NO VAGAR DA PENUMBRA
31 de Janeiro de 2017

kirsten-dunst-fargo_-_h_2015.jpg

                                       Fonte: hollywoodreporter.com / FX

 

Peggy Blumquist é a girl next door numa terra onde toda a gente se conhece. Trabalha num salão de beleza, onde a insinuante e pouco subtil patroa a instiga a pôr o seu desejo de ascensão profissional e valorização profissional à frente das ambições do marido, Ed, um empregado de talho apostado em tomar conta do negócio. Peggy acumula revistas de moda até ao absurdo, mais recolectora que coleccionadora. E cumpre os seus deveres conjugais com um ar enfadado que oculta do seu esforçado e bem-intencionado marido. É feliz? É possível que se sinta dividida entre a gratidão pelo afecto de Ed, e o amor que por ele ainda nutre, e a sensação iniludível de que de alguma maneira ele a impede de atingir a plenitude das suas potencialidades. Peggy compreenderia muito bem o que José Tolentino Mendonça escreveu no Expresso deste fim-de-semana: “(…) a alegria é um contrabando frágil e os nossos sorrisos, a qualquer descuido, despedaçam-se como vidro que cai.”

 

Os dramas interiores de Peggy ganham novos contornos quando ela atropela o membro de uma família envolvida em actividades criminosas, dirigida pela matriarca Floyd Gerhardt, ocupada a moderar as ambições dos filhos e preocupada em proteger o negócio familiar da gula dos rivais. O acidente dá origem a uma espiral de violência e leva o pacato Ed a cometer actos sanguinários em nome da legítima defesa e da ilegítima ocultação de um crime.

 

A segunda temporada de Fargo, actualmente em exibição no AMC, cuja acção decorre em Março de 1979, cruza a trama policial com outras linhas narrativas (como a campanha eleitoral de Ronald Reagan ou a saga familiar dos Gerhardt alimentada por uma crise de sucessão) e, à semelhança da temporada inicial, brinda-nos com a sua mistura irresistível da violência com o insólito e o humor. Kirsten Dunst, no esplendor dos seus 33 anos, oferece-nos uma Peggy rica de cambiantes, ora enfadada ora empolgada, ora aturdida ora determinada, mas sobretudo humana. De Dunst poder-se-ia dizer como Evie de Pamela no romance de Emma Cline As Raparigas (Porto Editora, tradução de José Vieira de Lima): “(…) sentia por ela aquela atracção submersa que todos sentem pelos seres belos.”

 

publicado por J.J. Faria Santos às 21:20 link do post
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