NO VAGAR DA PENUMBRA
08 de Agosto de 2017

 

Melancolia, tristeza, nostalgia. Matérias-primas que quer Hannah Reid, vocalista dos London Grammar, quer Lana Del Rey escolheram para enformar os seus projectos artísticos. Sentimentos mais lancinantes e cortantes no primeiro caso, embrulhados em glamour e ironia no segundo.

 

Os London Grammar regressam com Truth is a Beautiful Thing, 18 temas (na edição deluxe) que se comprazem em dissecar os altos e baixos das relações humanas, onde as promessas de ventura se confrontam com uma floresta de mentiras, incumprimentos e tentações. Não estivéssemos nós no terreno das relações amorosas e versos como os dos temas Trials (“And they were your words / So don’t leave them on their own / You should stand by them”) e Rooting for You (“And where did she go / Truth left us long ago”) remeter-nos-iam para o universo Trump e para uma administração que na definição lapidar do sempre inspirado Stephen Colbert se assemelha ao crime organizado, mas sem a parte do organizado.

Com uma recepção mista por parte da crítica especializada (Harriet Gibsone no Guardian descreve um trabalho musicalmente repetitivo e que se “afoga no seu próprio desespero”, enquanto que no New Musical Express se celebra a “variedade estilística” e se fala num elevar da fasquia), Truth is a Beautiful Thing cresce com as sucessivas audições. O trip-hop dos London Grammar não é música exuberante para esplanadas com vista para a praia soalheira, mas pode ser seguramente a banda sonora ideal para as madrugadas de Verão à beira-mar.

 

Já Lana del Rey parece ter abandonado o seu ar desencantado e sombrio, optando por um sorriso aberto no frontispício do seu novo trabalho (embora na contracapa de Lust for Life nos faça reencontrar o seu ar mais compenetrado). De qualquer forma, trata-se já de uma atitude mais matizada. Permanecem os temas de sempre, a América e os seus símbolos, os amores turbulentos e a atracção pelos bad boys. Reconhecemos de imediato uma sonoridade que é já uma marca registada: orquestrações sumptuosas ao serviço de uma voz que transmite emoção sem necessitar de um qualquer tour de force, enquanto que a qualidade vintage que se evidencia é actualizada (mas não ofuscada) por discretos elementos hip-hop. A sua música é contemporânea sem ser restritiva e é clássica sem ser datada.

Como notou Kitty Empire no Guardian, “este é um álbum sobre a América hoje”. E é impossível não pensar em Trump quando ela canta num tom imperativo em When the World Was at War We Kept Dancing: “We just want the fucking truth”. O nível de inquietação sobe quando a seguir ela lança duas interrogações: “Is it the end of na era? / Is it the end of America”, para tudo terminar com um certo apaziguamento. É que Lana apressa-se a explicar que isto é apenas o princípio e que, se nos agarrarmos à esperança, teremos um final feliz. Até porque quando o mundo esteve em guerra, nós persistimos na dança. Dancemos pois enquanto Trump se suicida politicamente no Twitter.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:38 link do post
01 de Agosto de 2017

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O azougado líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, político de grande visão panorâmica, cortesia dos seus 186 cm de altura, intimou, sob a forma de ultimato com prazo de 24 horas, o Governo a divulgar a “lista nominativa das pessoas que perderam a vida na tragédia de Pedrógão Grande”. O Hugo é sagaz e capaz de se adaptar “às circunstâncias, desde que sinta que a sociedade está preparada”. Deve ter tido um feeling de que a sociedade estava preparada para um ultimato em que não se enuncia a consequência do seu desrespeito. A estratégia era esperar a reacção governamental e depois improvisar. Só por má-fé é que alguém poderá supor que Hugo Soares fez uma exploração miserável de uma tragédia e aproveitou uma manchete ambígua para sugerir que o Governo ocultava dados. Devemos-lhe o benefício da dúvida que ele concedeu ao Executivo: “Eu não quero acreditar que o senhor primeiro-ministro e o Governo estão a fazer uma gestão política da tragédia que assolou Pedrógão Grande.” Era só o que nos faltava: O Ultimato Hugo depois da Crónica dos Suicídios Anunciados. Tirem-nos destes filmes manhosos de fundo de catálogo. Incatalogáveis.

 

Ela quer à viva força apresentar uma moção de censura. Para o efeito, ora sonda a opinião do Presidente da República, ora testa a opinião pública na comunicação social. Porque o CDS exige “nada mais, nada menos que a verdade”. Mas, ao contrário do azougado Hugo, a assertiva Assunção não fixa prazo. A paciência é uma virtude cristã. E da Cristas. Adquirida, quem sabe, na gestão dos humores da sua numerosa prole, ou nas expedições de botas e calças de ganga aos bairros sociais, onde, de acordo com a doutrina Câmara Pereira, não são admissíveis o “espartilho” e a “saia travada”, mas a censura mais destravada acode à boca das gentes. Mas nela a paciência anda a par com a persistência, e enquanto distribui generosamente acusações de cobardia política, vai ponderando a tal moção de censura. Para derrubar o Governo? Certamente que não. Como disse o ex-primeiro-ministro Passos Coelho, só alguém “desatento” é que consideraria que Costa não tem condições para governar. E a Assunção? Tem condições para censurar? Talvez tudo dependa do lado que sopre o vento de Lisboa que ela tem colado à pele.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:39 link do post
25 de Julho de 2017

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O que poderia dizer Passos Coelho – “Deus é bom mas o diabo também não é mau.”

 

O que poderia dizer José Sócrates – “Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros.”

 

O que poderia ser dito a Nuno Morais Sarmento – “O pensamento pode ter elevação sem ter elegância, e, na proporção em que não tiver elegância, perderá a acção sobre os outros. A força sem a destreza é uma simples massa.”

 

O que poderia dizer Cavaco Silva – “(…) o único dever dos superiores é reduzirem ao mínimo a sua participação na vida da tribo. Não ler jornais, ou lê-los só para saber o que de pouco importante e curioso se passa.”

 

O que poderia dizer Marcelo – “Nunca durmo: vivo e sonho, ou antes, sonho em vida e a dormir, que também é vida. Não há interrupção em minha consciência: sinto o que me cerca se não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde que deveras durmo.”

 

O que poderia dizer Paulo Portas – “Que sou hoje, vivendo hoje, senão a renegação do que fui ontem, de quem fui ontem? Existir é desmentir-se.”

 

O que poderia dizer António Costa – “Não vale a pena pressentir nem conhecer. Todo o futuro é uma névoa que nos cerca e amanhã sabe a hoje quando se entrevê.”

 

O que poderia ser dito a Assunção Cristas – “Repara bem que a obra que te propões fazer é no mais alto de tudo. (…) Cuida bem pois em que o teu rumo seja certo e não possam errar os teus instrumentos.”

 

O que poderia dizer Vasco Pulido Valente – “Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação.”

 

(Excertos de Livro do Desassossego de Bernardo Soares, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim.)

publicado por J.J. Faria Santos às 21:19 link do post
18 de Julho de 2017

O Ministério Público, conta o Expresso, queria fazer buscas em casa de Manuel Pinho. Um juiz recusou o pedido por insuficiência de indícios que o justificasse. Suponhamos que o juiz tinha aquiescido. Estão a imaginar um Manuel Pinho estremunhado, cabelo em desalinho, de roupão de seda, a abrir a porta de casa às 7 da manhã, ao que se seguiria um vasculhar minucioso da propriedade para apreender telefones, agendas e computadores? Bom, tirem daí o sentido. Parecendo antever um suspeito pouco colaborante, o DCIAP pretendia autorização para o arrombamento de fechaduras e a “desa(c)tivação  de sistemas de vigilância”. E para a eventualidade de Pinho lhes pretender atiçar os mastins, acautelaram igualmente a “administração de substâncias tranquilizantes adequadas à neutralização de animais”. Claro que há sempre a hipótese dos agentes terem ficado vivamente impressionados com a ferocidade do rosto do ex-ministro no Parlamento, no célebre episódio dos “corninhos”, e os tranquilizantes terem outro destinatário.

 

Três secretários de Estado demitiram-se na sequência da sua constituição como arguidos no processo mediaticamente conhecido por Galpgate. Demorou um ano para que lhes fosse imputada a suspeita de terem aceitado uma “vantagem patrimonial ou não patrimonial”. Aparentemente, não é considerado conforme aos “usos e costumes”, nem socialmente adequado, consentir na oferta de viagens e bilhetes para assistir a jogos de futebol da selecção nacional. Concentremo-nos no tempo decorrido. Qual a justificação para a delonga? Será um processo de extrema complexidade? Estiveram a ser analisadas resmas de documentos e centenas de transacções financeiras? Aguardar-se-ão respostas a cartas rogatórias?

 

Entrevistada por Isabel Lucas para o Público, a escritora inglesa Zadie Smith afirmou: “O que se chama ‘esquerda’ e ‘direita’ é sobretudo uma argumentação sobre dádiva, o que deve ser oferecido e o que deve ser ganho. Na esquerda, dependendo do grau, há a ideia de que há direitos naturais e que podem incluir educação, saúde, habitação. À direita há a noção de que não há coisas como direitos naturais, mas sorte e trabalho e, se te metes em sarilhos, tens de sair de lá”.

A mínima suspeita de que o direito à segurança e à não descriminação, e a protecção contra um tratamento desumano, racista e xenófobo não são dados adquiridos e podem estar dependentes da sorte numa qualquer lotaria do civismo é inquietante. E como explicar a opção por não suspender de imediato os prevaricadores? Não haverá risco de continuação da actividade criminosa? Frases como “Quero exterminar-vos todos desta terra”, “É preciso uma legislação para fazer a vossa deportação. Se eu mandasse vocês seriam todos esterilizados” e “Pretos do caralho, deviam morrer todos”, proferidos por polícias fazem evocar, seguramente neste caso, o “colapso do Estado” ou o “falhanço mais básico” da autoridade do Estado. Mas esta é uma caracterização que a direita parece hesitar em atribuir ao comportamento dos polícias da Cova da Moura. Reserva-a para os ataques políticos. Seria um equívoco não perceber que a mais eloquente defesa das forças de segurança passa sempre, à esquerda e à direita, pela condenação vigorosa de comportamentos que ferem a honra e a dignidade de uma corporação.  

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:50 link do post
11 de Julho de 2017

Primeiro foi a reunião privada com alguns dos seus conselheiros em Belém. Marcelo terá visto na tragédia dos incêndios, segundo a formulação da jornalista Ângela Silva no Expresso, “um ponto de viragem no estado de graça do Governo”. Os participantes neste núcleo íntimo terão apreciado este “susto da geringonça” que contribuirá para impedir uma hipotética futura maioria absoluta de Costa. Mesmo assim concedem que a popularidade do Governo não terá sido significativamente afectada. E, explica a jornalista, “o PR, mesmo sendo o primeiro na escala, não quer guerras com quem continua em alta”.

 

Depois veio a reunião com toda a equipa, temporalmente depois de Pedrógão e antes de Tancos, cujo conteúdo vem descrito no Expresso do passado sábado. O próprio PR terá definido a gestão política do Governo como má, “talvez por cansaço, sobranceria e falta de oposição”, mostrando-se convicto de que a crise pode “alargar o poder do Presidente”. Mesmo aventando a hipótese de cansaço, Marcelo terá discordado das férias de Costa. Quanto à falta de oposição, respondeu em tempo recorde a um pedido de audiência de Assunção Cristas e tê-la-á avisado de que a sucessão de demissões conduziria a uma moção de censura. Terá sido um aviso (uma especialidade marcelista, dado que não passa uma semana sem que um jornal, uma rádio ou uma estação de televisão não dê conta de uma qualquer advertência presidencial) ou uma sugestão?

 

Como se percebe facilmente, a diferença entre o focus group encomendado pelo PM ou pelo PS e os focus groups informais do PR é mínima. A diferença pode estar na divulgação nas letras gordas de uma manchete ou nas páginas interiores de um semanário. E, sobretudo, na perspectiva subjectiva de quem lê, que pode fazer leituras diametralmente opostas de uma legítima avaliação da situação política. De uma lado, o Marcelo interessado na consolidação do seu poder de forma a exercer mais eficazmente a sua missão de provedor dos afectos e consolador dos aflitos; do outro, o Costa sedento de poder a qualquer preço, cínico, sem escrúpulos e sem “fibra de líder”.

 

Espicaçado pelas circunstâncias, o Dr. Passos Coelho vai progressivamente perdendo a sua pose de estadista e multiplicando as tiradas demagógicas e populistas, ao passo que a Dra. Cristas pondera uma moção de censura (ambos têm um gigantesco sentido de Estado, que como se sabe é património imaterial da direita). A brigada liberal de bloggers e líderes de opinião carrega nos adjectivos com que qualifica o primeiro-ministro e com que pinta um cenário de apocalipse, agora. Na amálgama, a ausência de férias do primeiro-ministro nas Baleares é tão grave quanto o roubo de Tancos. Deploram o que chamam de “social-comunismo” e de “experiência do Terceiro Mundo às portas da Europa”, e dizem que Portugal está nas “mãos de criminosos”. Pelo meio, lamentam a suborçamentação dos organismos do Estado, o tal que era gordo, anafado e ineficiente. Costa é o alvo a abater e Marcelo insuficiente na defesa da causa liberal.

 

Que saudade que eles têm do tempo da austeridade expansionista, do viver abaixo das nossas possibilidades, dos níveis recorde de desemprego e pobreza, tudo em nome da grande marcha para a regeneração. Era um tempo em que não havia corporações, nem grupos de pressão, nem clientelas. Portugal renascia revigorado sob a batuta do grande líder Passos Coelho inspirado pelo guru Schäuble. Depois, vieram as eleições e Portugal suicidou-se ao permitir que o líder de uma seita heterodoxa tomasse o poder, ouviu dizer Passos Coelho. E passou a repetir, mesmo sem saber se a informação tinha sido confirmada.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:11 link do post
04 de Julho de 2017

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O título é para ser interpretado literalmente. Esta não é uma dissertação acerca da coragem e da integridade jornalística num qualquer contexto de franca hostilidade ou mesmo de cerceamento despudorado da liberdade de expressão. O que aqui se nota é mesmo a prevalência dos testículos no ciclo noticioso do Correio da Manhã (CM), do qual me proponho avançar com uma pequena amostra.

 

Em Maio do ano passado, o CM noticiava que uma senhora invisual, Angela Green, estivera detida durante 18 horas acusada de ter apertado os testículos a um polícia, chamado na sequência de distúrbios num bar no Reino Unido, deixando-os “com uma leve inflamação”. Afastemos do espírito a noção de que com a falta de um sentido os outros ficam mais aguçados (por exemplo, o tacto), e consideremos que a senhora negou as acusações e considerou o sucedido “traumatizante”.

 

No início de Abril do corrente ano, o destemido jornal noticiava que um formidável mestre de kung fu, de seu nome YE Wei (Yeah! Vai! Força!) bateu o seu próprio recorde de deslocação de viaturas com os testículos, ao puxar sete automóveis ligados por um corda, totalizando cerca de doze toneladas. Parece que o senhor alega que este feito “ajuda a aumentar a fertilidade”.

 

Lá mais para o final do mesmo mês, o jornalista Pedro Zagacho Gonçalves narrava a proeza original da vlogger Johanna Hines, que decidiu utilizar os testículos do namorado como “esponja de maquilhagem” para espalhar base na testa. O vídeo terá sido visto mais de 27 000 vezes e Johanna diz que muitas jovens se sentiram “inspiradas” com a atitude “divertida e confiante” dela. Enfim, a inspiração é muitas vezes a base de uma grande carreira.

 

A última semana de Junho de 2017 fica marcada por duas notícias trágicas e mesmo horripilantes. No dia 27, o Correio da Manhã noticiava que duas pessoas tinham sido condenados no Reino Unido a prisão perpétua por terem “cortado, cozinhado e obrigado outra a comer o seu próprio testículo”. Antes de ser selvaticamente torturada e morta, a vítima “foi forçada a manter relações sexuais com um cão”. Este último facto, porém, não fora o contexto de violência e de condicionamento da vontade, poderia até receber o beneplácito do Dr. Quintino Aires em nome da confraternização das espécies do reino animal.

 

Por fim, dois dias depois, o CM narrava o pungente caso do testículo que “explodiu”. Na sequência de uma discussão acerca de uma luta de galos (cockfight em inglês, isto está tudo ligado…), a senhora Anima Kharia, residente numa aldeia no norte da Índia, esmagou com as mãos os testículos do sogro, levando-o a esvair-se em sangue até à morte. O Correio da Manhã, citando o Hindustan Times, diz que na autópsia consta como uma das causas da morte o facto de “um dos testículos explodir”. O jornal indiano, na sua versão online, é bastante mais sóbrio na descrição dos eventos, quer no título quer no corpo da notícia. No título avança que a morte foi causada pelo aperto/esmagamento das “partes privadas”, acrescentando depois como causa provável da morte a “hemorragia interna causada pela ruptura do órgão”. Ruptura, para o CM, não é suficientemente impressivo. Romper é escasso. A ideia da explosão evoca detonação e /ou a “fragmentação estrondosa de um corpo”, e estará mais próxima do seu conceito de informação.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:38 link do post
27 de Junho de 2017

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Este texto não é sobre o incêndio, as falhas do SIRESP, as insuficiências da protecção civil, a anarquia no ordenamento do território, as falhas de cidadania ou a responsabilidade de autoridades e eleitos políticos. Este texto não é sobre os que morreram, os que se salvaram ou os que salvando-se morreram um pouco.

 

Este texto não é sobre o deputado da oposição indignado por Marcelo ter ajudado o Governo “a esconder as deficiências da sua actuação”, nem sobre a jornalista que acha que o Presidente “protagonizou em Pedrógão o maior show de afectos da sua magistratura”, destacando que ele “chegou ao terreno um dia antes do PM”.

 

Este texto não é sobre bombeiros desesperados, articulando via rádio pedidos de ajuda entrecortados por lágrimas, sobre a carrinha de peixe requisitada para albergar cadáveres, ou ainda sobre o desabafo de um secretário de Estado nos braços do Presidente: “Não vamos conseguir, estamos perdidos”.

 

Este texto não é sobre o colunista do Expresso que acha que o “incompetente” António Costa já deveria estar “politicamente destruído”, nem sobre o colunista do Público que não apreciou o “show de afectos” do PR porque “usar os abraços para desculpar a incompetência é obsceno”.

 

Este texto não é sobre as peças jornalísticas cuidadosamente encenadas e com direito a banda sonora, embelezadas com travellings de drones, com direito a títulos “apelativos” do género “Estrada da Morte” como se fossem um trailer de  uma fita de Walter Hill ou Quentin Tarantino. Um filme-catástrofe. Nem sequer sobre jornalistas consagradas em reportagens ilustradas com cadáveres. Como se a sua palavra fosse insuficiente, escassa. Como se o horror fosse indizível sem o visível.

 

Este texto é acerca do quê? De como concordando todos com um apuramento exaustivo do que terá sucedido, com a consequente enumeração dos factos e a previsível atribuição de responsabilidades, ninguém conseguir resistir à gritaria das conclusões instantâneas e dos libelos acusatórios. Por isso, este é sobretudo um texto contra o ruído. Poupem-nos a indignações efusivas nos púlpitos públicos. E às estilizadas imagens a preto e branco sublinhadas por música fúnebre. Por agora, concedam-nos o silêncio.

 

(Imagem: pormenor de "L'échelle de feu" de René Magritte)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
20 de Junho de 2017

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Leio que uma fonte próxima do jogador disse à BBC que Cristiano Ronaldo está “magoado”, “muito triste” e “incomodado” com as notícias de que terá subtraído às Finanças espanholas um valor de cerca de 14,7 milhões de euros. “Não entende o que se está a passar”, porque “sabe que é honesto”.

Percebo o “incomodado”. Uma reacção natural, que compreensivelmente poderia evoluir para a irritação ou até para a fúria. Dirigida à administração fiscal ou aos fiscalistas e advogados que o aconselharam.  Já a mágoa e a tristeza remetem-no para uma certa infantilização, uma dificuldade em lidar com a frustração ou a contrariedade proporcional à volumetria do seu ego.

 

Não sei, neste caso, até que ponto o planeamento fiscal se aproximou demasiado da infracção ou confiou largamente numa qualquer expectável uniformidade de critérios. Mas sei que a alegada incompreensão do jogador para o que se está a passar só pode ser uma figura de retórica, uma pretensão de tratamento diferenciado ou uma estratégia jurídica. Ronaldo pode achar demasiado técnica a distinção entre rendimentos de capital mobiliário (como declarou) e rendimentos de actividade económica (como a administração fiscal espanhola achava que ele deveria ter declarado). Mas deverá compreender muito bem o que significa ser tributado sobre 20% do rendimento ou sobre 100%, que é o que supostamente está em causa. E deve, pelo menos, suspeitar de que as três empresas offshore por onde circularam os proventos dos seus direitos de imagem como jogador do Real Madrid estariam ligadas a um qualquer mecanismo de “eficiência fiscal”. E não lhe soará abstruso que as entidades fiscais da generalidade dos países estejam particularmente atentas aos movimentos de e para empresas localizadas em paraísos fiscais, e avaliem a conformidade legal da declaração dos rendimentos associados a esses movimentos.

 

Dado que Cristiano Ronaldo é particularmente susceptível de ser acometido de melancolia e tristeza súbitas quando está em causa a renegociação do seu contrato ou a recepção de propostas vantajosas de outros clubes, não estou inteiramente seguro de que o proclamado estado de espírito do jogador se deva unicamente às suas atribulações fiscais. Mas se o for, recomenda-se que se empenhe em defender vigorosamente a sua posição sem que entenda o escrutínio como a profanação de um ídolo.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:12 link do post
13 de Junho de 2017

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Melania Trump publicou esta foto no Twitter. Em recolhimento, medita, reza ou pondera a pertinência de um muro na fronteira com o México? Não é provável que fique demasiado esfaimada para aguentar esperar por um jantar às oito em ponto, (até porque se mantiver a disciplina dos tempos de modelo, ingerirá entre “cinco a sete vegetais e fruta por dia” e beberá muita água, a fazer fé no relato de um fotógrafo que a conheceu em 1996 e que agora falou com a jornalista Evgenia Peretz da Vanity Fair), mas não há dúvida que a senhora é uma Trump. Sem particular interesse em frequentar as galas de beneficência, sem apetência por estatuto social ou empenho por uma causa, Melania Trump é encarada pelas socialites nova-iorquinas, refere Peretz, como “uma mulher com um interesse extraordinário em preservar a sua beleza, tarefa em que tem sido largamente bem-sucedida”.

 

É infeliz? Bom, parece certo que se a “tramp” da canção da dupla Rodgers-Hart detestava a Califórnia (neste caso será Donald que detestará o ex-governador da Califórnia…), a senhora Trump odiará Washington, o papel de primeira-dama e os barões da política americana. Não é fácil perceber por entre a floresta de rumores (adultério com um segurança, ponderação de divórcio, vidas separadas e, quando coabitam, quartos separados), qual o verdadeiro estado de espírito da eslovena. Talvez este seja o ingrediente secreto da sua personalidade pública: a inescrutabilidade. Evgenia Peretz desconfia que depois de duas esposas exuberantes e afirmativas, Donald terá escolhido para terceira consorte uma mulher simultaneamente atractiva e enigmática, mas sobretudo “decorativa e educada, não carente ou maçadora”.

 

Pode ser que ela seja um mulher que preza a sua privacidade, pode ser que o seu incipiente e pouco consistente interesse pelo combate ao cyberbullying seja um símbolo da sua tragédia matrimonial, pode ser que haja um muro que ela almeje derrubar e esse muro se chame Donald. (Mrs. Trump, tear down this wall! – poderia incitá-la Reagan, se fosse vivo.) Mas, no momento actual, o que prevalece é a noção de que o enigma se esgota nessa condição. Como um mistério que, quando desvendado, se pode resumir à mais prosaica banalidade.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:49 link do post
06 de Junho de 2017

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A pretexto da publicação americana de uma nova tradução da responsabilidade de Margaret Jull Costa de A Ilustre Casa de Ramires (The Illustrious House of Ramires), a New York Review of Books editou online um artigo de James Guida sobre Eça de Queirós intitulado O Proust de Portugal, onde se citam a convicção de José Saramago de que Os Maias é o melhor livro do maior escritor português e também a afirmação de V. S. Pritchett que compara a obra de Eça à de Proust.

 

Guida reconhece o lugar relevante de Eça na literatura em língua portuguesa e considera que, internacionalmente, ele é visto como um “par desvalorizado dos grandes escritores realistas do século XIX”. De seguida, porém, recorda a dificuldade dos críticos em catalogá-lo, equacionando até que ponto o realismo teria sido contaminado pelo romantismo, e se não seria mais apropriado encará-lo como um “camuflado escritor avant-garde”. Destacando a sua “invulgar ironia, que combina uma misantropia cortante com uma ampla e diversificada atenção à dor humana”, James Guida nota que um significativo número das personagens de Eça exibem um tom bastante crítico quando se referem a Portugal seu contemporâneo, acompanhado por uma melancolia pelas glórias do passado. E num tributo ao seu realismo, refere que “os pobres nos seus livros são verdadeiramente pobres, sem sequer a ilusão da mobilidade ascendente, susceptíveis à doença, e encorajados pela Igreja a aceitar o seu destino como sinal de virtude cristã”.

 

Em Janeiro de 1996, num artigo publicado no Expresso, Osvaldo Silvestre referia a partir da afirmação de Harold Bloom de que “o Cânone Ocidental é Shakespeare e Dante” que uma transposição para a nossa literatura deste preceito levaria a concluir que “o cânone português é Camões, Eça e Pessoa”. Uma curiosa ligação entre estes dois últimos foi estabelecida em Agosto de 2000 por Carlos Reis quando, questionado acerca do facto de ter defendido que Eça encarregava Fradique Mendes de dizer o que ele optava por silenciar, afirmou em entrevista ao mesmo jornal: “O que o impede de dar a Fradique Mendes uma autonomia mais radical ainda, de fazer dele um verdadeiro heterónimo, é a falta de um valor que será fundamental na modernidade do século XX. Esse valor é o da incoerência. A Eça, falta a noção, mais tarde assumida por Álvaro de Campos, com uma certa agressividade iconoclasta, de que se é vários num só. Isto é, a noção de que a unidade do sujeito é uma ficção.”

publicado por J.J. Faria Santos às 20:19 link do post
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