NO VAGAR DA PENUMBRA
12 de Janeiro de 2016

Michel Houellebecq escreveu, na pele de François, o narrador de Submissão (edição portuguesa da Alfaguara, tradução de Carlos Vieira da Silva), que “nunca nos entregamos, durante uma conversa, tão inteiramente como perante uma folha vazia, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido”. Discorrendo sobre a literatura, François defende que só ela permite um contacto total com o “espírito humano (…) com as suas fraquezas e grandezas, as suas limitações, mediocridades, ideias fixas, as suas crenças”.

Funcionará de igual modo para o escritor prolixo e para um outro mais económico na sua produção? Que grau de dissimulação é possível? E qual a dimensão de erro admissível na interpretação por parte do destinatário? Não poderemos nós, leitores, confundir a firmeza e a persistência com uma ideia fixa? Ou até a compaixão com a fraqueza? Claro que tudo isto não invalida a tese de François, quando muito coloca-a em perspectiva.

 

Joyce Carol Oates, que entrevistada por Hermione Hoby (Guardian Online) diz experimentar mais prazer que ansiedade quando escreve, confessa que “escrever ficção é uma tarefa dura quando a vida real parece mais importante”. Confrontada com a definição de J M Coetzee do escritor como um “secretário do invisível”, Oates parece achá-la incompleta, visto que “um secretário é alguém que toma notas” e ela vê um romancista como um portador de uma vontade que se manifesta fortemente, nomeadamente na reunião de personagens, na construção de uma narrativa, na elaboração de uma história. Que fraquezas e grandezas de Joyce Carol Oates poderemos detectar nas suas obras? Será que concorda com a definição de génio de Jean-Paul Sartre que colocou como epígrafe na sua obra Blonde (Edição Círculo de Leitores, tradução de Maria Nóvoa): “O génio não é um dom e sim a forma como uma pessoa inventa em circunstâncias desesperadas”?

publicado por J.J. Faria Santos às 20:19 link do post
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