NO VAGAR DA PENUMBRA
04 de Novembro de 2015

O que é que se espera de um thriller best-seller do New York Times? Entretenimento, uma história empolgante, suspense, um enredo fértil em evoluções inesperadas? Em Parte Incerta, de Gillian Flynn, tem tudo isto e um pouco mais. E é este acrescento (escrita segura, tom entre o humor, o desencanto conformado e a ironia) que eleva o livro acima do género em que se inscreve. Comparações inesperadas (“O sono é como um gato: só vem ter connosco se o ignorarmos”), retratos de personagens incisivos e originais (“Tinha uns enormes olhos castanhos de pónei (…) Tinha uma voz desnecessariamente alta, parecida com um zurro, como um burro encantado e atraente”, e tiradas aforísticas (“As pessoas irónicas esfumam-se sempre quando confrontadas com a sinceridade, é a sua kryptonite” ou “Cinco da manhã é a melhor hora, quando o bater dos saltos altos no passeio parece qualquer coisa de ilícito”).

 

E até nem falta uma reflexão sobre a dependência de toda uma geração da imagem, seja da TV, do cinema ou da Internet, que conduz à manipulação das emoções “de uma forma que a realidade já não é capaz de fazer”, levando à estereotipização da linguagem (“Se somos traídos sabemos as palavras que devemos dizer; quando um ente querido morre, sabemos as palavras que devemos dizer”), e à formatação dos comportamentos (“Trabalhamos todos a partir do mesmo guião muito batido”). A conclusão é óbvia: “É um período muito difícil para se ser uma pessoa a sério e real, em vez de uma colecção de traços de personalidade seleccionados a partir de uma máquina de venda automática de personagens.”

Ou como diria Oscar Wilde: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.” Com ou sem a tirania das imagens.

 

( Em Parte Incerta foi editado em Portugal pela Bertrand com tradução de Fernanda Oliveira.)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:46 link do post
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