NO VAGAR DA PENUMBRA
21 de Março de 2017

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Tal como Assunção Cristas também eu tenho “livros de literatura” para ler, mas ao contrário dela folhear o último tomo de Cavaco não faz parte da minha agenda. Porém, li a entrevista que o ex-Presidente concedeu ao Público. Igual a si próprio, invoca o caso do Estatuto Político-Administrativo dos Açores para explicar que face à incompreensão que a ignara massa popular revelava sobre o assunto, competia ao iluminado PR a “defesa do interesse nacional”. Se o tempo livre de Cristas é “muito limitado” (pelo que não é “prioritário” ler o livro das quintas-feiras), já Cavaco afirma ser “muito selectivo” naquilo que lê e ouve e a “imprensa escrita ocupa um lugar secundário” na hierarquia da sua informação. Pela primeira vez, honra seja feita aos entrevistadores São José Almeida e David Dinis, o assunto da vigilância a Belém foi abordado com alguma minuciosidade e sem a reverência habitual. Confrontado com a declaração do ex-Presidente de que se tratava da “tentativa de criar um facto político”, David Dinis não deixou de referir que a ser assim tal tentativa tinha origem na sua própria Casa Civil. Cavaco explica que o afastamento de Fernando Lima da sua assessoria de imprensa se deveu à “agressividade em relação à pessoa” que todo o caso provocara. “Foi até por respeito humano” que assim decidiu. De resto, negou por três vezes consecutivas (“nunca, nunca, nunca”) que alguém lhe tivesse falado de suspeitas de vigilância. O resto é a litania habitual: as “campanhas caluniosas”, a “cobardia política” dos deputados, as bicadas a Marcelo e a técnica para “despachar o jornalista”. A novidade é que “as pessoas inventam coisas diabólicas” (nota para Passos Coelho: o Diabo que não veio estará dentro de alguns de nós?)

Ele diz que não acumula “frustrações” e que chega ao fim (da carreira política, presume-se, embora ele se costume referir aos políticos com desdém) “perfeitamente realizado”. Quanto a mim, uma citação de um “livro de literatura” que neste momento ocupa os meus tempos livres, O Último Amante de Teresa Veiga (Edições tinta-da-china), e que reúne quatro novelas, adequa-se ao temperamento deste cidadão de Boliqueime. Reza assim: “Aliás, nunca acreditei muito na passividade sistemática de certos seres, normalmente propensos a interiorizar vinganças.”

 

No âmbito do inquérito aberto em Julho de 2013 já se efectuaram 260 buscas, já se inquiriram 170 testemunhas e já se autorizaram mais de 2600 escutas. No processo que já soma 91 volumes e 452 apensos trabalham 10 magistrados do Ministério Público coadjuvados por 22 inspectores da Autoridade Tributária. A procuradora-geral da República diz que “a prova recolhida (…) se encontra solidificada”, no entanto nota “a insuficiência dos relatórios de análise de prova, apresentados pelo órgão da polícia criminal, em relação a alguns segmentos”. Sim, o processo é sólido, não há o risco de evoluir para o estado gasoso e esfumar-se na nebulosa do arquivamento, mas alguém está a meter água. Paulo Silva ou Rosário Teixeira, presume-se. Joana Marques Vidal atendeu o pedido de prorrogação do prazo para a conclusão do inquérito da Operação Marquês, mas não fixou “de momento” a data para o seu encerramento. O futuro é infinito.

Em O Passado é Um País Estrangeiro (um “livro de literatura”), Ali Smith escreveu que “a verdade é como o sol. Olha-se de frente para ele e fica-se com os olhos afetados para toda a vida.” (Quetzal, tradução de Helder Moura Pereira)

E nós? Quando teremos direito à verdade sem eclipses? A toda a verdade, a da acusação e a da defesa. A complexidade é “enorme” e a “investigação criminal é dinâmica”. Admitamos que sim. Mas quando se atropelam princípios básicos do estado de Direito não se correrá o risco de transformar uma investigação criminal numa investigação criminosa? E a dada altura a dinâmica não terá de ser interrompida para evitar que se torne perniciosa?

publicado por J.J. Faria Santos às 20:59 link do post
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