NO VAGAR DA PENUMBRA
31 de Janeiro de 2013

De acordo com uma notícia do Público (23/01/2013), citando o Guardian, Taro Aso, ministro das Finanças japonês, no contexto de uma reunião governamental destinada à discussão do orçamento da saúde, e também à reforma da segurança social, defendeu que aos pacientes mais idosos deveria ser permitido morrer rapidamente de forma a minimizar a carga financeira que representa o seu tratamento. O ministro, que tem 72 anos, chegou ao ponto de afirmar que o problema só terá resolução “se se deixar os idosos ‘morrer rapidamente’ “.

 Já em 2002, numa conferência proferida na Faculdade de Economia do Porto, Aníbal Cavaco Silva tinha afirmado, a propósito dos funcionários públicos: “Como nos vamos livrar deles? Reformá-los não resolve, porque deixam de descontar para a CGA e diminui as receitas de IRS. Só resta esperar que acabem por morrer”(Visão, 15/03/12)

O que é provocará nos políticos, no activo ou em pousio, a propensão para a articulação de frases deste calibre? Será que a magnitude dos desafios da governação conduz ao bloqueio da sensibilidade? Ignorarão que a legitimidade do exercício do seu mandato se pode esboroar com a utilização insensata do poder da palavra?

 

No discurso inaugural do seu segundo mandato, Barack Obama afirmou que a América “não pode ter sucesso enquanto alguns, que são cada vez menos, vivem muito bem, e outros, que são cada vez mais, não conseguem viver decentemente”. Mostrou-se consciente do imperativo de corrigir o desequilíbrio orçamental - “Devemos fazer escolhas difíceis para reduzir o custo da saúde e o tamanho do défice” - , mas rejeitou explicitamente espoletar uma guerra entre gerações, não caucionando a ideia de que “os americanos têm de escolher entre apoiar a geração que construiu este país ou investir na geração que construirá o futuro”. Numa espécie de frase-síntese da importância que atribui à igualdade de oportunidades, Obama esclareceu: “O apoio social não faz de nós uma nação de dependentes, liberta-nos para correr os riscos que fazem este país grande” (citações recolhidas do Público, edição de 22/01/2013 – artigo de análise de Teresa de Sousa).

O liberal da América, líder do mundo livre, que preside a uma nação poderosa, pujante e inovadora, empreendedora e criativa, vê nas almofadas sociais um factor de libertação das energias do progresso, ao passo que o liberal que chefia o Governo do país mais ocidental da Europa (bem como alguns dos seus ministros), encontra nos instrumentos do Estado social, fundamentalmente, riscos de pieguice , acomodamento, estagnação, abuso, fraude. Por outro lado, também não perde uma oportunidade para carregar no fardo do endividamento que as próximas gerações terão de suportar. São, evidentemente, dois espécimes diferentes de liberais, mas decerto não ocorrerá aos nossos governantes insinuar que, na América de Obama, se prepara uma “festa socialista”.

 

Comentando o sucesso da emissão pela República Portuguesa de dívida pública sindicada, Ricardo Salgado afirmou que se tratou de “uma vitória dupla – do povo português e do Ministério das Finanças”, e também de um triunfo sobre as agências de rating.

Como bem sabemos, este regresso aos mercados foi apenas, como disse a secretária de Estado do Tesouro, “um primeiro passo muito importante” e o país “tem ainda muitas dificuldades pela frente”. A disponibilidade dos investidores, dizem-nos, estará sempre condicionada pelas nossas perspectivas de crescimento, pela sustentabilidade da nossa dívida e pela correcção dos desequilíbrios orçamentais. O cumprimento das metas do défice depende da compressão da despesa mas também da arrecadação das receitas previstas.

Ora, segundo o jornal i , o banqueiro efectuou sucessivas rectificações à sua declaração de IRS de 2011, o que teve como consequência que, em vez dos cerca de 183 000 €  inicialmente pagos por ele, o imposto liquidado no final se cifrasse num montante superior a 4,5 milhões. Em causa estão, sobretudo, rendimentos obtidos no exterior.

Resta saber se Ricardo Salgado está mal assessorado na área das suas finanças pessoais, se quis, à sua escala,  minimizar o “desvio colossal” , superior a três mil milhões de euros, verificado nos impostos cobrados face ao orçamentado, ou se se tratou, pura e simplesmente, de uma manobra deliberada de evasão fiscal. Ignorância, negligência ou dolo são as hipóteses em cima da mesa. Como escreveu, com brutal clareza, Nicolau Santos (Expresso, 26/01/13): “o Banco de Portugal vai ter de pronunciar-se sobre se um banqueiro que foge ao fisco é idóneo para continuar à frente de uma instituição financeira”.

 

 

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:47 link do post
26 de Janeiro de 2013

Frank deu uma queda. Frank tem oitenta anos. Prostrado no chão do quarto, desatou a berrar que tinha “perdido o bracinho” e não sabia dele. Frank partiu um braço e fez equimoses no outro.

Meditemos nesta incongruência: os amputados podem sentir a presença do membro ausente; os fracturados, aparentemente, podem não sentir o que está presente.

Fracturar é partir, desligar, quebrar. Transportemos a acção para outra dimensão: quando se quebra um sentimento – a segurança, a confiança, a amizade, o amor – ele é extirpado (amputado) ou permanece até ao limite do suportável (fractura exposta)? Não poderemos dizer de alguém que traiu a nossa confiança: perdeste-te e eu perdi-te? Estás aí, mas não te reconheço?

O corpo também nos falha, como Frank bem sabe. Tem agora o período da convalescença para redescobrir o membro superior. E para testar a sua impaciência. Porque, aos oitenta anos, um homem confronta-se com uma espécie de paradoxo do tempo: se a disponibilidade é elevada (como preencher os espaços diários de ócio?), a durabilidade é imprevisível mas seguramente mais escassa (até quando poderei continuar a assistir ao despontar de cada dia?). E quando se está enfermo, é mais fácil alimentar angústias pelo tanto que se pode perder que bendizer o muito que se tem.

publicado por J.J. Faria Santos às 17:50 link do post
20 de Janeiro de 2013

O FMI tem uma enorme preocupação com a moral. Para ser rigoroso, terei de esclarecer que o que atormenta os seis autores do relatório Portugal, Rethinking the State – Selected Expenditure Reform Options  é o risco moral. Exemplos? Reduzir as pensões mais elevadas da Caixa Geral de Aposentações pode desfazer a ligação entre a contribuição e o benefício futuro e constituir um “incentivo à informalidade” (pág. 39); o risco moral é elevado nos actuais desempregados dado que a eles se aplicam regras “mais generosas” (pág. 47); já a limitação da dedução das despesas das famílias numerosas, ou das despesas com a habitação, poderá ter como consequência a opção dos casais por “viverem separados” (pág. 51), uma alteração de comportamento com impacto fiscal negativo para o Estado.

Será que a instituição nos propõe uma moral (isto é um caminho sujeito a determinadas normas e valores) ou nos atropela com o seu moralismo (ou seja, nos impinge o rigor excessivo e a suposta bondade dos seus modelos) ? A resposta é óbvia e desde o início que o relatório não esconde ao que vem, embora surpreenda com uma ou outra concessão, aqui e ali. Começando por afirmar que “o tamanho do Estado é uma questão de escolha política”, concede que uma política governamental não deve ter como objectivo primordial um Estado mais pequeno mas “eficiente e eficaz, que complemente e estimule a actividade económica privada” (pág.11). Contudo, não resiste a vaticinar que este objectivo tem mais probabilidade de ser atingido num Estado mais reduzido.

Por entre “pressupostos errados”, estatísticas manipuladas ou seleccionadas para ilustrar uma tese, dados desactualizados e conclusões altamente questionáveis ou mesmo patentemente erradas, e propostas de cortes irrealistas, impraticáveis ou insensatos, emergem dados indesmentíveis que servem para que quem encomendou o estudo possa dizer que temos, por fim, uma inventariação de problemas estruturais que exigem uma acção imediata.

Curiosamente, o RSI (a bête noire  do número três do governo, o ódio de estimação do Dr. Portas) recebe elogios no relatório. Apesar de alertarem para o risco de subsidiodependência e da sua suposta vulnerabilidade face aos abusos, os autores consideram que cumpre a função para que foi criado ao amparar os mais carentes. “Os dados disponíveis indicam que 89% dos benefícios vão para os 20% mais pobres da população”, pode ler-se na página 48 do relatório. E, um pouco mais à frente, acrescenta-se que “cerca de quarenta por cento dos beneficiários do rendimento social de inserção são crianças, esmagadoramente do grupo de mais baixos rendimentos”. Nada disto oculta o propósito evidente do relatório, que é, como bem notou Francisco Assis (Público, 17.01.2013), uma “tentativa de deslegitimação radical do Estado-providência, quer pela via do questionamento da sua sustentabilidade financeira, quer pelo caminho da contestação da sua eficácia redistributiva”.

Se o FMI tivesse, deveras, uma preocupação fundamental, ela deveria ser a de evitar o risco da imoralidade. Da imoralidade berrante e aberrante que se desprende de propostas como as que sugeriram cortes de 10% em todas as pensões, ou de 15% para as pensões acima do valor mínimo.

publicado por J.J. Faria Santos às 13:55 link do post
13 de Janeiro de 2013

                                       Imagem: courtesy of www.bertc.com

 

Charlize Theron, luminosa e curvilínea, num anúncio da Dior, libertando-se de acessórios supérfluos (como se só ela fosse preciosa e incalculável) enquanto vai decretando que “Gold is cold / Diamonds are dead”; ou Isabella Rossellini, no esplendor dos sessenta, alça do vestido descaída, formosa e segura, agarrando com as duas mãos a mala Bulgari personalizada e personalizante (Isabella Rossellini bag). Dois exemplos de vedetas de cinema emprestando o seu glamour  ao universo publicitário. Já a utilização de Brad Pitt para promover o Chanel nº5, confesso que não me entusiasma. Pode parecer ousado e inovador, uma ruptura nas convenções, mas aquela pose de romântico atormentado de cabelo pelos ombros não me parece que case bem com a pátina vintage do perfume.

Mas nem só de imagem vive a publicidade (nem que esta irrompa assombrosamente totalitária, seja sob a forma do classicismo superlativo de Ralph Lauren ou de Giorgio Armani, seja sob a bandeira da agressividade erótica de Tom Ford). A Patek Philippe utiliza três das minhas frases de estimação: na versão masculina, desvaloriza a posse para enaltecer o conceito de legado (“You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation”); na versão feminina, enfatiza a perenidade da beleza (“Something truly precious holds its beauty forever”). Qualquer uma delas subverte a noção imediata a que associamos a publicidade – um incentivo ao consumo, quantas vezes compulsivo, frívolo ou inútil – para destacar a nobreza de uma aquisição que aspira à eternidade.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 14:30 link do post
06 de Janeiro de 2013

O que faz o grande cinema? Mais do que uma interpretação pungente ou arrebatadora, um argumento engenhoso ou uma realização inventiva nos travellings e nos raccords , o que torna uma fita notável é a criação de uma atmosfera, de um impalpável encantamento.

Miguel Gomes construiu uma sumptuosa narrativa visual de uma história de amor em África entre uma mulher chamada Aurora (o início de algo, o esplendor de juventude) e um homem chamado Ventura (destino ou felicidade, mas também risco ou perigo), a partir das reminiscências deste, na sequência das cerimónias fúnebres daquela. Na primeira parte do filme, acompanhamos os últimos tempos de Aurora, enredada entre a solidão e a ameaça da loucura, vigiada pela criada africana e amparada por uma vizinha chamada Pilar (coluna que suporta uma edificação), ela própria em risco de desmoronamento, procurando disfarçar com o empenho em causas sociais o tumulto causado pela insatisfação pessoal, cronicamente indecisa em como reagir às atenções do amigo pintor. Como se quisesse exemplificar que a bondade, a gratidão e a disponibilidade não chegam para despertar a atracção. Na segunda parte, Tabu é a crónica de um desejo consumado, no vasto espaço africano, por entre festas retumbantes concluídas com salvas de tiros, caçadas com disparos infalíveis e perseguições a um crocodilo esquivo, até culminar numa trágica e insensata escapadela ( a insensatez é a forma preferida do amor se manifestar). Tudo em voz off  e emoções on. O paraíso pode estar perdido, mas jamais será irrecuperável enquanto a memória o preservar.  

 

Tabu  foi considerado pelas revistas Sight & Sound  e Cahiers du Cinema, respectivamente, o segundo e o oitavo melhor filme de 2012, tendo recebido, também, dois prémios no festival de cinema de Berlim. Em menos de um mês de exibição em França, foi visto por mais de cem mil espectadores, quase o quíntuplo do que sucedeu no nosso país. Todos puderam ver em Ana Moreira a fusão da pura alegria com o frenesim erótico, e em Carloto Cotta aquilo que o crítico da Variety, Jay Weissberg, chamou de “elegância cativante de um jovem Errol Flynn”, porém, são Teresa Madruga e Laura Soveral quem arranca duas extraordinárias interpretações que jogam com uma tríade de emoções: melancolia, voluntarismo e desamparo.

publicado por J.J. Faria Santos às 14:33 link do post
Janeiro 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
21
22
23
24
25
27
28
29
30
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
comentários recentes
Uma clarificação em resposta a interpelação do lei...
Bom dia, Mas do que li pelo menos das citações que...
blogs SAPO