NO VAGAR DA PENUMBRA
05 de Julho de 2016

“Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde”. Citemos um poeta exímio em tempo de prosas rascas. De nações desorientadas e líderes com complexo de justiceiro, ou padecendo da síndrome de Estocolmo, ou ainda exibindo uma rebeldia entre a impotência e a inconsequência. A desunião europeia alimenta-se de preconceitos, nacionalismo e xenofobia. E da submissão da política à ortodoxia financeira e aos mercados.

 

Os mercados são, como bem sabemos, flores de estufa. Uma semente de dúvida, uma especulação oportunista, uma declaração incendiária são o suficiente para instalar o caos. Gente sensata, mesmo como instrumento de pressão, jamais diria que Portugal está a pedir “um segundo programa” e que “vai consegui-lo”. Mesmo que depois acrescentasse que “os portugueses não o querem e não vão precisar se cumprirem as regras europeias”. Mesmo que se trate do ministro das Finanças de um país que não cumpre as sacrossantas regras europeias. Porém, para a jornalista especializada em economia (classe ainda mais sensível que os mercados…) Helena Garrido, Schäuble “até foi moderado” e a “probabilidade de Portugal ter de pedir um novo apoio financeiro vai subindo a cada dia que passa” (Observador ).  Porquê? Por causa do “discurso e decisões políticas do Governo que reabriram a porta da desconfiança”, e ainda devido a uma “atitude de arrogância em relação aos parceiros europeus”, diz a jornalista. Claro que Schäuble não padece desta maleita. Ele até afirmou: “Como utilizador de cadeira de rodas, não dá para uma pessoa se mover livremente. Isso é a única coisa que me incomoda um pouco. Quando estou no Eurogrupo, em Bruxelas, os colegas que quiserem falar comigo têm de vir ter comigo. Mas eu espero que eles saibam que isso não tem nada a ver [com] arrogância.” (Observador)

 

É verdade que a previsão de crescimento económico derrapou significativamente, mas todas as previsões indiciam que o défice orçamental vai ficar abaixo dos 3% em 2016. Os juros das Obrigações do Tesouro português a dez anos no final do mês de Junho ficaram abaixo da fasquia dos 3%. E até Subir Lall, do FMI, contrastou a sua visão crítica de economia portuguesa com afirmações ao Expresso de que a nossa dívida pública é sustentável e estimando que “as contas externas estejam equilibradas este ano e ligeiramente em défice no próximo”. Alertando que nos devemos concentrar numa estratégia a médio prazo, frisou que “Portugal tem um acesso confortável aos mercados e, por isso, não precisa de fazer nada depressa nem muito dramático”.

 

O que sustentará então a visão pessimista de Helena Garrido e os alertas do ministro das Finanças alemão? Deve ser a ausência daquilo que o economista Paul De Grauwe denomina em artigo no Expresso de “discurso neoliberal”, que enfatiza até à náusea a necessidade das “reformas estruturais”. Explica De Grauwe: “De acordo com este discurso, os trabalhadores devem ser flexíveis (leia-se: deviam ficar felizes por ver os seus salários diminuírem, contentes por poderem ser rapidamente despedidos e satisfeitos por receberem subsídios de desemprego mais baixos). Os políticos neoliberais que hoje dominam a União Europeia apregoam que a segurança social não é produtiva e deve ser reduzida em dimensão. Estas políticas chamam-se eufemisticamente reformas estruturais.”

 

“Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo Calma É Apenas Um Pouco Tarde”. Este título do poeta exímio serve para relativizar a pressão ideológica disfarçada de determinismo económico e financeiro. Mas também deve servir (porque já é um pouco tarde) para nos precavermos contra os prepotentes e os burocratas. Como alertou Alexandra Lucas Coelho no Público: “A UE não é da troika nem de Schäuble, antes de mais é uma ideia. E quando desistirmos dessa ideia será só dos funcionários, aqueles com que se faz a banalidade do mal”.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:31 link do post
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