NO VAGAR DA PENUMBRA
06 de Junho de 2017

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A pretexto da publicação americana de uma nova tradução da responsabilidade de Margaret Jull Costa de A Ilustre Casa de Ramires (The Illustrious House of Ramires), a New York Review of Books editou online um artigo de James Guida sobre Eça de Queirós intitulado O Proust de Portugal, onde se citam a convicção de José Saramago de que Os Maias é o melhor livro do maior escritor português e também a afirmação de V. S. Pritchett que compara a obra de Eça à de Proust.

 

Guida reconhece o lugar relevante de Eça na literatura em língua portuguesa e considera que, internacionalmente, ele é visto como um “par desvalorizado dos grandes escritores realistas do século XIX”. De seguida, porém, recorda a dificuldade dos críticos em catalogá-lo, equacionando até que ponto o realismo teria sido contaminado pelo romantismo, e se não seria mais apropriado encará-lo como um “camuflado escritor avant-garde”. Destacando a sua “invulgar ironia, que combina uma misantropia cortante com uma ampla e diversificada atenção à dor humana”, James Guida nota que um significativo número das personagens de Eça exibem um tom bastante crítico quando se referem a Portugal seu contemporâneo, acompanhado por uma melancolia pelas glórias do passado. E num tributo ao seu realismo, refere que “os pobres nos seus livros são verdadeiramente pobres, sem sequer a ilusão da mobilidade ascendente, susceptíveis à doença, e encorajados pela Igreja a aceitar o seu destino como sinal de virtude cristã”.

 

Em Janeiro de 1996, num artigo publicado no Expresso, Osvaldo Silvestre referia a partir da afirmação de Harold Bloom de que “o Cânone Ocidental é Shakespeare e Dante” que uma transposição para a nossa literatura deste preceito levaria a concluir que “o cânone português é Camões, Eça e Pessoa”. Uma curiosa ligação entre estes dois últimos foi estabelecida em Agosto de 2000 por Carlos Reis quando, questionado acerca do facto de ter defendido que Eça encarregava Fradique Mendes de dizer o que ele optava por silenciar, afirmou em entrevista ao mesmo jornal: “O que o impede de dar a Fradique Mendes uma autonomia mais radical ainda, de fazer dele um verdadeiro heterónimo, é a falta de um valor que será fundamental na modernidade do século XX. Esse valor é o da incoerência. A Eça, falta a noção, mais tarde assumida por Álvaro de Campos, com uma certa agressividade iconoclasta, de que se é vários num só. Isto é, a noção de que a unidade do sujeito é uma ficção.”

publicado por J.J. Faria Santos às 20:19 link do post
28 de Maio de 2017

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                                               Fonte: purpletravel.co.uk

 

“O noivo deve (…) evitar comparecer na cerimónia com ar de playboy hondurenho com sífilis, o que acontecerá se tiver a infeliz ideia de sair dire[c]tamente da despedida de solteiro num obscuro clube de strip para uma igreja toda iluminada.” E quanto à farpela? Bom, o colete só é aceitável se “o perímetro abdominal do noivo não o fizer parecer um pinguim suicida”. Estes inestimáveis conselhos são espraiados logo no segundo parágrafo do imperdível e hilariante texto de Bruno Vieira Amaral Como sobreviver à cerimónia de casamento, publicado na edição de Maio da GQ portuguesa.

 

A selecção dos convidados é apresentada como uma tarefa altamente delicada, onde o bom senso, o tacto diplomático e o carácter abrangente são fundamentais para evitar conflitos que “só serão sanados no próximo funeral”. Quanto à escolha da música, o autor desengana os que anseiam pelos Pearl Jam, os Radiohead ou Leonard Cohen; tudo acabará com um icónico tio a “liderar a marcha ferroviária do Apita o Comboio e [a] anunciar, com todo o entusiasmo alcoólico, que gosta de chupar os peitos da cabritinha”.

 

Também não vale a pena esperar do banquete uma celebração gastronómica com requintes de gourmet, onde se conjugariam a elegância dos modos com a frugalidade da degustação, pois é certo e sabido que “uma festa de casamento é uma celebração boçal da quantidade, da abundância e do excesso”. E por falar em festa, o menino dança? Bom, para os menos dotados, Bruno Vieira Amaral recomenda umas aulas e também “inspiração divina para que os convidados não fiquem a pensar que sofres de alguma doença generativa”.

 

No final do dia, previsivelmente, o noivo (nas também a noiva) estarão à beira da exaustão. A exibição a mata-cavalos da felicidade é cansativa. O álcool contribuirá para a lassidão com o seu efeito de relaxamento. Previne o autor: “Bebe o suficiente para te desinibires, mas não regridas a um estado só aceitável para quem tem 18 anos e está num hotel de terceira categoria em Torremolinos”.

 

E quanto aos prazeres carnais, Bruno Vieira Amaral antevê que os esponsais, fruto da fadiga da jornada, “mais do que prazeres escandalosos, experimentarão a paz do repouso merecido”, e sugere que adiem “as acrobacias e o sexo aeróbico para a lua-de-mel”.

publicado por J.J. Faria Santos às 15:48 link do post
21 de Maio de 2017

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Não se pode dizer que ele tenha defraudado as expectativas. Na verdade, superou-as. Só mesmo aqueles que esperavam uma conversão, ou sobretudo o efeito milagroso do cargo para instilar gravitas e bom senso, é que poderiam supor que o candidato especialista em bullying político se transformaria num Presidente sensato. Como se comprova com a sua peculiar forma de exercer o poder, não há forma de qualquer conselheiro, assessor ou amigo íntimo moderar a sua homérica auto-suficiência, o seu brutal pendor autoritário ou a irreprimível incapacidade de reconhecer a sua própria ignorância. Como escreveu David Von Drehle na Time: “Não há limite para as descobertas que uma pessoa pode fazer quando se candidata a um alto cargo sem se preocupar em saber o que ele pressupõe.” Eis a razão pela qual ele não compreende as reacções hostis que as suas decisões provocam ou se espanta com as complexidades do sistema de saúde.

 

Donald Trump, de acordo com o New York Times, disse a dirigentes russos que despedira o director do FBI porque ele era maluco (“crazy, a real nut job”). Mas, e por falar em saúde mental, John Gartner, psiquiatra e professor universitário, disse ao Expresso que “Trump está doente. Sofre de narcisismo maligno”. Esclarece o jornal que esta condição, que é incurável, se distingue do “narcisismo clássico porque inclui paranóia, comportamento anti-social e sadismo”. Já para o professor de Harvard Lance Dodes, “além do narcisismo maligno, ele também sofre de hipomania, dada a agressividade, irritabilidade e arrogância”.

 

Uma das persistentes frustrações do Presidente é o que ele caracteriza como a falta de respeito da imprensa, cujas boas graças ele esperava conquistar depois de eleito. Para o fervoroso twitterati, para o consumidor ávido dos canais de informação, para o eterno promotor da marca Trump, a má imprensa deve constituir um tormento. Que aprendeu a esconjurar com o bordão fake news. A revista Time nota que apesar de permanecer em modo combativo, o Presidente já não utiliza exclusivamente uma estratégia de conflito, embora permaneçam actuais três regras de ouro: quando se está certo, luta-se pelas convicções; a controvérsia ajuda a fazer passar a mensagem; nunca pedir desculpas.

 

Como resistirá a marca Trump a esta aventura (“acontecimento inesperado; sucesso imprevisto; empresa arriscada; acaso; perigo; risco.” - algumas definições propostas pela Enciclopédia Público/Verbo) presidencial? Graydon Carter não tem dúvidas e escreve na Vanity Fair de Abril que “quando a poeira assentar, a verdadeira história começará a ser escrita”. Nessa altura, o homem que é já “o mais ridicularizado do planeta” perceberá que a marca Trump se tornou tão tóxica quanto a marca Madoff.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:39 link do post
14 de Maio de 2017

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                         Fonte: irishtimes.com (Michael Campanella/Getty Images)

 

As últimas aparições do Salvador ocorreram em Kiev a 13 de Maio. No seu transe interpretativo, cantou rodeado dos fiéis devotos da Eurovisão, habituados a performances exuberantes, numa atmosfera quase mística de silêncio, comoção e pontos de luz. Cantou as suas preces pelo regresso de um amor relutante. O artesanato da simplicidade bateu a indústria dos sucessos formatados para uma ditadura do gosto unidimensional. O brilho da autenticidade ofuscou o fulgor inconsistente do fogo-de-artifício. Alguns de nós, a partir de certa altura, começaram a acreditar que uma canção com uma sonoridade intemporal poderia produzir um milagre. E assim foi. Numa cerimónia profana à escala europeia, um hino ao amor quebrou a barreira da língua e ameaça aspirar à universalidade.

publicado por J.J. Faria Santos às 19:42 link do post
09 de Maio de 2017

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                       "La Tour Eiffel" de Raoul Dufy (Courtesy of Bert Christensen)

 

A reacção do independente bacteriologicamente puro Rui Moreira às palavras da secretária-geral-adjunta do PS fez-me lembrar um sketch do programa Herman Enciclopédia no qual, às tantas, alguém acabava a vociferar “Este homem não é do Norte, carago!”, comentário a que se seguia, invariavelmente, a tentativa de acalmar o furibundo com um “Oh homem, não se desgrace!”.

Moreira poderia ter-se limitado a garantir que era imune a pressões e a sustentar a sua absoluta liberdade na escolha da sua lista, mas para o tonitruante independente com um horror a essa excrescência da democracia que são os partidos tornou-se imperativo recusar o apoio de um partido “que não percebeu o seu lugar”. Que seria talvez no sótão, ou na cave, como uma visita indesejada ou um familiar inconveniente. O que ele aprecia é o estilo silent partner do partido de Assunção Cristas.

Na certeira expressão do ex-primeiro-ministro, o PS sentiu-se “enxotado” e Costa tratou de afirmar que “amigo não empata amigo”. O nº2 da Câmara do Porto resistiu à tentativa de aliciamento do nº1 e vai enfrentá-lo novamente em eleições. Moreira, que não se desgraçou, tem agora o apoio de um bloco ideologicamente mais homogéneo e mais adequado ao seu próprio posicionamento político, mas sobretudo o que todo este episódio revela é que no estilo de liderança ele é um digno sucessor de Rui Rio.

 

Parece que Marcelo não é independente (nem técnico). E, tal como Pessoa dizia de Jesus Cristo, não é especialista em questões económico-financeiras. Quem o diz é Maria Luís Albuquerque, não incluindo o Presidente no rol de entidades “independentes do Governo e da maioria”, como por exemplo a UTAO, o FMI ou as agências de rating. Mas o pensamento de Marcelo é, como os seus desígnios, insondável. Ou plural e abrangente em toda a riqueza das suas ramificações. E, tal como Luther King, ele tem, a fazer fé no Expresso, um sonho: “ver a sua família política de origem em forma para uma coligação que verdadeiramente disputasse as eleições a António Costa”. Claro que os sonhos não impedem que na realidade ele exerça (ou se esforce por exercer, ou dê a aparência de exercer) uma magistratura independente. O pretenso equívoco de Maria Luís poderá ser apenas parcial: Marcelo coopera com Costa mas o seu coração baterá sempre à direita (ele diria à esquerda da direita).

 

Emmanuel Macron é independente e afirma que não é de esquerda nem de direita. (Não, também não será radical do centro, nem da esquerda do centro, nem da direita do centro.) Há quem o caracterize como maquiavélico, teimoso, com poucos amigos e relação distante com os pais (Marine também se “distanciou” do pai…). O que parece perturbar actores políticos e analistas é que as posições dele são demasiado heterodoxas para o enquadrar em categorias políticas tradicionais. É difícil conciliar o retrato de candidato da alta finança com propostas como um sistema universal de seguro-desemprego ou sanções para empresas que abusam de contratos de curta-duração, ou ainda com a sua visão crítica de uma União Europeia demasiado submissa perante a ortodoxia alemã. O que de mais notável Macron fez até agora foi demolir a sua adversária, expondo fraquezas e indignidades. E fê-lo com vigor e utilizando uma linguagem por vezes brutal, sem receio de afugentar os eleitores ditos moderados. Há alturas em que os cálculos eleitorais não devem impedir a afirmação clara e radical de valores civilizacionais inalienáveis. Que o prémio seja a vitória deixa-nos confortados, mesmo que inquietos face ao crescimento da Frente Nacional. É caso para dizer que a luta continua.

 

A independência do Papa Francisco pode medir-se pela forma desassombrada como se pronuncia sobre diversos assuntos sem a preocupação de ponderar se o que diz se enquadra na doutrina subscrita pela Cúria Romana. As suas marcadas preocupações sociais (com as referências à “economia que mata”, “aos homens e mulheres sacrificados aos ídolos do dinheiro e do consumo” e as suas alusões às pessoas que se dizem “muito católicas” mas que fazem “negócios sujos” e se aproveitam das outras pessoas) afastam-se da corrente que insiste em censurar comportamentos e modos de vida e vincar os interditos. O Papa Francisco não hesita em afirmar que quem “só pensa em fazer muros, seja onde for, em vez de fazer pontes, não é cristão”, pelo que a sua “Igreja não tem as portas fechadas para ninguém”.

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 21:01 link do post
01 de Maio de 2017

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O centenário do fenómeno comummente apelidado de aparições de Fátima parece ter contribuído para um debate acerca da forma mais rigorosa de o caracterizar, nomeadamente por parte de figuras representativas da hierarquia da Igreja portuguesa ou de respeitados teólogos ou clérigos que evitam, por feitio ou por estratégia, a contestação aberta à doutrina oficial.

 

Não estamos, portanto, no âmbito da denúncia activa e da crítica feroz de figuras heterodoxas como o padre Mário Oliveira, que designa o descrito no relato dos três pastorinhos de “encenações teatrais”, e que classifica Fátima como um “negócio, pura idolatria”, em síntese, um testemunho de “desamparo espiritual”. Quando D. Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano, ou Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, referem a necessidade de distinguir aparições de visões (“uma aparição é algo objectivo”, afirmou este último em entrevista ao Expresso; “as visões são fenómenos místicos, espirituais, não físicos”, declarou o primeiro ao Público), há uma preocupação de rigor que procura pôr uma poderosa manifestação espiritual a salvo do escárnio e da ridicularização. E, por isso, nem um nem outro prescindem da clareza de certas afirmações, como é o caso de D. Carlos Azevedo ao afirmar que “Nossa Senhora não aprendeu português para falar com Lúcia” ou que “Maria não vem do céu por aí abaixo”. E é também o caso do P. Anselmo Borges ao afirmar taxativamente que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”.

 

Era de esperar que estas considerações inquietassem as facções mais conservadoras da Igreja. Porventura, receiam, com o paternalismo e a epidérmica reacção com que encaram qualquer desvio da linha tradicional como um desafio à autoridade e uma porta aberta ao transvio do rebanho, que a grande massa ignara dos fiéis não alcance a subtileza desta distinção. O padre Gonçalo Portocarrero de Almada concede no Observador que os acontecimentos de Fátima não constituem “matéria de fé”, e que “não oferece dúvidas que, de facto, Nossa Senhora não apareceu, em sentido técnico, na Cova da Iria”, mas discorda do P. Anselmo Borges quando ele se refere a “uma experiência religiosa interior” dos pastorinhos. Socorre-se de Bento XVI para descrever o sucedido como uma circunstância em que “a alma recebe o toque suave de algo real mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos”. O colunista do Observador discorda também da afirmação do P. Anselmo Borges de que se pode “ser um bom católico e não acreditar em Fátima”, considerando “pouco provável” que “quem não aceita o veredicto da hierarquia eclesial em relação a estas aparições” o possa ser. Portocarrero de Almada subscreve a ideia do cardeal Ângelo Sodano de que “a visão de Fátima refere-se sobretudo à luta dos sistemas ateus contra a Igreja e os cristãos”, pelo que se depreende que o imperativo da expansão da fé torna irrecorríveis os veredictos da hierarquia e censurável toda e qualquer dissensão.

 

Frei Bento Domingues, na sua colina dominical no Público, afirmou ter relido as Memórias de Lúcia. Especificamente em relação à descrição do Inferno considera que “não excede” o que escutara em criança, concedendo que “como sugestão para um filme de terror” não estava nada mal. Reconhecendo que “Nossa Senhora mostrou que era uma pessoa muito organizada e pouco supersticiosa com o dia 13”, Frei Bento Domingues declara-se “desapontado com a pouca originalidade das suas revelações e pedidos”. (São admissíveis estes considerandos bem-humorados ou estará neste momento o P. Portocarrero de Almada à beira da apoplexia a marcar o número do altíssimo - a hierarquia, claro, não a divindade?)

 

Frei Bento Domingues não foi vidente. Não terá tido, nas palavras de outro Bento, o XVI, “uma percepção real de origem superior e íntima” que distinguirá as visões sagradas da profana fantasia. Talvez por isso, ou sobretudo por considerar a reflexão teológica mais útil que o estatuto de divulgador dos veredictos da “hierarquia eclesial”, considera que “Fátima dá uma imagem do catolicismo português que não corresponde à reforma desencadeada pelo Papa Francisco.”

publicado por J.J. Faria Santos às 17:14 link do post
25 de Abril de 2017

 

As reuniões familiares são tanto sobre o passado como sobre o futuro. E ainda bem que assim é. A nostalgia e a evocação do que já foi e dos que já se foram podem ser reconfortantes, mas nada como o dinamismo irrequieto das novas gerações e a sua sofreguidão de viver para nos reconciliarmos com uma visão exaltante da vida, mesmo quando, como escreveu Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, “Existir é tão completamente fora do comum que se a consciência de existir demorasse mais de alguns segundos, nós enlouqueceríamos”.

 

Quase cinco anos depois, a segunda edição de uma espécie de cimeira familiar luso-brasileira aconteceu com a participação especial de um trio vindo do Brasil, numa altura em que, citando Vinicius e o seu Sonêto de Maio, “Suavemente Maio se insinua / Por entre os véus de Abril, o mês cruel / E lava o ar de anil, alegra a rua / Alumbra os astros e aproxima o céu”. Desta vez Abril prescindiu da crueldade e o calor atmosférico pediu meças à atmosfera calorosa que persistiu durante o dia inteiro.

 

Havia no ar um perfume a bossa nova. E isso foi mérito sobretudo de quem atravessou o Atlântico. Ao contrário de ritmos mais avassaladores como o forró ou o samba (que me deixam sempre na dúvida se a alegria esfusiante é o retrato de uma felicidade permanente ou um disfarce corajoso e comovente de uma tristeza que teimosamente resiste), a bossa nova, com o seu balanço suave e o seu aroma a mar e sol, lembra-me sempre a alegria tranquila de quem se tornou mestre na arte de bem viver.

 

As conversas em grupos abertos foram-se multiplicando, as histórias de sempre foram recontadas (qual será o milagre da originalidade redescoberta que permite que continuemos a acolher com o mesmo espanto e satisfação narrativas que já ouvimos tantas vezes?), os protagonistas alternaram. A varanda funcionou como sala de fumo ao ar livre, refúgio de vícios. (O que seria da vida sem vícios? A virtude cansa e está seguramente sobrevalorizada…)

Tudo terminou (não pensemos no fim, isto é no fundo um intervalo. Como nas novelas, continua no próximo capítulo…) com um retrato de grupo, numa encenação que Fellini não desdenharia, culminando com o fotógrafo de ocasião (um empregado do restaurante) a ser aplaudido unanimemente pelo mérito de ter conseguido enquadrar toda a gente.

 

O trio brasileiro estava nas vésperas de partir para Londres, segunda paragem na rota europeia. Poderá o charme londrino fazer esquecer o Sol oculto pelo nevoeiro persistente? Confrontados com o London fog sentirão saudades da luz de Portugal? Ah! Chega de saudade! Mas a verdade é que “os olhos já não podem ver / Coisas que só o coração pode entender”.

publicado por J.J. Faria Santos às 16:26 link do post
17 de Abril de 2017

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                                               Fonte: www.neogaf.com

 

“É bruto, ignorante, mentiroso, dado a fantasias, habituado ao bullying, sem princípios, moral ou vergonha, egocêntrico até ao limite.” Eis o retrato psicológico do Presidente dos Estados Unidos traçado por Pacheco Pereira no Público de sábado. O pretexto foi a necessidade de não deixar que a maneira genericamente favorável com que foi encarado o ataque à Síria faça esquecer os perigos de uma personalidade instável e errática.

 

Na New Yorker online, também Jeffrey Frank se indigna com o manto de carisma presidencial que subitamente enfeita os ombros de Trump, como se alguém tivesse carregado no “botão da amnésia nacional”. Frank, que recorda as palavras que ele proferiu em Novembro, poucos dias antes das eleições, em que censurava Hillary Clinton por alegadamente querer iniciar “uma guerra na Síria em conflito com uma Rússia com capacidade nuclear” e alertava para o risco de uma terceira guerra mundial, frisa que o que é sobremaneira preocupante é que Trump “não pensa nas consequências do que diz e faz”, e que nas suas acções não se consegue distinguir nem consistência nem um princípio orientador. E neste aspecto, conclui, não é diferente de Kim Jong-un.

 

O paralelo entre o Grande Sucessor da Coreia do Norte e o Presidente que quer tornar a América novamente grande já tinha sido objecto de considerações por parte do editor da Vanity Fair. Graydon Carter elencou as semelhanças no editorial da edição de Março: “Penteado manhoso? Confere. Fatos que assentam mal num corpo volumoso? Confere. Personalidade errática e instável? Confere. Maneira simplista de olhar o mundo? Confere. Vocabulário primitivo? Confere. Odeia um país a Sul? Confere. Não aceita qualquer contestação dos subordinados? Confere. Alta susceptibilidade e tendência para retaliar desproporcionadamente em relação aos críticos? Confere.”

 

Kim foi eleito em Setembro de 2016 com 100% dos votos na circunscrição que concorreu, das quase 700 divisões administrativas em que se divide o país. Claro que em cada uma delas só havia um candidato. Já Trump, num sufrágio que formalmente cumpriu as regras das democracias ocidentais e do primado da lei, ganhou confortavelmente no colégio eleitoral (o que era fundamental) mas perdeu no voto popular por uma margem ligeiramente abaixo dos três milhões de votos. A propensão para o exercício despótico do poder por parte de Trump estará teoricamente controlada pelos checks and balances do sistema político americano; Kim (e toda a sua patética legitimidade mitológica e dinástica) estará aparentemente controlado pela circunstância da sua dependência económica da China. Ainda assim, o poder absoluto deste último e a mistura alarmante de paranóia e exaltação do nacionalismo tornam-no um perigoso e imprevisível interveniente nos jogos de guerra.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:25 link do post
11 de Abril de 2017

 

Logo a seguir à hipérbole da predisposição dos franceses para arriscar a vida em duelos e morrer por amor vem a constatação óbvia da preferência por alguém que sobreviva e ofereça jóias caras. Mesmo o reconhecimento de que o literal beija-mão pode denunciar classe e sofisticação ao estilo europeu precede a evidenciação de que tal gesto, ainda que aprazível, não paga a renda de um modesto apartamento. Daí a importância dos diamantes.

 

Depois vem a natureza e a condição humana. Se todos perdemos o encanto da beleza no fim da vida, os homens, diz-se na canção escrita por Jule Styne e Leo Robin, esfriam o seu ardor amoroso, tornam-se indiferentes à medida que as mulheres envelhecem. E ainda se torna mais premente a questão da segurança financeira se meditarmos na importância do índice bolsista: é quando ele desce que os “trastes voltam para as esposas”.

 

O tema Diamonds are a girl’s best friend celebrizado por Marilyn Monroe reúne algumas pérolas de senso comum com a celebração esfusiante dos méritos dos diamantes, onde até está presente a invocação de alguns santos padroeiros da joalharia. E não falta uma visão bem-humorada que, admitindo a rigidez das articulações ou a curvatura da coluna vertebral, afirma que na Tiffany’s há que aprumar a postura. Até porque a verticalidade é uma qualidade apreciada.

 

Soube-se recentemente que a Sotheby’s de Hong Kong vendeu um diamante de 59,6 quilates, conhecido pelo nome Pink Star, pela quantia de 71,2 milhões de dólares. A blonde star Marilyn Monroe, enquanto Lorelei Lee de Os Homens Preferem as Loiras, apreciaria sobremaneira esta Pink Star, uma pedra preciosa que não perde a forma. Está sempre em forma, portanto, a mão do tempo não a corrompe. Essa é uma maldição de um certo tipo de amantes, não dos diamantes.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:05 link do post
04 de Abril de 2017

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                                                     Fonte: libero.pe

 

Imaginemos por um momento que o busto de Cristiano Ronaldo é a versão escultórica do retrato de Dorian Gray. Não é despicienda a proximidade artística entre a selvática representação produzida por Emanuel Santos do futebolista/empresário/filantropo/playboy internacional e a obra-prima de Wilde. Sabemos que Cristiano pediu ao escultor que umas rugas que estavam “salientes” fossem “desbastadas” para que o rosto ficasse “mais liso e jovial”. Curiosamente, outras saliências numa outra obra de arte não motivaram a mesma reacção do jogador, o que é compreensível dado que a juventude dourada revê-se numa virilidade reforçada. Mesmo em repouso. Ou firmemente ancorada nas pernas antes de disparar o remate fatal para a equipa adversária. Como explicava Lord Henry Wotton a Dorian Gray: “Quando a sua juventude o abandonar, também a sua beleza o abandonará, e então tomará a súbita consciência de que mais nenhuns triunfos lhe restam, ou terá de se contentar com esses mesquinhos triunfos que a memória do seu passado tornará mais amargos que derrotas. (…) Você pode ser o seu símbolo tangível. Com a sua personalidade, não há nada que não possa fazer. O mundo pertence-lhe por uma temporada…”

 

É certo que Oscar Wilde descreveu a obra de Basil Hallward como um “retrato em corpo inteiro de um jovem de uma beleza invulgar”, ao passo que o busto concebido por Emanuel Santos foi divulgado em todas as plataformas possíveis e imaginárias em tom jocoso, questionando a semelhança com o homenageado. E se tal como Gray viu a marcas do tempo contaminarem o seu retrato enquanto ele se manteve jovial, as dissemelhanças (ou deformações) do busto de Cristiano forem uma espécie de representação do Ronaldo fora do pedestal da perfeição física e moral? Estaríamos assim perante uma espécie de humanização do ídolo, com uma subalternização do seu ego e uma espécie de celebração dos seus defeitos e imperfeições. A ser assim, mesmo que tudo tenha acontecido à revelia da vontade ou da consciência de CR7, há um mérito indiscutível do escultor.

 

Claro que esta minha leitura da obra é pessoal e escandalosamente subjectiva. Já Wilde explicava que “Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo. Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas. Os que lêem o símbolo fazem-no a suas próprias expensas. O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida”.

 

(As citações de O Retrato de Dorian Gray reportam-se à edição da Relógio D’Água com tradução de Margarida Vale de Gato.)

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:13 link do post
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