NO VAGAR DA PENUMBRA
28 de Junho de 2016

20160620bdjohnsontrump.jpg                                           Fonte: Brandanreynolds.com

 

Cameron demitiu-se. Corbyn confronta-se com um Partido Trabalhista em tumulto. Blair, mesmo dando prioridade a uma boa negociação com Bruxelas, não descarta a hipótese de um segundo referendo. A União Europeia hesita entre o castigo aos rebeldes e o apaziguamento, enquanto receia o efeito dominó. Vozes de ambos os lados do Atlântico alertam para o paralelismo entre os argumentos do Brexit e a retórica que está na origem do sucesso de Trump. Entre nós, especialistas como Álvaro Vasconcelos defendem que “a União Europeia está em risco, a paz na Europa está em risco” e que é a “violação grosseira do princípio da igualdade entre os Estados (…) que tem desde logo como efeito directo alimentar o nacionalismo” (Público).

 

Com o seu peculiar sentido de oportunidade, Trump regozijou-se na Escócia com os resultados do referendo no Reino Unido. Amy Davidson nota na New Yorker que quer o americano quer Nigel Farage fizeram “apelos de carácter racista e étnico” nas suas campanhas, considerando que “os resultados do Brexit são um forte aviso para qualquer complacência com Donald Trump”. Jonathan Freedland, na New York Review of Books, refere os mais velhos e os menos educados, duas categorias que se sobrepõem, como os mais fervorosos adeptos da saída da União Europeia, destacando que estes são os mesmos segmentos do eleitorado que impulsionaram a obtenção de 14 milhões de votos nas primárias americanas por parte do magnata do imobiliário.

 

Freedland considera que o referendo pôs em campos opostos os vencedores e os perdedores da globalização, e que no coração desta dicotomia está a questão da imigração, o que do seu ponto de vista torna mais evidente o paralelo entre Trump e o Brexit. Outra semelhança gritante é o recurso despudorado à mentira e à mais desbragada demagogia. A campanha do Leave inscreveu no autocarro de campanha o montante de 350 milhões de libras, que corresponderia ao valor que em média o Reino Unido enviaria semanalmente para a União Europeia, comprometendo-se a aplicá-lo no Serviço Nacional de Saúde. Não só o valor real em causa será de cerca de um terço, como também Nigel Farage já considerou a afirmação “um erro”.

 

Clara Ferreira Alves cita no Expresso um artigo de A.A. Gill no Sunday Times, demolidor para os defensores da saída, criticando a nostalgia e o culto do passado dos britânicos, a sua convicção de auto-suficiência e grandeza. O impacto da decisão dos eleitores segue dentro de momentos. Depois da retórica da campanha e do fervor nacionalista dos vencedores, a realidade vai bater a porta. Até lá, pelo menos, os partidários do Leave poderão fazer suas as palavras de Mary Cavan Tyrone na peça de Eugene O’Neill Jornada para a Noite, proclamando que “Só o passado, quando se foi feliz, é real”.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:18 link do post
21 de Junho de 2016

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“BELA LICENCIADA, 24a, carente de afecto e ajuda económica atende Srs. no Porto.”

 

Qual a relevância da formação superior? Fornecer uma maior competência para argumentar se a Economist está certa quando defende que o Brexit enfraqueceria a Europa mas deixaria o Reino Unido “mais pobre, menos aberto e menos inovador”, e também “menos influente e mais paroquial”? Ou para participar na discussão se o atentado de Orlando é predominantemente uma manifestação de terrorismo islâmico ou de homofobia? Estaremos perante uma possuidora de um saber com a dimensão, a abrangência e a profundidade de um, digamos, José Rodrigues dos Santos? Capaz de expor, com igual clareza e autoridade, a problemática da existência de Deus, as minudências da física quântica e a origem das grandes ideologias do século passado?

 

Presumamos, meramente a título especulativo, que a bela licenciada exerce a actividade de prestadora de cuidados sexuais. O grau académico constituirá uma vantagem competitiva? Instilará no comércio de sensações uma sofisticação erótica?

 

Também não é previsível o efeito da confessada carência de afecto. Tanto poderá despertar o instinto protector dos provedores de afecto da linha marcelista, como poderá esbarrar na frieza inabalável dos denunciadores da pieguice da linha passista.

 

O mesmo sucederá em relação à debilidade económica. Que, depreende-se, poderá ser também financeira. Se esteve desempregada, por que razão não emigrou, engrossando o lote dos expatriados altamente qualificados?

 

A ajuda pressupõe um donativo. A bela licenciada, por uma questão de dignidade pessoal, sobretudo para se sentir útil, “atende o doador”. Não é verdadeiramente uma transacção comercial. Muito menos tributável. Ela pode ser liberal, mas não é uma profissional liberal. Não passa factura com número de contribuinte, dedutível como despesa geral…familiar!? Ou despesa de saúde? O atendido também não pode deduzir o valor ofertado no IRS. Não é enquadrável no mecenato social, não se trata objectivamente de um donativo sem contrapartidas.

 

Atende senhores no Porto. O ofício é limitado em termos de género e de geografia. Mas é na caracterização que de si mesma faz que reside a minha principal objecção: duvido seriamente que BELA LICENCIADA seja mais apelativo que BELA LICENCIOSA.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:30 link do post
14 de Junho de 2016

O estadista usa Moleskines de capa verde escura personalizados com monograma dourado made in Roma. E redige discursos em folhas brancas, imaculadas, seis ou sete linhas, não mais, onde um par de rasuras implica o desterro para o cesto do lixo e o recomeço. Porque é “muito estético”. O que explicará também a predilecção pelos tecidos ingleses para os fatos, e pelos botões com a inscrição carpe diem.

 

O estadista idolatra Churchill, mas segue um princípio da Sra. Thatcher que epigramaticamente sintetiza da seguinte forma: “se ficarmos muito tempo em cargos de liderança ou perdemos paciência para os outros ou exigência connosco e com ou outros” (in Público, edição de 8.06.2016). O estadista não tem um percurso ideológico e doutrinário inconsistente e contraditório – a sua acção é um testemunho das virtudes do pragmatismo. O seu patriotismo é de tal modo exacerbado que pagou “um preço de reputação” para melhorar um Governo. Obedeceu à consciência, disse, que num ápice se revelaria volúvel ou inconsciente.

 

Nesta nova etapa, fora do Executivo, vai continuar a ajudar a nação “na promoção das exportações portuguesas (…) agora do lado da sociedade civil e do associativismo empresarial” (Expresso, 10.06.2016). E a dar aulas. E a fazer conferências. E comentários na caixa que mudou o mundo. A República pode esperar. E ele também. E no entretanto, para completar a metamorfose de populista para popular, este moralista imprevidente ir-se-á insinuando na intimidade dos portugueses, via ecrã televisivo, com os seus ditos espirituosos e o seu terno e eterno sentido de Estado.

publicado por J.J. Faria Santos às 19:45 link do post
07 de Junho de 2016

Imaginem por um momento que experimentam uma dolorosa sensação de fracasso que vos deixa prostrados. Não é difícil: todos já tivemos momentos em que o mundo parece desabar sobre nós, umas vezes por razões ponderosas, outras por motivos fúteis que adicionam uma nota de ridículo ao nosso drama pessoal. Assim qualquer coisa como o descrito pelo narrador de As Primeiras Coisas de Bruno Vieira Amaral: “Saí para o mundo convicto da vitória e regressei, cabisbaixo, com o fardo do meu fracasso. Não importa detalhar o insucesso. Direi apenas que a queda não foi tão espectacular que me levasse a acreditar no destino, nem tão imperceptível que não me envergonhasse. Foi um fracasso ordinário e marcante. No final nem sequer tive direito a uma depressão, à varanda de onde pudesse usufruir da contemplação pantanosa de uma vida cheia de estilhaços.”

 

Imaginem agora que acreditam no poder redentor da música popular. Como um salmo profano, Rise up é uma daquelas canções soul com laivos gospel destinadas a elevar o espírito acima dos tormentos existenciais (uplifting como diriam os anglo-saxónicos). Esta canção de combate está incluída no álbum de estreia de Andra Day, Cheers to the Fall, editado no ano passado. Day, que foi nomeada para dois Grammies, é uma talentosa cantora e compositora americana com um timbre vocal que despertou comparações com Billie Holiday e, sobretudo, com Amy Winehouse. Spike Lee realizou o vídeo do primeiro single, Forever Mine, ao passo que a direcção do teledisco de Rise Up ficou a cargo de M. Night Shyamalan. Que faz jus a um trecho que parte do silêncio que inquieta, e do abatimento derrotado, para promover a ressurreição da motivação. Com esperança e persistência é possível colar os “estilhaços”. E recomeçar.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:12 link do post
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