NO VAGAR DA PENUMBRA
27 de Dezembro de 2016

Cada um de nós trata do argumento. Adaptado, claro, embora alguns iludidos tenham a presunção da originalidade. Não temos bem a certeza de quem dirige. Umas vezes parece um Spielberg ou um Wes Anderson, outras um Tarantino ou um Scorsese. Entre uns e outros há um assomo de Bergman. Da banda sonora da nossa vida queremos ter o controlo total e absoluto, porém, temos o poder de organizar a colectânea mas dependemos dos criadores para ilustrar as nossas emoções. 2016 tem sido particularmente cruel: Bowie, Prince, Cohen e, agora, George Michael. Quando um artista abandona o palco, permanece a sua voz para desafiar a eternidade. E para nos ajudar a sermos um pouco loucos, sabotando o nosso distorcido e sobrevalorizado sentido do ridículo.

publicado por J.J. Faria Santos às 18:15 link do post
20 de Dezembro de 2016

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                       "Christmas Eve in The Studio" de Mary Louise Fairchild

                                         (Courtesy of Bert Christensen)

 

Graham Greene, numa visão algo sombria, escreveu sobre o Natal que precisamos de um período em que possamos lamentar todos os falhanços nas nossas relações interpessoais – chamou-lhe “a festa do fracasso, triste mas consoladora”. Hoje em dia, esta época propícia ao apaziguamento e à reconciliação dá novo sentido aos versos do poeta que, reconhecendo Dezembro como o mês por excelência desta celebração, advogava que Natal era quando o homem quisesse. Mal entra o Outono, com as suas folhas caídas e a memória enternecida do calor das tardes de praia, principia a invasão dos enfeites natalícios.

 

Exigências do comércio, certamente, explorando, porventura, a tal necessidade de reconciliação e de bem-aventurança, espelhada na forma como distribuímos generosamente os votos de boas festas a amigos, conhecidos e estranhos, quantas vezes de uma forma indistinta. Como se vivêssemos no reino do pensamento mágico e a pronúncia das palavras certas remediasse as nossas insuficiências. Precisamos de mais empenho e intencionalidade, sob pena de no dia 26 experimentarmos a frustração descrita por Sylvia Plath em A Campânula de Vidro: “Era o dia a seguir ao Natal e o céu pairava cinzento sobre nós cheio de neve. Sentia-me empanturrada, entorpecida e desiludida. Como aliás me sinto sempre no dia a seguir ao Natal, como se as promessas insinuadas no pinheiro, nas gambiarras, nos presentes cuidadosamente embrulhados, na lareira, no peru e nas canções cantadas ao piano, nunca se realizassem.” (Edição Assírio & Alvim, tradução de Mário Avelar)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:33 link do post
13 de Dezembro de 2016

Instigada pela Vanity Fair, no contexto do célebre questionário de Proust, a indicar qual o seu bem mais precioso, Zadie Smith respondeu que é a retórica. O elogio da eloquência, da arte de bem manejar as palavras, pode parecer deslocado ou até perigoso em tempos de pós-verdade. Ainda para mais quando se tende a relacionar a retórica com o superficial ou com o afectado e o pretensioso. Porém, convém não desvalorizar o valor da palavra, o seu poder de denúncia ou de persuasão. E não esquecer que é o uso desregrado e enfatuado da retórica que denuncia o demagogo e o prepotente.

 

Inspirado pela controversa expressão usada em campanha por Hillary Clinton para definir os apoiantes do seu adversário – basket of deplorables – John Cassidy, no sítio da Internet da New Yorker, denomina o conjunto de figuras da administração Trump de cabinet of lamentables. O autor vê as escolhas oriundas da direita radical como uma forma de apaziguar o Partido Republicano: o partido “obtém a sua ‘revolução’ legislativa; Trump mantém o controlo dos seus negócios e promove ainda mais o seu enriquecimento”. E, claro, entretanto vai prosseguindo com o uso inequivocamente deplorável de um sucedâneo de retórica, apelando ao engrandecimento da América.  

 

A terra das oportunidades é também, dizem, um lugar onde se premeia o esforço e o mérito. A meritocracia exclui a compaixão? Encolhe-se os ombros como se fosse necessária uma espécie de via-sacra para se ascender ao Olimpo dos bem-sucedidos? O fracasso é o ferrete dos incapazes? A orgia de consumo e ostentação a que os vencedores se entregam fazem-me evocar as palavras de José Tolentino Mendonça no Expresso do passado fim-de-semana acerca do período pré-natalício: “Ainda que as mãos se atulhem de embrulhos, sabemo-las no fundo vazias, atadas às suas posições invisíveis, incapazes de dar não o inútil mas o que seria preciso, indisponíveis para a tarefa da reparação da vida, equivocadas em relação à verdadeira carência ou ao diagnóstico que fazem da escassez e da lacuna.”

publicado por J.J. Faria Santos às 20:51 link do post
06 de Dezembro de 2016

magritte_the_oasis.jpg                      "O Oásis" de René Magritte  (Courtesy of Bert Christensen)

                                              

Um artigo de Paul Ames na Politico online explica por que razão Portugal se “tornou um oásis de estabilidade”. Para o autor, o primeiro-ministro escapa incólume às “ameaças existenciais” que muitos líderes europeus e respectivos partidos tradicionais enfrentam, notando a ausência do populismo de extrema-direita e o facto do PS aparentemente poder estar a recuperar eleitorado à esquerda. Claro que Ames reconhece a precariedade da recuperação, chamando a atenção para a “fragilidade do sector financeiro” e para o facto de Portugal ter a terceira maior divida pública da eurozona, o que deixa o país “vulnerável a choques externos”. O crescimento do turismo, a vitória da selecção no Euro 2016 e a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU são acontecimentos creditados como responsáveis pela criação de uma atmosfera mais desanuviada, a que acresce a bem-sucedida coabitação com Marcelo Rebelo de Sousa, descrito como um hiperactivo e afectuoso ex-comentador da TV (“hyperactive, crowd-hugging former TV pundit”, na deliciosa formulação original).

 

Ames refere, por contraste, que o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho é o líder partidário com a mais baixa taxa de popularidade. Na verdade, a contestação interna parece estar a agudizar-se, ainda que de forma pouco visível. Mesmo alguns elogios que vai recebendo soam a epitáfio (“um homem extraordinário, com uma visão extraordinária” – Carlos Moedas; “o líder do PSD mais parecido, em termos de estrutura de raciocínio, com Francisco Sá Carneiro” – Santana Lopes), mas a notícia da sua morte política pode ser francamente exagerada. Até porque o crowd-huggging Presidente da República já fez saber ao Expresso (só pode ter sido ele, já que não existem outras fontes de Belém) que o centrão já não o entusiasma. O que está a dar agora nas tertúlias marcelistas é a definição de dois blocos, com propostas distintas para o país. Portanto, da corte de Marcelo não sairão incentivos para apear o actual líder. O que, paradoxalmente, pode ser um mau sinal para o PSD. É que Passos é o factor unificador das esquerdas. Se não fosse tão apegado aos provérbios portuguesas, Jerónimo juntar-se-ia a Catarina e proclamariam a uma só voz: better the devil we know.  

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
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