NO VAGAR DA PENUMBRA
22 de Julho de 2015

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                       Imagem ambígua: Um rosto ou a palavra Liar (mentiroso)?

                                          (Courtesy of www.bertc.com)

 

As almas sensíveis arrepiam-se com a palavra mentira. Preferirão sempre expressões como “faltou à verdade” ou “proferiu uma falsidade”. Optarão sempre por sacrificar o rigor ou a frontalidade à cortesia. É certo que por vezes, mas só por vezes, hesitamos em qualificar determinadas asserções como flagrantes mentiras – podem ser manipulações mais ou menos grosseiras, interpretações selectivas que adulteram os factos, ou ainda opiniões apresentadas como se fossem dados inquestionáveis.

 

Na mais recente entrevista televisiva, o candidato da verdade não hesitou em distorcer estatísticas e fazer duvidosas afirmações definitivas. Na criação de postos de trabalho, optou por uma visão parcelar, omitindo os anos de 2011 e 2012.Na verdade, entre Junho de 2011 e Maio de 2015 perderam-se cerca de 259 000 postos de trabalho (por comparação, 196 000 empregos foram destruídos entre Fevereiro de 2005 e Maio de 2011). Já para não falar no efeito da emigração e dos desencorajados, que explicam mais de metade da redução do desemprego desde o início de 2013, ou ainda do impacto dos estágios do IEFP na criação de emprego. Já em relação ao memorando, afirmou que “as contas estavam mal feitas”, dizendo-se surpreendido, em Junho de 2011, com um défice para 2010 de 9,1% que já era conhecido em Abril de 2011. Convém não esquecer que, em Maio de 2011, Eduardo Catroga se vangloriou de que a negociação do memorando tinha sido “essencialmente influenciada pelo principal partido de oposição”, que a equipa chefiada por ele dera “uma grande contributo para este processo” e que o PSD ficara “com autonomia para propor um novo mix de políticas”. Será que foi o chefe da equipa de negociação do PSD e fotógrafo oficial do evento que avalizou as contas erradas? Ou a afirmação de Passos Coelho é um atestado de incompetência passado à troika?

 

Em Setembro de 2012, num POST publicado no sítio da Psychology Today, o professor universitário Jim Taylor enumerou seis razões pelas quais os políticos acreditam que podem mentir. Uma delas prende-se com o perfil psicológico da maior parte dos políticos, que ele percepciona como sendo narcisistas e, por conseguinte, com uma crença arreigada de invulnerabilidade, alimentada, por outro lado, por uma corte de seguidores dispostos a acreditar cegamente até ao inverosímil nas palavras do seu líder. Outras razões relacionam-se com a predisposição do eleitorado para preferir as boas notícias, ignorando o que “ameaça a sua existência ou as suas crenças”, por um lado, e, por outro, a “tendência para procurar informação que suporte as nossas ideias preconcebidas”. Por fim, Jim Taylor valida a crença comum de que uma mentira dita repetidamente alcança estatuto de verdade, e conclui: “Em última análise, os políticos mentem porque (…) o rácio do custo/benefício de mentir é-lhes favorável”.

 

No princípio do Outono saberemos se a tese de Taylor resulta em Portugal no benefício do infractor. Se um primeiro-ministro que se recandidata, em notório conflito com a verdade, que se propõe fazer campanha, nas palavras de Ricardo Costa, “com uma série estatística martelada”, logra ser novamente eleito, já não com base em promessas ilusórias mas sim num balanço enganador de feitos nunca alcançados, aplicando a palavra “reforma” ao mais banal articulado legislativo, com a ligeireza de procedimentos com que o seu irrevogável parceiro de coligação sacrificou a consistência de um texto ao tamanho do corpo da letra e à generosidade dos espaços.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:08 link do post
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