NO VAGAR DA PENUMBRA
25 de Abril de 2016

Holly Lapsley Fletcher, 19 anos, declarou ao New Musical Express, meio a sério meio a brincar, que “canções felizes acerca de discotecas e shots” não são para ela. A publicação definiu o seu trabalho como “canções tristes e introspecção lacrimejante”. Intérprete, compositora e produtora, Lapsley lançou em 2016 o álbum Long Way Home, uma colecção de temas confessionais e melancólicos cuja sonoridade se inscreve, em sentido lato, no que se convencionou chamar de música electrónica. A crítica especializada comparou-a a Jessie Ware e a James Blake e, apesar dos comentários generalizadamente favoráveis, houve quem lhe apontasse o pecado da aproximação ao mainstream. (Uma censura recorrente e multiusos para quem vê em qualquer sinal de popularidade um risco de comprometimento da integridade artística.) 

 

Operator (He doesn’t call me), um trecho dançável com uma sonoridade retro, é a excepção (no ritmo que não na letra) ao rol de temas que levaram a New Yorker a sentenciar que Lapsley “adiciona um traço sombrio à paisagem da pop ambiental”. O que pode ser verificado na hipnótica STATION ou na mais convencional HURT ME. A Lapsley de Long Way Home fala a língua do desterro emocional, e não a da aventura ou da liberdade.

 

12106126_965198266880180_1061801178_a.jpg                                            Fonte: Instagram de Prince

 

Sua Alteza Real, o Príncipe emérito, terminou o seu reinado desfalecendo num elevador. Subia para o Olimpo onde os ícones vivem para sempre? Ou descia, magnânimo e generoso, para se misturar com os súbditos que o idolatravam?

 

Deixa-nos uma extensa discografia, uma pioneira fusão de géneros e clássicos instantâneos, enquanto intérprete e compositor, como Purple Rain, Kiss, Nothing Compares to You e Manic Monday. A notícia chegou-nos numa trágica quinta-feira. Em Sign o’ the Times, Prince cantara: “If a night falls and a bomb falls / Will anybody see the dawn?” Desta feita, o amanhecer ludibriou-nos. A bomba detonaria mais tarde.

 

Desapareceu mas será eterno, diz-nos o lugar-comum. Afastemos os lamentos, cumpramos o que está prescrito em Purple Rain. Porque nunca foi intenção dele causar-nos sofrimento (“I never meant to cause any sorrow”) ou dor (“I never meant to cause you any pain”), libertemos o riso enquanto nos banhamos na chuva púrpura (“I only want to see you laughing in the purple rain”).

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:05 link do post
19 de Abril de 2016

41_07_87---Dead-End-Road-Traffic-Sign_web.jpg                                               Imagem: Freefoto.com

 

Ela está a morrer. Pode ser que o ignore, ou pode ser que escolha ignorar, participando com estoicismo num teatro de bonomia. Aqui e ali perturbado por um lamento ou por um queixume. Aprecia a bondade de familiares e amigos, mesma quando esta (mais que a doença) parece confiná-la a uma inactividade tão próxima da inutilidade (não se esforce! Repouse!). Invoca uma doença grave, mas não necessariamente fatal, para justificar os cuidados dos que lhe são próximos, alimentando uma farsa (ilusão) que redundará em tragédia.

 

Familiares e amigos já sabem o que esperar, mas não sabem quando. “É insuportável a visão de um ser vivo que combate com a morte, e ora parece prevalecer, ora parece perder-se”, escreveu Elena Ferrante em Os Dias do Abandono. Cada dia parece ser negociado. Para estender um contrato celebrado à nascença por tempo indeterminado com o nosso corpo. Que termina quase sempre da mesma forma: denunciado unilateralmente. Como uma máquina ou um produto, também ele tem um período de vida útil. Que nos recusamos a aceitar. Ingloriamente.

 

Como é o quotidiano vivido a partir de um leito num quarto sem vista, iluminado pela claridade do Sol intermitente de uma Primavera chuvosa? E o correr dos dias, iguais e sem sinais de recuperação, transformará o teatro da bonomia num monólogo desesperado, contrariado por piedosas proclamações de recuperação (Vais ver que melhoras! Este tempo também não ajuda...)? É uma daquelas situações em que o uso da mentira é não só permitido como até recomendado. (“Sempre que necessário e sem hesitação”, afirmou a actriz Sally Field em resposta à pergunta “Em que ocasião mente?” do Questionário de Proust da revista Vanity Fair.)

 

A degradação do corpo aniquila os moribundos. A espera derrota os sobreviventes. Porque esta espera é uma emboscada, não um encontro que se aguarda ansiosamente. Porque esta espera não permite a esperança.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:18 link do post
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12 de Abril de 2016

O Papa Francisco escreveu na exortação apostólica Amoris Laetitia: “Somos chamados a formar consciências, não a substituí-las”. Eis a diferença fundamental entre inspiração e imposição, entre reflexão e inflexibilidade, entre afirmar e propugnar por um conjunto de valores e procurar impô-los a todo o custo numa manobra em que o proselitismo ignora a adesão consciente.

 

“Se acreditarmos que tudo é a preto e branco, fechamo-nos por vezes ao caminho da graça”, sentenciou sabiamente o Papa. Que não parece recear que a consistência da doutrina corrente (que ele no essencial preserva) sofra uma erosão por efeito de uma atitude menos intransigente e mais inclusiva e matizada.

 

A quem prefere “uma pastoral mais rigorosa”, o Papa explica que “Jesus quer uma Igreja atenta à bondade que o Espírito Santo demonstra perante as fraquezas humanas”. Eis um trecho da exortação apostólica sobre o amor na família a merecer meditação por parte de todos, a começar pela Cúria Romana, que só beneficiaria em exercer o seu ministério com mais atenção à bondade. E às fraquezas humanas. A começar pelas suas.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:11 link do post
05 de Abril de 2016

Portrait-Photo-Dog-with-pipe-in-its-mouth-.jpg                                           Fonte:Vintage Printable

 

Para celebrar condignamente os 40 anos da Constituição da República Portuguesa, nomeadamente essa conquista inestimável que é a garantia da liberdade de imprensa (prevista no artigo 38º), nada se me afigura mais justo do que homenagear o grande diário de Portugal: o Correio da Manhã. Outros prosseguem com algum sucesso o desígnio de formar e informar, mas nenhum concorrente combina com imparável determinação, intransigente acutilância e intratável independência o sucesso comercial com o rigor e a pertinência dos factos relatados.

 

Versátil e abrangente, o jornal combina os apelos à luxúria (fotografias sugestivas e um extenso lote de anúncios classificados) com a distribuição de brochuras com orações; persegue sem descanso os poderosos e os que se julgam impunes, do ex-primeiro-ministro com gastos exorbitantes ao padre que adquiriu um Porsche; apoia sem fraquejar as forças da ordem, e faz coro com o povo porque o populismo é o nome que os invejosos dão à popularidade. E mais importante do que tudo isto: em todas as suas plataformas (imprensa escrita, TV, Internet) o Correio da Manhã é o braço armado da Justiça portuguesa, o orgão que vela para que os criminosos não fiquem impunes, quer divulgando partes dos processos judiciais ou revelando escutas telefónicas em prime time, quer actuando ao nível do próprio processo pedindo a constituição de arguidos. O Correio da Manhã é a instância de recurso do povo.

 

Mas como o seu core business é o jornalismo, seria lamentável não só omitir como também não sublinhar enfaticamente a extraordinária noção de informação total que preside ao seu critério editorial. Como exemplo lapidar, escolhi a secção do site da Internet denominada CM ao minuto. Os exemplos que se seguem, uma amostra muito limitada referente apenas a dois dias, mostram que nenhum episódio da série da nossa vida neste mundo global escapa à redacção do diário: da magna questão da violência do flato à mulher desesperada pela abstinência sexual forçada, passando pelo bebé pacifista e pela cabra enredada em risco de electrocussão.

 

 

1.04.2016

 

  • 08:31 Assassina mulher com ácido por negar sexo
  • 08:48 Soldado da ONU suspeito de obrigar crianças a sexo com cão
  • 09:49 Faz sessão fotográfica com a filha que matou
  • 09:53 Polícia aconselha mulher a desistir de queixa em caso de flatulência
  • 10:59 Bebé faz símbolo da paz em ecografia
  • 12:59 Cão finge morte para não regressar a casa
  • 15:14 Rojo apanhado a fumar
  • 16:09 Tenta matar à facada ao saber de novo amor

 

2.04.2016

 

  • 01:30 Cabra fica presa em fio de electricidade
  • 01:45 Atira a matar no metro porque queria fumar
  • 02:30Jovem discute consigo mesmo em noite de copos
  • 03:30 Macaco atrevido faz pose para fotografias
  • 14:59 Baleado enquanto filmava para o Facebook
  • 16:24 Jovens em roupa interior apoiam Trump
  • 17:04 Virgem coloca cartaz para encontrar marido

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:06 link do post
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