NO VAGAR DA PENUMBRA
20 de Junho de 2017

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Leio que uma fonte próxima do jogador disse à BBC que Cristiano Ronaldo está “magoado”, “muito triste” e “incomodado” com as notícias de que terá subtraído às Finanças espanholas um valor de cerca de 14,7 milhões de euros. “Não entende o que se está a passar”, porque “sabe que é honesto”.

Percebo o “incomodado”. Uma reacção natural, que compreensivelmente poderia evoluir para a irritação ou até para a fúria. Dirigida à administração fiscal ou aos fiscalistas e advogados que o aconselharam.  Já a mágoa e a tristeza remetem-no para uma certa infantilização, uma dificuldade em lidar com a frustração ou a contrariedade proporcional à volumetria do seu ego.

 

Não sei, neste caso, até que ponto o planeamento fiscal se aproximou demasiado da infracção ou confiou largamente numa qualquer expectável uniformidade de critérios. Mas sei que a alegada incompreensão do jogador para o que se está a passar só pode ser uma figura de retórica, uma pretensão de tratamento diferenciado ou uma estratégia jurídica. Ronaldo pode achar demasiado técnica a distinção entre rendimentos de capital mobiliário (como declarou) e rendimentos de actividade económica (como a administração fiscal espanhola achava que ele deveria ter declarado). Mas deverá compreender muito bem o que significa ser tributado sobre 20% do rendimento ou sobre 100%, que é o que supostamente está em causa. E deve, pelo menos, suspeitar de que as três empresas offshore por onde circularam os proventos dos seus direitos de imagem como jogador do Real Madrid estariam ligadas a um qualquer mecanismo de “eficiência fiscal”. E não lhe soará abstruso que as entidades fiscais da generalidade dos países estejam particularmente atentas aos movimentos de e para empresas localizadas em paraísos fiscais, e avaliem a conformidade legal da declaração dos rendimentos associados a esses movimentos.

 

Dado que Cristiano Ronaldo é particularmente susceptível de ser acometido de melancolia e tristeza súbitas quando está em causa a renegociação do seu contrato ou a recepção de propostas vantajosas de outros clubes, não estou inteiramente seguro de que o proclamado estado de espírito do jogador se deva unicamente às suas atribulações fiscais. Mas se o for, recomenda-se que se empenhe em defender vigorosamente a sua posição sem que entenda o escrutínio como a profanação de um ídolo.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:12 link do post
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