NO VAGAR DA PENUMBRA
26 de Setembro de 2017

Carré_rushdie.jpg

John le Carré fotografado por Annie Leibovitz para a Vanity Fair no ambiente bucólico da Cornualha. As espessas sobrancelhas formam uma espécie de telhado dos olhos e uma transviada madeixa de cabelo branco abre caminho na testa em direcção ao nariz. A pose é distinta, mas com bonomia e sem projectar arrogância ou presunção.

Salman Ruhsdie fotografado por Thomas Prior para a Time em plano próximo do rosto. Aqui as sobrancelhas estão arqueadas e os olhos parecem espreitar por entre as pálpebras construindo uma expressão entre o mefistofélico e o tenso, com um nariz contraído e os lábios cerrados.

 

Que nos diz a encenação do retrato de um escritor? Será a expressão da sua vontade, da visão do fotógrafo ou um compromisso entre as duas? Talvez a resposta não seja verdadeiramente importante. O mais relevante residirá na progressiva desvalorização da noção do escritor enquanto criatura ascética e devota ao seu métier, longe de qualquer contaminação com a mundaneidade, enclausurada no seu convento intelectual.

Haverá certamente alguma lucidez nos que vêem nos mecanismos de funcionamento das editoras, com as suas exigências de sessões de autógrafos, entrevistas promocionais, encontros com leitores, uma forma perversa de retirar tempo ao escritor para aquilo que é a essência do seu trabalho. Mas ele certamente encontrará na presença neste mundo real fontes de inspiração para a construção do outro mundo, o das narrativas que se entretêm a expandir os limites do possível e do imaginável.

 

Nada parece estar mais longe das preocupações de le Carré, que acabou de ver editado o seu mais recente romance, A Legacy of Spies, e que afirma à Vanity Fair que “A Guerra Fria acabou, mas é neste ponto que nos situamos enquanto pessoas: ainda sem rumo, ainda sem fé”. Já Rushdie, mostra-se preocupado com o facto da sua reputação de amante de festas na companhia de belas mulheres poder afectar a sua credibilidade enquanto autor. E não se revê no retrato do glitterati de braço dado na passadeira vermelha com a bombshell. Como explicou à jornalista da Time: “A maior parte da vida de um escritor é passada em sossego lutando com as palavras em frente a uma página”. O mais recente resultado dessa luta é o romance The Golden House, onde reflecte sobre a era Trump e sobre um mundo real em que “a esfera pública se tornou grotesca”. Talvez a visibilidade mediática do escritor sirva para evidenciar, iluminar ou denunciar o grotesco da vida real, o grotesco que imaginávamos possível apenas na ficção.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:30 link do post
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