NO VAGAR DA PENUMBRA
31 de Janeiro de 2017

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                                       Fonte: hollywoodreporter.com / FX

 

Peggy Blumquist é a girl next door numa terra onde toda a gente se conhece. Trabalha num salão de beleza, onde a insinuante e pouco subtil patroa a instiga a pôr o seu desejo de ascensão profissional e valorização profissional à frente das ambições do marido, Ed, um empregado de talho apostado em tomar conta do negócio. Peggy acumula revistas de moda até ao absurdo, mais recolectora que coleccionadora. E cumpre os seus deveres conjugais com um ar enfadado que oculta do seu esforçado e bem-intencionado marido. É feliz? É possível que se sinta dividida entre a gratidão pelo afecto de Ed, e o amor que por ele ainda nutre, e a sensação iniludível de que de alguma maneira ele a impede de atingir a plenitude das suas potencialidades. Peggy compreenderia muito bem o que José Tolentino Mendonça escreveu no Expresso deste fim-de-semana: “(…) a alegria é um contrabando frágil e os nossos sorrisos, a qualquer descuido, despedaçam-se como vidro que cai.”

 

Os dramas interiores de Peggy ganham novos contornos quando ela atropela o membro de uma família envolvida em actividades criminosas, dirigida pela matriarca Floyd Gerhardt, ocupada a moderar as ambições dos filhos e preocupada em proteger o negócio familiar da gula dos rivais. O acidente dá origem a uma espiral de violência e leva o pacato Ed a cometer actos sanguinários em nome da legítima defesa e da ilegítima ocultação de um crime.

 

A segunda temporada de Fargo, actualmente em exibição no AMC, cuja acção decorre em Março de 1979, cruza a trama policial com outras linhas narrativas (como a campanha eleitoral de Ronald Reagan ou a saga familiar dos Gerhardt alimentada por uma crise de sucessão) e, à semelhança da temporada inicial, brinda-nos com a sua mistura irresistível da violência com o insólito e o humor. Kirsten Dunst, no esplendor dos seus 33 anos, oferece-nos uma Peggy rica de cambiantes, ora enfadada ora empolgada, ora aturdida ora determinada, mas sobretudo humana. De Dunst poder-se-ia dizer como Evie de Pamela no romance de Emma Cline As Raparigas (Porto Editora, tradução de José Vieira de Lima): “(…) sentia por ela aquela atracção submersa que todos sentem pelos seres belos.”

 

publicado por J.J. Faria Santos às 21:20 link do post
24 de Janeiro de 2017

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                                                      Fonte: Pinterest

 

Ele agradeceu aos povos de todo o mundo e eu fiquei estupefacto (megalomania? Ilusão? Ironia?). Depois veio um retrato do estado da nação: uma elite da capital que não partilhava a prosperidade com os americanos, um relato de desemprego e fábricas fechadas “espalhadas como pedras tumulares na paisagem do país”, famílias em luta pela sobrevivência (mães e filhos encurralados na pobreza), um sistema educativo que, apesar de inundado por dinheiro, não produz conhecimento e um cenário onde se perdem demasiadas vidas por conta do crime, dos gangues e das drogas. Por momentos, julguei que, por qualquer extravagância, ele estivesse a traçar o retrato de algum país latino-americano enredado na corrupção e no crime. Ou se estivesse a referir a alguma nação da Europa de Leste, paraíso de oligarcas, onde o capitalismo mais selvagem convive com alguns dogmas do marxismo. Mas depois ele prometeu parar a “carnificina americana” e desfez a dúvida.

 

Com a sua tomada de posse, disse, o poder transferiu-se da capital para o povo, para os que nunca mais serão esquecidos e ignorados. Há uma nova visão da gestão da coisa pública: “a América primeiro”. Promete resgatar os empregos, as fronteiras, a riqueza e os sonhos. Comprar americano e contratar os americanos. Não imporá o estilo de vida americano a ninguém, “deixará que ele brilhe como um exemplo”. Não se sentem já encandeados, portugueses? Com a mesma facilidade com que promete “erradicar da face da Terra” o terrorismo islâmico, afirma que unida a América é imparável.

 

E aqui reside o problema. Este discurso rasurou ou arrasou o passado da América. O seu fio condutor, os seus temas fortes foram os da campanha. Não uniu, não apaziguou, não se moderou, não apelou à colaboração ou ao empenho na discussão aberta de pontos de vista divergentes. O que emergiu desta enxurrada de populismo e voluntarismo egocêntrico foi a prosápia do costume, a relação dúbia ou abertamente conflituante com a verdade, a ética duvidosa, a flagrante ignorância.

 

 

Há uma lógica intrínseca na posição de Passos Coelho quando ele defende que são os partidos que suportam o Governo no Parlamento que têm a obrigação de garantir a aprovação das leis que concretizam o acordo de concertação social. Claro que o outro lado da moeda é o custo reputacional: a incoerência e o dano na credibilidade quando se parece trocar o interesse nacional pela guerrilha política ou pela táctica partidária. E nestas ocasiões, há sempre quem se apresse a distinguir o político do estadista. Não é a primeira vez que para (se) reforçar (n)o partido ele secundariza o país. Em 2011, teve de optar entre “a boa vontade da chanceler alemã em relação ao PEC IV” e “a declaração conjunta da Comissão e do BCE (…) em relação à necessidade de se avançar com um programa de ajustamento diferente”, nas palavras do Governador do Banco de Portugal, e o alerta de Marco António Costa de que chegara a altura das eleições, no país ou no partido. Sabemos qual foi a sua escolha.

 

O que não sabemos é se Passos Coelho augura a queda do Governo à mão dos seus aliados parlamentares. Parece extemporâneo tal cenário. Mesmo com os alvitres de Assis, a moção de confiança sugerida por Trigo Pereira ou a aparente intransigência do BE e do PCP. Confortado pela magistratura dos afectos de Belém (aqui e ali tingida por um ou outro ataque de fúria ou desagrado convenientemente soprada para os jornais, para não manchar a placidez) e com o apoio activo da maioria dos parceiros sociais, Costa parece confiar na sua capacidade negocial e na popularidade do Executivo para tornar evidente que seria lamentável que uma inédita e, até ao momento, bem-sucedida fórmula governamental se desfizesse por um pretexto, apesar de tudo, menor. No fundo, uma espécie de sucedâneo da luta de classes. Passos Coelho, por seu lado, aplaudido pelo partido, ensaia uma heterodoxa geringonça de sinal negativo.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 21:03 link do post
17 de Janeiro de 2017

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A voz de Maria Barroso ecoou nos claustros dos Jerónimos, declamando Álvaro Feijó. Clareza e claridade, emoção e subtileza, ênfase sem pompa. “Que nos importa, aos dois, ir sem destino”, eis as derradeiras palavras ditas com superlativa dicção e inquestionável intencionalidade. Não consigo imaginar melhor maneira de homenagear um homem que assumia ter “uma visão literária da vida”. E que amava a cultura e os criadores. Há um perfume de aventura nesta proposta de viagem sem rota (o que não quer dizer sem propósito ou objectivo) que se adequa às personalidades que exaltam a liberdade. Um destino já tinha sido cumprido por aquele que pôs ao serviço da pátria uma certa ideia de democracia. O que garantirá a Mário Soares um lugar na História de Portugal e no panteão da memória dos que não são inconscientes, nem ressentidos, nem ingratos.

 

Num texto escrito em 23 de Abril de 2005, Mário Soares tece algumas considerações sobre “a velha dicotomia direita/esquerda”. Crítico feroz do que apelidava de “capitalismo de casino”, nesta reflexão Soares afirma que os progressistas (a esquerda) “não aceitam um sistema de governo neo-liberal, no sentido económico, onde o único valor é o dinheiro, baseado na ‘teologia do mercado’, com a consequência, sempre verificada, dos mais ricos esmagarem, necessariamente, os mais pobres, numa espécie de darwinismo social que, a prosseguir, nos reconduz à ‘lei da selva’.” Daqui extraia a necessidade da importância de um “Estado árbitro” com capacidade regulatória.

Timothy Garton Ash, num artigo para a New York Review of Books, sintomaticamente intitulado Estará a Europa a desintegrar-se?, retoma a alusão à divinização de determinadas opções de política económica, afirmando resolutamente que uma das chaves para a solução da crise europeia reside na necessidade de “Angela Merkel e Wolfgang Schäuble deixarem de tratar a economia como um ramo da teologia”. O autor, que defende que a crise financeira de 2008-2009 iniciou um novo período histórico marcado por “três tipos de crises mais abrangentes: do capitalismo, da democracia e da integração europeia”, considera que palavras como neoliberalismo, globalização e populismo são termos insuficientes (prefere a expressão democracia iliberal) para definir uma situação em que “um governo que emerge de uma eleição justa e livre procede à demolição das fundações da democracia liberal” sem, contudo, se transformar, necessariamente, numa ditadura tout court. E explicita aquilo que considera estar na origem da “tragédia da Europa do Sul: as falhas profundas no desenho da zona euro e as receitas inapropriadas apresentadas pelos países credores do Norte da Europa, nomeadamente a Alemanha”.

Numa altura em que desapareceu o grande obreiro da nossa opção europeia, em que parte da esquerda se prepara para discutir abertamente a saída do euro e em que o Governo socialista dá corpo a uma atitude menos aquiescente em relação aos dogmas das instituições da União Europeia, ainda assim não parece restarem dúvidas de que os portugueses estão maioritariamente com a Europa. Mesmo esta Europa. E a Europa? Continua connosco?

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:26 link do post
07 de Janeiro de 2017

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                                             Fonte: museu.presidencia.pt

 

“Fui homenageado, saudado, premiado, condecorado, distinguido, em nome de Portugal. Fui também, por vezes, apupado, injuriado, mal compreendido, atacado. Estes altos e baixos, sempre os considerei com alguma filosofia, distância e um certo sentido da realidade das coisas. Como ossos do ofício, também. Passei adiante.”

 

“Haverá momentos, quando se falar em liberdade e quando se valorizar esse bem inestimável, em que os historiadores talvez sejam levados a considerar que desempenhei algum papel na vida política portuguesa dos últimos anos. (…) A História tem uma enorme capacidade de digestão de acontecimentos e de pessoas e, um dia, pronunciar-se-á. Mas não definitivamente. Porque cada geração aportará o seu novo contributo a uma História que evolui e se aprofunda como o próprio homem, seu agente e objecto. E, não obstante esse relativismo, a grandeza da condição humana consiste em o aceitar, sem ilusões, e, mesmo assim, prosseguir sempre o bom combate, sem desfalecimento nem dramas.”

 

“Frei Bento Domingues, que tanto aprecio, escreveu: ‘Não há Deus em lado nenhum para quem se conforma com uma sociedade em que há uns à mesa e outros à porta.’ (…) A fé é uma graça divina – dizem os católicos – que não me foi, até hoje, concedida. Mas o mistério da fé – como o da morte – perturbam-me e comovem-me. Ainda que sejam exteriores à minha estrutura mental, de racionalista e agnóstico assumido.”

 

“Em abstracto, a morte afigura-se-me tão natural como a vida. É o seu contraponto necessário. Mas como aceitá-la, em concreto? Definitiva e irremediável?! E, no entanto, vai sendo tempo de começar a pensar nisso. Valerá a pena? Hesito…”

 

“Agradeço à vida – e, porventura, aos genes de que fui herdeiro – nunca, ao longo dos anos, me ter aborrecido, desanimado, ficado deprimido, entrado em stress. Não tenho nenhuma razão para me queixar, bem pelo contrário. Recebi muito mais da vida do que, pobre de mim, lhe terei dado. Devo tudo o que sou aos outros! Não tenho contas a ajustar com ninguém. Estou sereno, confiante, realizado, feliz. Amén!

 

Fonte: Soares – O Presidente de Maria João Avillez, edição Público, 1997

publicado por J.J. Faria Santos às 19:12 link do post
03 de Janeiro de 2017

campanha_apav_noivas_02.jpgOs últimos dados disponíveis indicam que, em 2015, em Portugal, foram apresentadas, em média, três queixas de violência doméstica por hora. Em 68% das situações ocorreu violência física, em 82% violência psicológica e em 3% violência de cariz sexual. Em 38% dos casos, a agressão sofrida pelas mulheres revestiu-se cumulativamente de um carácter físico e psicológico. 29 mulheres perderam a vida em consequência de violência doméstica durante o ano de 2015, um valor ainda assim abaixo das 43 contabilizadas em 2014. Fraco consolo.

 

Em França, François Hollande acabou de conceder um perdão a uma mulher, Jacqueline Sauvage, que em 2014 tinha sido condenada a dez anos de prisão após ter atingido mortalmente com três tiros o seu marido, depois de 47 anos de abuso físico e mental, que, inclusivamente, se estendeu aos filhos. Um deles, Pascal, tinha-se suicidado na véspera, embora na altura em que disparou contra Norbert Marot Jacqueline não soubesse. De acordo com o relato de Nicholas Vinocur no site da Politico, na altura da condenação grupos de activistas estimaram que cerca de 200 000 mulheres sofriam de violência doméstica em França, mas apenas 10% apresentavam queixa. Mais de 100 mulheres por ano morrem em França às mãos dos seus parceiros; na situação inversa, cerca de 25 homens sucumbem à fúria das suas cônjuges. Vinocur nota que nas situações como a protagonizada por Jacqueline Sauvage, raramente os tribunais aceitam a tese da autodefesa, por não considerarem que a resposta à agressão respeita o critério da proporcionalidade. A decisão de Hollande foi saudada quase por unanimidade. Os franceses compreendem a fúria da Sra.Sauvage contra o intratável, grosseiro e verdadeiramente selvagem Sr.Marot. A proporcionalidade é sobrevalorizada face a quase meio século de inferno matrimonial.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:20 link do post
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