NO VAGAR DA PENUMBRA
19 de Junho de 2011

José Saramago tinha muito de incomum: a capacidade de efabular, o domínio imperial da palavra, a sábia mescla de erudição e sabedoria popular (que houve quem confundisse com populismo), tudo vertido num ensemble de oralidade barroca. A música das suas palavras tinha como consequência que para ler Saramago fosse preciso saber respirar na altura certa. Então, o céu nublado composto pela subversão das regras gramaticais e da pontuação deixava o sol da criação literária exibir todo o seu esplendor. Quando morre um escritor, vai-se a voz e fica a palavra. Que perde dinamismo mas não fulgor. Perdura a provocação mesmo sem a possibilidade da tréplica, como perdura a memória mesmo sem o alimento diário da presença materializada. Passou um ano desde a morte de um autor de si mesmo, que viveu em pleno usufruto do seu livre arbítrio, não dispensou a interpelação da consciência dos homens, nem permitiu que eles se refugiassem na mansarda dos desígnios divinos.

publicado por J.J. Faria Santos às 16:14 link do post
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