ter sido infiel. Seguramente, não terá sido infiel a ela mesma.

 

Não tem medo de ser franca (talvez tenha de ser fraca). Revela-se uma outsider que não é de frequentar “grupinhos” ou “capelas” nem de participar em jantares. Afirma gerir com dificuldade a solidão mas dispensa a “canseira” de viver acompanhada. E nunca fica deprimida mais de três dias. Dá-se melhor com os homens. Não alinha em solidariedades femininas acéfalas e, como sempre, não tem medo das palavras: “As mulheres são chatas, são burras”, porque reagem mal ao passar do tempo e equilibram deficientemente a sua dupla condição de mulher e mãe. Mas sente-se orgulhosa por ter desbravado caminhos para a mudança de comportamentos. E o futuro? Declara que tem “obrigação de ser uma mulher feliz”. E que não “lhe apetece nada” partir. Dir-se-ia que no poema da vida dela continua a existir “a esperança acesa atrás do muro” e “um verso em branco à espera do futuro”.

 

(“Alguém Que Teve Coração” é o título da versão portuguesa interpretada por Simone do clássico de Burt Bacharach e Hal David “Anyone Who Had A Heart”)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
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