NO VAGAR DA PENUMBRA
26 de Janeiro de 2016

No surreality show Palácio Cor-de-Rosa não foi permitido o televoto; a votação foi presencial. Marcelo S. teve a esperada e retumbante vitória. Seguindo na esteira dos concorrentes simpáticos e calorosos (o Zé Maria, o António), ele optou por uma participação afectuosa e popular. Ou então, soube jogar, como dirão as domésticas, as reformadas e a juventude sedenta de fama que tão bem sabem deslindar as manigâncias destes formatos. É verdade que num certo frente-a-frente descambou para a picardia com Sampaio N., mas isso foi apenas uma falha momentânea na fleuma ou um esgrimir lúdico da sua verve iluminada. Dos restantes concorrentes, destaque para o bom desempenho de Marisa M., relegando para lugares mais recuados o republicano, comunista e católico Edgar S. e a republicana, socialista e católica Maria B. Quanto a Vitorino S., entreteve-se a distribuir “santinos”, e logrou obter mais votos do que o grande combatente anti-corrupção, Paulo M., e do que o socialista de estimação de José Gomes Ferreira, Henrique N. E a voz? A voz é do povo. Que é quem mais ordena. Como disse, lá do seu lugar na esquerda da direita, o concorrente vencedor.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:35 link do post
20 de Janeiro de 2016

MISSA DOMINICAL – “Em vez do medo, do rancor, do ressentimento, da exclusão, venha ela de onde vier: a esperança. A renovação da esperança. O alimentar a esperança em todos e em cada um dos portugueses. Com desprendimento. Com o desejo de servir. Com a vontade de ser próximo e dar o afecto que sempre dei a todos os que sempre privaram comigo. É isto ao que venho.” (2015)

 

NEGÓCIOS DA SEMANA – “Eu sou conhecido pelo que penso sobre gestão empresarial. Tirando o Expresso e o Semanário, onde exerci funções de gestão, tive muitos convites para grupos económicos e financeiros, mas sempre entendi que não os devia aceitar.” (2015)

 

MASTERCHEF – “Vou almoçar na cantina. Finalmente uma sandes de queijo se houver.” (Na Guarda, em campanha.) (2016)

 

INESQUECÍVEL (RTP MEMÓRIA): “Passa pela cabeça de alguém que a maioria dos Juízes do Tribunal Constitucional chumbe o OE? Que significa chumbar a execução do acordo da troika, parar o financiamento a Portugal e colocar Portugal numa situação crítica em relação à Europa? Era o que faltava. Passa pela cabeça de alguém? Em homenagem de uma interpretação muito rígida e fixista da Constituição. Isto lembra ao careca?” (2012)

 

O DIA SEGUINTE – “Se os portugueses me elegerem Presidente de Portugal, dos primeiros gestos que terei, um deles será para o Ronaldo.” (2016)

 

A TARDE É NOSSA (A Máquina da Verdade) – “Há um problema que é o seguinte. Há duas campanhas simultâneas, a presidencial e as autárquicas em São João da Madeira. Talvez seja sensato não misturar a campanha partidária e a não partidária.” (Sobre a participação de Passos Coelho na campanha) (2016)

 

PELA SUA SAÚDE – (Numa farmácia) “O que é que tem em termos de omeprazol? (…) É a minha área de especialidade. Apetecia-me levar este que não conheço. Mas é mais caro. (Compra o medicamento) Já estou protegido. Tem 56, já dá para se for eleito para início de mandato.(…) Em Belém em princípio a pessoa tem de ter estômago para tudo… Para tudo não direi, mas para muita coisa.” (2016)

 

A QUADRATURA DO CÍRCULO – “Freitas do Amaral vinha da direita, direita, não vinha da esquerda da direita que é uma diferença. Eu venho da esquerda da direita.” (11/01/2016)

“Admito que sou um candidato ao centro.” (14/01/2016)

 

O PREÇO CERTO – (A comprar uma t-shirt para um neto) “Tenho cinco netos, mas tenho um fraquinho pelo meu neto. É careira ou não é careira? (…) 25 euros?! Ai que cara!!! (…) Estou muito mais contido, mais forreta.” (2016)

 

PRÓS E CONTRAS – “Eu espero que esta solução dê certo. O Presidente da República não tem que ter estados de alma em relação ao Governo que está em funções. Eu farei o possível para que seja duradoura, porque, se der certo, é bom para o país. Se não der certo, é pior para o país.” (2016)

 

SETE PALMOS DE TERRA – (Numa funerária) “Então como é que estamos de negócio? … Só não lhe digo boa sorte porque isso significa morrer muita gente. Mas de qualquer maneira é preciso trabalho. Mas há uns que trabalham à custa da tragédia alheia.” (2016)       

“O Marcelo Rebelo de Sousa analista morreu.” (2016)

 

(Afirmações proferidas por Marcelo Rebelo de Sousa em entrevistas, monólogos televisivos ou acções de campanha.)

publicado por J.J. Faria Santos às 17:31 link do post
12 de Janeiro de 2016

Michel Houellebecq escreveu, na pele de François, o narrador de Submissão (edição portuguesa da Alfaguara, tradução de Carlos Vieira da Silva), que “nunca nos entregamos, durante uma conversa, tão inteiramente como perante uma folha vazia, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido”. Discorrendo sobre a literatura, François defende que só ela permite um contacto total com o “espírito humano (…) com as suas fraquezas e grandezas, as suas limitações, mediocridades, ideias fixas, as suas crenças”.

Funcionará de igual modo para o escritor prolixo e para um outro mais económico na sua produção? Que grau de dissimulação é possível? E qual a dimensão de erro admissível na interpretação por parte do destinatário? Não poderemos nós, leitores, confundir a firmeza e a persistência com uma ideia fixa? Ou até a compaixão com a fraqueza? Claro que tudo isto não invalida a tese de François, quando muito coloca-a em perspectiva.

 

Joyce Carol Oates, que entrevistada por Hermione Hoby (Guardian Online) diz experimentar mais prazer que ansiedade quando escreve, confessa que “escrever ficção é uma tarefa dura quando a vida real parece mais importante”. Confrontada com a definição de J M Coetzee do escritor como um “secretário do invisível”, Oates parece achá-la incompleta, visto que “um secretário é alguém que toma notas” e ela vê um romancista como um portador de uma vontade que se manifesta fortemente, nomeadamente na reunião de personagens, na construção de uma narrativa, na elaboração de uma história. Que fraquezas e grandezas de Joyce Carol Oates poderemos detectar nas suas obras? Será que concorda com a definição de génio de Jean-Paul Sartre que colocou como epígrafe na sua obra Blonde (Edição Círculo de Leitores, tradução de Maria Nóvoa): “O génio não é um dom e sim a forma como uma pessoa inventa em circunstâncias desesperadas”?

publicado por J.J. Faria Santos às 20:19 link do post
05 de Janeiro de 2016

O autor entregou-se à obra durante dezoito meses. Mercedes, a mulher, manteve os credores à distância. Bens e equipamentos domésticos foram empenhados em troca de liquidez (telefone, frigorífico, rádio, jóias). Ele vendeu o seu Opel branco com o interior vermelho. Quando o romance ficou pronto, como não tinham dinheiro (82 pesos) para enviá-lo na sua totalidade, remeteram a primeira metade, e a segunda só chegou ao destino depois de uma visita à loja de penhores. Na empreitada, o casal derretera o equivalente a 10 000 dólares e o escritor fumara 30 000 cigarros.

 

Cem Anos de Solidão foi editado em Buenos Aires em 1967 e quinze anos depois o seu autor, Gabriel García Márquez , ganharia o Prémio Nobel. As circunstâncias da sua elaboração são relatadas por Paul Elie na última edição da Vanity Fair. Elie explica que “ realismo mágico transformou-se na expressão para designar a violação das leis naturais através da arte” e, para exemplificar o prestígio e admiração que Gabo suscitava, cita uma hiperbólica recensão de Salman Rushdie a propósito de uma outra obra do colombiano (Crónica de Uma Morte Anunciada): “Críticos suicidam-se por falta de superlativos originais”.

 

Penhorados foram os bens do autor, penhorados sentimo-nos nós, gratos pela sua persistência e pelo seu génio. E pela forma como colocou a literatura no centro da sua existência. Como vociferou o “sábio catalão” de Cem Anos de Solidão, perante os revisores dos caminhos-de-ferro que pretendiam tratar caixotes com livros como carga, “O mundo estará fodido de vez no dia em que os homens viajarem em primeira classe e a literatura no vagão de carga.” (Publicações Dom Quixote, Agosto de 1988, página 315).

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
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