NO VAGAR DA PENUMBRA
06 de Agosto de 2014

“Não há dinheiro. Qual das três palavras não percebeu?!”, terá dito, com a veemência mitigada da sua voz quase sussurrada, Vítor Gaspar ao seu colega ministro Álvaro Santos Pereira, com o objectivo de cortar cerce as veleidades de investimento público (que no período 2010-2013 ficou reduzido a quase um quarto). Volvido um par de anos, e ainda a braços com cortes nos salários e nas pensões, restrições na saúde e no acesso às prestações sociais, e com uma dívida pública bruta recorde de 220.696 milhões de euros (132,9% do PIB – dados do Eurostat para o primeiro trimestre/2014), eis que os portugueses vêm quem em tempos agitou o slogan do “país de tanga” anunciar a chegada de “uma pipa de massa”.

 Devemos depreender que já há dinheiro? Agora que a dívida pública é a terceira maior da União Europeia ( a 2,7% do segundo lugar…), que a diminuição da despesa primária do Estado se deveu fundamentalmente à compressão das despesas com o pessoal e das despesas de capital, e que o ajustamento orçamental, mesmo nestas condições, está longe de ser um dado adquirido?

Barroso acena com um pacote de 25.792 milhões de euros. Previne que o dinheiro “deve ser bem aplicado” e decreta o silêncio para “aqueles que dizem que a EU não é solidária com Portugal”. Será preciso recordar que a Comissão Europeia, citando Paul de Grauwe (Expresso, 2.08.2014), patrocinou programas de austeridade que “não só levaram a muita destruição da economia como provocaram o sofrimento de milhões de pessoas”? E que não foi atingido o objectivo de “aumentar a capacidade dos governos para servirem a dívida”?

A tirada populista de Durão Barroso traz-me à memória um excerto de um poema de Sophia: “Com fúria e raiva acuso o demagogo / Que se promove à sombra da palavra / E da palavra faz poder e jogo”. Parece que a família Barroso aprecia Alexandre O’Neill. Sigamos o cherne, “ o peixe recalcado” que circula “em água silenciosa de passado”? Obrigado, mas não. Até porque o seu percurso político faz-me evocar precisamente o título de um outro poema de O’Neill – “ Pretextos para fugir do real” – onde se pode ler: “Assobio às pequenas esperanças / Que vêm lamber-me os dedos / (…) E ao trote do ciúme deito contas / Deito contas à vida.”

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:57 link do post
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