NO VAGAR DA PENUMBRA
03 de Junho de 2015

É um lugar-comum. Ou para lhe tirarmos uma certa conotação negativa, é um clássico. Falo do seriado televisivo que explora as intrigas e os segredos das cidades de província, onde a coberto da aparente tranquilidade se desenrolam intrigas e se escondem segredos que nascem da disfunção. O que parece indiciar uma cidade pacata e acolhedora logo se transforma numa alergia a estranhos e ao seu efeito disruptor. A superfície ilude, mas não será essa a sua função?

 

Fargo mostra-nos como um encontro fortuito entre um sociopata e um mediador de seguros inseguro, vítima de bullying na infância e incapaz de estar à altura das expectativas da mulher, desperta neste último um impulso brutal de fúria, consumando o assassínio da consorte a golpes de martelo. Talvez por isto Emily Nussbaum tenha descrito a série na New Yorker como “uma tragicomédia acerca da emasculação vingada”. Billy Bob Thornton interpreta o sinistro, metódico e implacável assassino contratado e Martin Freeman é um soberbo marido frouxo, num registo onde a passividade e a raiva reprimida evoluem para uma escalada de dissimulação e perversão, arquitectando álibis e disfarçando indícios. A abrilhantar o elenco de personagens evoluem figuras como a viúva gananciosa, o bom polícia perseguido por um episódio de cobardia, o chefe de polícia enredado nas malhas da incompetência (tolhido pela amizade que a proximidade propicia, levando-o a desvalorizar as deduções da subordinada) e o magnata religioso atormentado por sucedâneos de pragas bíblicas. Magistralmente interpretada e notavelmente filmada, Fargo é um misto aditivo de violência patológica e agressividade comum, insinuando que a fronteira entre as duas é porosa.

 

Wayward Pines parte da mesma premissa, da smalltown com as suas figuras características e as suas leis próprias, aqui levadas ao extremo. Há regras estritas a cumprir (uma delas não falar do passado), a afabilidade dos indígenas é demasiado tensa para ser convincente para o forasteiro, que em breve descobrir-se-á acossado num ambiente totalitário e concentracionário onde a dissidência é brutalmente reprimida. O contexto é inquietante e indiscernível; sobram dúvidas acerca do tempo e do espaço: em que ano estamos? Quanto tempo passou? Por que razão não se pode sair de Wayward Pines?

O elenco inclui Matt Dillon, Carla Gugino, Terrence Howard (um xerife implacável com uma queda para os gelados) , Juliette Lewis (a girl next door com um coração de ouro) Toby Jones e Melissa Leo (uma enfermeira sádica com propósitos inconfessáveis). Sombria e intrigante, Wayward Pines enfrenta o desafio das séries do género: o acumular de enigmas é tal que o desfecho da história pode frustrar as expectativas, quer optando por uma explicação global simplista, quer enredando-se em rebuscadas congeminações que nem a larga latitude da suspensão da incredulidade suporta.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:32 link do post
Junho 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
25
26
27
28
29
30
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
comentários recentes
Uma clarificação em resposta a interpelação do lei...
Bom dia, Mas do que li pelo menos das citações que...
blogs SAPO