NO VAGAR DA PENUMBRA
26 de Agosto de 2015

Awesome-Urban-Paintings-23.jpgImagem: Michele del Campo (Courtesy of www.bertc.com)

 

São dias de abandono: ao mar, ao sol, ao torpedear das rotinas (mesmo com a criação de novas rotinas…), ao deambular sem propósito definido, à tirania da indolência. Ouço idiomas diversos (francês, espanhol, inglês, italiano, alemão) e a minha profunda natureza provinciana cede espaço ao meu cosmopolitismo de espírito.

 

Os meus dias do abandono em Agosto são também os de Olga, a mulher que protagoniza o romance de Elena Ferrante, a quem, num incerto dia de Abril, depois do almoço, o marido anunciou que iria deixar. Oriunda de uma família “sentimentalmente ruidosa”, Olga, que na adolescência “sentia a opressão de uma vida sem silêncio”, depois de concluir que “a alma não passa de um vento inconstante”, entra numa espiral de descontrolo emocional onde se encadeiam estupefacção, raiva e retaliação. Os Dias do Abandono, como escreveu James Wood na revista The New Yorker, expõem “uma mente em estado de emergência, nos limites da coerência e da decência”.

 

Abandono por momentos o areal. Calcorreio o asfalto. A feira do livro, situada numa espécie de tenda, acolhe-me. Percorro-a não muito lentamente mas com critério. Estugo o passo diante de Shakespeare, mas apenas até num relance panorâmico descobrir um livro de fotografias de Helmut Newton. Folheio-o, mas não o adquiro.(Mais tarde corrigirei este erro.) Prestes a deixar para um outro dia uma visita mais demorada, eis que deparo com um Eugénio de Andrade em formato livro de bolso. Estava encontrado o rival da Ferrante neste querido mês de Agosto. E estavam encontrados os três versos que podem resumir qualquer Verão: “E no teu rosto aberto sobre o mar / cada palavra era apenas o rumor / de um bando de gaivotas a passar.”

 

Estendo-me na toalha. Criaturas alimentadas a sol palram sem parar e criancinhas certamente adoráveis guincham como se testassem os pulmões. Felizmente, a hora do almoço aproxima-se, e o sol não lhes basta: partirão em breve em busca de sabores para acalmar os estômagos. “Olha a bolinha!”, apregoa alguém. “Com creme e sem creme!”.

A manhã é para o exterior ensolarado; a tarde é para a sombra nos interiores almofadados. Elena e Eugénio habitam os dois mundos, mas só no último cantam ao desafio, com o volume quase no máximo, Rebekah Del Rio (Llorando), Barry Manilow (Copacabana) e Grace Jones (La Vie en Rose).

 

(Crónicas do Mal de Amor, de Elena Ferrante, foi editado pela Relógio d’Água em Maio de 2014. O volume que inclui as obras de Eugénio de Andrade Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos e Os Amantes sem Dinheiro foi editado pela Quasi Edições em Novembro de 2006.)

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:36 link do post
19 de Agosto de 2015

Num comentário sobre um livro da produtora do canal televisivo ESPN Justine Gubar, acerca das celebrações e dos tumultos no desporto, Sarah Begley explicava recentemente na Time que para além de factores como o álcool, a adrenalina e a ilusão do anonimato, é o sentimento de lealdade que funciona como detonador das acções em massa nos estádios. E terminava o breve apontamento fazendo notar que a palavra fã tem origem no latim fanaticus, que define uma “profunda devoção religiosa”.

No calor da refrega reinam as emoções, um erro do árbitro é inadmissível e inaugura sempre a suspeita da premeditação. Não haverá nos estádios de futebol nacionais comportamentos muito díspares durante os jogos. Porém, olhando para o banco do Sporting, a reunião da troika Bruno de Carvalho/Jorge Jesus/Octávio Machado promete um permanente memorando de desentendimento com adversários e instituições reguladoras. Porque se um permite que a sua autoconfiança resvale para a deselegância, os outros abusam da combatividade verbal e descambam com frequência para a boçalidade.

publicado por J.J. Faria Santos às 16:01 link do post
12 de Agosto de 2015

A dada altura, numa cena de Nip/Tuck, Vanessa Redgrave explica à filha (na série e na vida real) Joely Richardson que os jovens não cometem erros, fazem pesquisa. Esta visão laboratorial da existência é acompanhada pela colocação em pólos opostos da segurança e da autenticidade, isto é, uma distinção entre uma vida com significado, em que o risco tem as suas recompensas e as quedas são redentoras, e a monotonia asséptica de um caminho que prefere jogar pelo seguro, arriscando perder o sublime para assegurar o comum.


Devemos concluir que no jogo da vida a autenticidade é um privilégio da juventude e que o estado adulto institui a soberania da segurança? Provavelmente. À medida que adicionamos mais um elo na corrente das nossas relações menos espaço nos sobra para a autenticidade, que implica sempre um independência radical que raia o egoísmo. O instinto acena-nos com a autenticidade, o remorso empurra-nos para a segurança, que, por vezes, nos surpreende com tangentes à grandeza.

 

(Nip/Tuck , série criada por Ryan Murphy, foi exibida nos Estados Unidos entre 2003 e 2010 e está a ser reposta na Sic Radical. Protagonizada por Dylan Walsh e Julian McMahon, contou entre os actores convidados com figuras como a já citada Vanessa Redgrave, Jacqueline Bisset, Bradley Cooper, Anne Heche, Jill Clayburgh, Lauren Hutton, Alec Baldwin, Catherine Deneuve, Kathleen Turner e Melanie Griffith.)

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:30 link do post
05 de Agosto de 2015

Junte-se a silly season à mais desbragada propaganda eleitoral e obtém-se um híbrido disforme. Orgulhoso do seu PREC (Processo de Reforma em Curso) aplicado ao nosso “querido Portugal”(evocação vagamente norte-coreana), Passos Coelho gaba-se de estar a “lutar mais por Abril e pela liberdade do que tantos outros”. O homem comum que veio dos subúrbios para salvar Portugal da bancarrota, espicaçar os piegas e os preguiçosos, e pagar as dívidas, promete agora, como “objectivo de longo alcance” (longo pela ambição ou pela megalomania?), transformar Portugal numa “das dez mais competitivas economias mundiais”. Para já, parece querer apropriar-se de linguagem estranha à sua família política. Quem sabe? Talvez faça sentido para ele, este takeover semântico. Não foi no seu mandato que, como diria uma sua ministra, “acabou a impunidade” dos poderosos? E em que um baluarte do grande capital viu colapsar um império que reconstruíra no pós-25 de Abril? O verdadeiro PC garante das conquistas de Abril, sabemos agora, não é o Partido Comunista. É o Passos Coelho.

 

Já tínhamos notado que havia dissensão nas fileiras revolucionárias. E que Pacheco Pereira era considerado persona non grata e encarado como inimigo juramentado pela claque do farol liberal que nos guia. Com passos firmes e incansáveis. Terá origem nessa seita o cartaz que simulou uma candidatura de Pacheco Pereira às Presidenciais de 2016, pirateando uma sua imagem empunhando uma kalashnikov?
O visado chamou-lhe um “caso raro de propaganda negra”. O historiador, que considera que no PSD “houve uma clara deslocação à direita, violando programas e práticas identitárias, já para não falar do legado genético do seu fundador Francisco Sá Carneiro”, é defensor de uma oposição incisiva ao passismo, recusando embrulhar a falsidade num eufemismo delicado. “É que ele está mesmo a mentir”, escreve, referindo-se ao primeiro-ministro.
O cartaz é um tiro ao lado oriundo da frente inimiga. A palavra é a arma de eleição de Pacheco Pereira. Que ele usa implacavelmente para desmistificar contos de fadas, mitos urbanos, reformistas de pacotilha, irrevogáveis a bombar e cristãos-novos de Abril.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:03 link do post
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