NO VAGAR DA PENUMBRA
28 de Abril de 2012

 

 

"A ÚLTIMA CEIA" DE LEONARDO DA VINCI

 

Foi no II Concílio de Latrão, em 1139, que foi decretada a lei do celibato. É irresistível encarar este preceito como o pecado original que enforma toda a perspectiva que a Igreja Católica têm da moral sexual. Herbert Haag, padre católico e professor universitário, num livro onde arguiu em favor de reformas na instituição – o provocatório “A Igreja Católica ainda tem futuro?” – defendeu que “(…) o celibato, tal como hoje é praticado, dificilmente é conciliável com a dignidade humana”. Ilustrando o comportamento dúplice que subverte a autoridade de um ditame, Haag citou o exemplo do Papa Pio IV que reforçou a lei do celibato apesar dele próprio ter tido três filhos; e ainda refere o facto dos participantes no Concílio de Constança terem podido usufruir dos serviços de centenas de prostitutas.

Talvez não devamos ser intolerantes com as fraquezas humanas dos intermediários do Divino, mas podemos, e devemos, castigar a ortodoxia que tantas vezes parece ignorar a compaixão, desconhecer a humildade e a sapiência da dúvida metódica, e evidenciar uma assombrosa incapacidade de agir com sensatez e proporcionalidade, refreando desajustados intuitos regulatórios da vida íntima dos seus membros.

Referindo-se ao contexto específico dos EUA, mas com ressonâncias universais, escreveu Andrew Sullivan, na Newsweek, referindo-se aos líderes religiosos da Igreja Católica: “(…) estão obcecados com as vidas sexuais dos outros, acerca de quem tem direito a casamento civil, e acerca de quem paga o controlo da natalidade nos seguros de saúde. A desigualdade, a pobreza, mesmo a tortura institucionalizada exercida pelo governo no pós-11 de Setembro: estes temas atraem bastante menos a atenção deles”.

Muitos julgam ver na prática conservadora a defesa indispensável da integridade, da pureza doutrinária, em face das ameaças da modernidade. Mas quando isso conduz ao condicionamento da autonomia dos fiéis, não estará a Igreja Católica a renegar a própria essência do seu múnus?

O padre Anselmo Borges dá um contributo fundamental para a resposta a este quesito, numa notável entrevista concedida a António Marujo, transcrita na revista Pública, de 6 de Fevereiro de 2011. Afirmou ele: " Quando esmaga o ser humano, quando em nome de Deus se mata ou se impede a crítica ou o desenvolvimento das pessoas, quando em seu nome se cometem injustiças, aí a religião é opressora. E também oprimiu quando trouxe medos, com coisas como o inferno, com o impedimento da alegria a nível sexual, todo esse universo de pânico. Mas, pela sua própria dinâmica, ela é libertadora. Toda a religião arranca desta pergunta: o quê ou quem liberta e salva? Na sua raiz, ela só pode entender-se enquanto força de liberdade e libertação”.

publicado por J.J. Faria Santos às 18:43 link do post
22 de Abril de 2012

É relevante convocar a opinião da crítica especializada quando, a pretexto do seu novo disco, se pretende abordar o fenómeno Madonna? A resposta só pode ser afirmativa, dado que a polémica excessiva que sempre a rodeou desviou o foco do núcleo do seu trabalho, contribuindo para uma visão superficial do seu contributo artístico para o universo da pop, assente, quase exclusivamente, na convicção de que ela é uma produtora de imagens, entre a pastiche e a reinvenção, e a música seria uma espécie de subproduto ao serviço da construção do ícone.

No Público, Vítor Balenciano deu-lhe duas em cinco estrelas e acusou-a de já não antecipar as grandes tendências, enquanto que, no Expresso, mais benevolente, Jorge Manuel Lopes deu-lhe três estrelas, na mesma escala, considerando que MDNA  é “uma escorreita celebração do hedonismo sob as luzes da pista de dança”. No Guardian , Alexis Petridis, dá-lhe a mesma classificação, considerando-a uma “imponente presença no absoluto centro da pop”, e Nick Levine, na BBC, acha que o novo trabalho tem uma sonoridade mais “contemporânea que inovadora”, acabando por ser, porém,  “não apenas um bom álbum pop, mas também um bom álbum de Madonna”. Kathy McCabe, editora de música do Daily Telegraph, acha que MDNA  reúne em si as  inúmeras facetas da cantora, vendo neste novo trabalho um desvio para territórios mais “negros, arriscados e duros” do que os preferidos pelos seus pares, sobretudo da nova geração, que preferem navegar no revivalismo do euro-house da década de 90. Conferindo-lhe um sete, numa escala de zero a dez, Priya Elan, do New Musical Express , vê no “noir-house” de “Gang Bang” e no “trippy beat” de “I Don’t Give A” evidência do material “mais visceral” alguma vez feito por ela. Por fim, num lista que não pretende ser exaustiva, Joe Levy, na Rolling Stone, nota que “sete em dezasseis canções abordam directamente a sua separação” e conclui: “a música dela foi sempre acerca da libertação da opressão, mas pela primeira vez a opressão é interna: perda e tristeza”.

A harmonia clássica de “Falling Free”, a concepção soberba das festivas “Turn Up the Radio” e “Beautiful Killer”, a tonalidade minimal da bélica “Gang Bang” e o  mid-tempo  mutante de “I fucked up” destacam-se num CD onde pululam trechos que ficam no ouvido. Apontamentos como o final do tema “I Don’t Give A” mostram que Madonna recompensa os que não desistem de esperar o inusual.  

Para os que acham que aquela a quem Norman Mailler apelidou de “Sex Queen of America” cria música descartável, talvez fosse aconselhável uma abordagem menos preconceituosa. Joe Levy , na crítica acima referenciada, encontrou em MDNA  uma profundidade que uma audição sucessiva faz emergir (“the music has depth that rewards repeated listening”).

publicado por J.J. Faria Santos às 15:01 link do post
15 de Abril de 2012

 

Imagem: Freefoto.com

 

1. No Relatório do Orçamento de Estado para 2012, apresentado em Outubro de 2011, afirmava-se taxativamente: “A redução do défice vai ser realizada predominantemente pela via da redução da despesa (significativamente mais de 2/3) sendo o restante assegurado pelo aumento das receitas”. Esta proporção mantém-se no Orçamento Rectificativo?

Respondo eu: Não. Aparentemente, o objectivo da consolidação orçamental pelo lado da despesa foi abandonado ou adiado. A UTAO, na versão preliminar do seu parecer técnico acerca do Orçamento Rectificativo, nota que “a receita explicará cerca de 3/4 (2,3 p.p. do PIB) do esforço de correcção orçamental a realizar em 2012”.

 

2. Qual o efeito das decisões que minimizam o impacto ou excluem do esforço de contenção de despesa algumas empresas e grupos profissionais?

Responde Manuela Ferreira Leite: “(…) a existência de excepções, qualquer que seja o seu fundamento, lança dúvidas sobre a imprescindibilidade das medidas adoptadas e torna-as, aos olhos do cidadão, em decisões dirigidas a pessoas específicas e não para alcançar objectivos concretos em que todos se enquadram”.

(Expresso, 17/03/2012)

 

3. Como avaliar as convicções ideológicas do Governo e a sua consonância com o património doutrinário do principal partido que o sustenta?

Responde Pacheco Pereira: “Os mais veementes aplausos à acção governativa vêm de poderosos interesses na sociedade portuguesa, que pouco têm a ver com o eleitorado ‘genético’ do PSD ou com os portugueses que é suposto representar pelo seu programa e acção. A deslocação à direita foi tão violenta, sem rigor nem memória, que hoje um moderado do PSD que tente reformular no actual contexto algumas preocupações que fazem parte do gene PSD parece um adversário do capitalismo e da liberdade económicos”.

(Público, 17/03/2012)

 

4. Faz sentido a ideia dos opositores do Governo de flexibilizar as metas do défice?

Responde Abebe Selassie (chefe de missão do FMI): “Se a economia tiver um desempenho mais fraco do que o previsto, ou se o ambiente externo se degradar mais, perseguir metas nominais fixas de défice pode não ser a melhor política e agravará ainda mais a recessão”.

(Público, 14/04/2012)

 

5. Como qualificar as contradições no discurso governativo acerca dos cortes nos subsídios de férias e de Natal?

Responde Nicolau Santos: “Dois anos são dois anos, não são três nem quatro, nem quatro e meio. Dois anos são 2012 e 2013, não 2014 e reposição gradual e parcial dos referidos subsídios só em 2015. Não há outra expressão para qualificar o que se passou: o Governo mentiu”.

(Expresso, 14/04/2012)

 

6. Devemos associar a suspensão das reformas antecipadas a um iminente colapso a curto prazo da segurança social?

Respondo eu: Tudo indica que esta decisão do Governo está associada a motivações conjunturais, que se relacionam com o cumprimento das medidas do défice. Dito de outra forma: é mais uma questão de tesouraria que de sustentabilidade do sistema. O relatório do Orçamento do Estado para 2012, publicado em Outubro de 2011, continha um anexo intitulado Relatório sobre a Sustentabilidade Financeira da Segurança Social. Nesse documento, procede-se a uma actualização das projecções de longo prazo relacionadas com a dita sustentabilidade. As novas previsões levaram em linha de conta a quebra esperada para a população residente em Portugal entre 2010 e 2050, as alterações legislativas já em curso, o estipulado no Memorando de Entendimento e uma previsão de crescimento real da economia até 2050 inferior a 2%. Em jeito de conclusão, refere este relatório: “Com a previsão do primeiro saldo negativo do subsistema previdencial a ocorrer entre 2030 e 2035, os rendimentos e as valias geradas pelo fundo deverão permitir que, até 2040, o valor acumulado do FEFSS seja suficiente para garantir, anualmente, o pagamento das despesas totais de pensões do regime contributivo e que, em 2050, o fundo apresente um valor correspondente a cerca de 2,5% do PIB.”

Sendo avisado acompanhar a evolução e reforçar os mecanismos que garantam a sustentabilidade da segurança social, parece-me intelectualmente desonesto deixar instalar a sombra de um colapso iminente. Além do mais, tal ideia seria desastrosa para a aura de competência técnica da equipa do Ministério das Finanças, desmentindo de forma avassaladora um relatório publicado seis meses antes, ainda por cima apoiado em modelos analíticos e cenários macroeconómicos elaborados pelo departamento de estatística da União Europeia, pela própria Comissão Europeia ou pela OCDE.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 17:07 link do post
12 de Abril de 2012

Primeiro foi o primeiro-ministro que num assomo de criatividade lançou em pleno hemiciclo a expressão “malabarice”. O sempre atento Prof. Louça logo viu neste vocábulo a aglutinação de malabarismo com aldrabice. Agora, na sua dominical conversa em família, o Prof. Marcelo armou-se em discípulo de Mia Couto e inventou a “golpaça”. Na linha de raciocínio do coordenador do Bloco de Esquerda podemos ver neste “neologismo” uma mistura de golpada com trapaça? E para abrilhantar a peça, embalado pela carga simbólica da sua tormentosa, heróica e patriótica gesta, eis que surge à boca de cena o Dr. Seguro que, como se fosse um daqueles canastrões do teatro clássico português, berrou com monocórdica indignação: “Ignomínia!”.

O Prof. Marcelo, que é especialista em “factos políticos”, uma espécie de ciência oculta, versátil como aparenta ser, talvez não desdenhe a carreira de médium ou conselheiro espiritual (nome artístico, digamos que já tem…sempre soa melhor Prof. Marcelo que Prof. Karamba…), pronto a curar os males de amor, a espinhela caída ou o mau-olhado. Embora, pensando melhor, com a sua fama de mefistofélico, talvez ele tenha mais vocação para a magia negra. Quanto ao Dr. Seguro, seria aconselhável deixar de fazer oposição aos comentadores políticos, mas, se pretender persistir na empreitada, que convide o Prof. Marcelo para jantar e lhe sirva um prato frio como a vingança requer. Uma vichyssoise ?

publicado por J.J. Faria Santos às 20:40 link do post
05 de Abril de 2012

Imagem: freefoto.com

 

No ano passado, existiam em Portugal 1791 centenários. Numa sociedade cada vez mais obcecada pela juventude, o aumento da esperança de vida aparece correlacionada com uma parafernália de elixires que prometem congelar o tempo, mais exactamente o rasto da sua passagem.  Os poetas associaram o amadurecimento à sabedoria e souberam descobrir nos sinais de decrepitude uma outra beleza. Yeats intitulou mesmo um seu poema “The coming of wisdom with time” (“Com o tempo a sabedoria” na tradução de José Agostinho Baptista). Shakespeare, num dos seus sonetos, definiu de forma lapidar o processo de envelhecimento: “Thy glass will show thee how thy beauties wear / Thy dial how thy precious minutes waste” (“Espelho diz-te que a beleza cessa / relógio, que os minutos se te vão”, verteu para português Vasco Graça Moura).

Claro que é fácil admirar a longevidade, a sua beleza e a sua graciosidade, quando a ela se associam a autonomia, a qualidade de vida e a serena lucidez que a experiência faz germinar. Mas se à perspectiva do fim da travessia se juntam a senilidade, a fragilidade extrema, o apático confinamento a um leito ou a uma cadeira de rodas ou a intermináveis tardes embaladas pela televisão e pelo sono, onde reside a belo? Como agarrar a vida quando ela parece escorrer irremediavelmente por entre os dedos?

Podemos falar de amor, de afecto, de gratidão, de solidariedade ou de humanismo, mas a partir de certo limiar já é difícil reconhecer uma vivência e a mera sobrevivência é escassa para convocar a beleza.

 

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:21 link do post
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