NO VAGAR DA PENUMBRA
08 de Agosto de 2017

 

Melancolia, tristeza, nostalgia. Matérias-primas que quer Hannah Reid, vocalista dos London Grammar, quer Lana Del Rey escolheram para enformar os seus projectos artísticos. Sentimentos mais lancinantes e cortantes no primeiro caso, embrulhados em glamour e ironia no segundo.

 

Os London Grammar regressam com Truth is a Beautiful Thing, 18 temas (na edição deluxe) que se comprazem em dissecar os altos e baixos das relações humanas, onde as promessas de ventura se confrontam com uma floresta de mentiras, incumprimentos e tentações. Não estivéssemos nós no terreno das relações amorosas e versos como os dos temas Trials (“And they were your words / So don’t leave them on their own / You should stand by them”) e Rooting for You (“And where did she go / Truth left us long ago”) remeter-nos-iam para o universo Trump e para uma administração que na definição lapidar do sempre inspirado Stephen Colbert se assemelha ao crime organizado, mas sem a parte do organizado.

Com uma recepção mista por parte da crítica especializada (Harriet Gibsone no Guardian descreve um trabalho musicalmente repetitivo e que se “afoga no seu próprio desespero”, enquanto que no New Musical Express se celebra a “variedade estilística” e se fala num elevar da fasquia), Truth is a Beautiful Thing cresce com as sucessivas audições. O trip-hop dos London Grammar não é música exuberante para esplanadas com vista para a praia soalheira, mas pode ser seguramente a banda sonora ideal para as madrugadas de Verão à beira-mar.

 

Já Lana del Rey parece ter abandonado o seu ar desencantado e sombrio, optando por um sorriso aberto no frontispício do seu novo trabalho (embora na contracapa de Lust for Life nos faça reencontrar o seu ar mais compenetrado). De qualquer forma, trata-se já de uma atitude mais matizada. Permanecem os temas de sempre, a América e os seus símbolos, os amores turbulentos e a atracção pelos bad boys. Reconhecemos de imediato uma sonoridade que é já uma marca registada: orquestrações sumptuosas ao serviço de uma voz que transmite emoção sem necessitar de um qualquer tour de force, enquanto que a qualidade vintage que se evidencia é actualizada (mas não ofuscada) por discretos elementos hip-hop. A sua música é contemporânea sem ser restritiva e é clássica sem ser datada.

Como notou Kitty Empire no Guardian, “este é um álbum sobre a América hoje”. E é impossível não pensar em Trump quando ela canta num tom imperativo em When the World Was at War We Kept Dancing: “We just want the fucking truth”. O nível de inquietação sobe quando a seguir ela lança duas interrogações: “Is it the end of na era? / Is it the end of America”, para tudo terminar com um certo apaziguamento. É que Lana apressa-se a explicar que isto é apenas o princípio e que, se nos agarrarmos à esperança, teremos um final feliz. Até porque quando o mundo esteve em guerra, nós persistimos na dança. Dancemos pois enquanto Trump se suicida politicamente no Twitter.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:38 link do post
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