NO VAGAR DA PENUMBRA
29 de Março de 2012

Reúne em si a gravitas do homem de Estado com a circunspecção tranquilizadora do gestor de fortunas. Fala com a cadência e a autoridade de alguém a quem basta um arquear de sobrancelha para desfazer uma impertinência ou inverter uma contrariedade. Refulge nele o charme discreto da alta burguesia e a distinção inconfundível da elite do velho dinheiro. O seu poder supremo é a capacidade de influenciar o poder. Os seus domínios funcionam como viveiro de dirigentes ou porto de abrigo de desvalidos provisórios da democracia. Detém um aparente droit de regard  sobre certas nomeações: tanto promove como desqualifica ou reabilita. A nota de dólar, nos Estados Unidos, pode conter a inscrição “In God we trust”, mas em Portugal, na eventualidade de o mesmo se aplicar à nota de euro, o elemento da Santíssima Trindade seria outro…

publicado por J.J. Faria Santos às 20:00 link do post
22 de Março de 2012

No cinema, aprecia o género noir , designadamente O Crepúsculo dos Deuses e À Beira do Abismo, este último uma complexa narrativa com o dedo de William Faulkner e a interpretação da dupla Bogart-Bacall; na música, as suas preferências vão para Elvis, Sinatra, Nina Simone ou Nirvana. Em 2012 lançou Born to Die, trabalho que Sasha Frere-Jones, na New Yorker, definiu como “um álbum de canções melodramáticas que soam como a banda sonora de um filme”. Aposta num visual forte, jogando com os estereótipos da starlet americana, da colegial perversa ou de um romantismo barroco, invariavelmente de carnudos lábios entreabertos. A música, onde predominam as cordas, acolhe a influência assumida da banda sonora de Beleza Americana, composta por Thomas Newman, mas também parece colher inspiração, para a secção rítmica, dos Portishead.

A polémica estalou a propósito de algumas inseguras actuações ao vivo e, como habitualmente quando alguém se apresenta com uma imagem forte, proliferaram as suspeitas de vacuidade ou inconsistência. Na peça citada da New Yorker, destacam-se as “melodias bem construídas e a riqueza harmónica”, mas afirma-se faltar à personagem Lana Del Rey “profundidade emocional e psicológica”.

Nos temas de Born to Die, existem referências a Nabokov, com uma citação explícita de Lolita  em Off the Races (“Light of my life, fire of my loins”), e a Tennessee Williams em Carmen (“Relying on the kindness of strangers”). Em National Anthem, adopta a identidade de uma material girl  para o século XXI (“Money is the reason we exist” e “Do you think you’ll buy me lots of diamonds?”).

Se interiorizarmos que estamos no núcleo do planeta pop talvez compreendamos a frivolidade desta discussão. Já era tempo de concedermos que leveza não é irrelevância, e de percebermos que uma demonstração de estilo não exclui a substância. Músicos brilhantes já se enredaram em intragáveis álbuns conceptuais, e letristas geniais já se perderam no labirinto das suas obsessões, pelo que será avisado não tratar apressadamente como descartável um qualquer fenómeno contemporâneo. 

Graças ao sucesso fulgurante de Video Games, Lana Del Rey inscreveu nas nossas memórias visual e auditiva o ADN de uma fórmula que reúne drama e obsessão e, como ela canta em Dark Paradise, “there’s no remedy for memory”.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:38 link do post
17 de Março de 2012

 Imagem: freefoto.com

 

O mal tem moral? O que é o desvio e o que é a norma? Interrogações inquietantes que nos assaltam quando, à boleia da voz off, partilhamos os pensamentos de um psicopata com um código de conduta. Já testemunhámos a extensão da sua inclemência no desempenho da sua inconfessável missão, já nos surpreendemos com a agilidade com que simulou empatia, já o vimos abraçar a conjugalidade e experimentar o remédio que prescreve aos outros. Vemo-lo, agora, no papel de pai extremoso. Claro que o que torna Dexter  uma série inovadora é a deslocação da perspectiva, que torpedeia a expectativa. O espectador é convidado a acompanhar o tom confessional dos pensamentos de um serial killer, e a repulsa transmuta-se em tolerância, quando não aquiescência. Porque o fulcro da sua acção assenta num justicialismo populista -  a eliminação selectiva dos escroques que escaparam às forças da ordem. E qual de nós, num momento de fraqueza, num relaxamento dos nossos adquiridos civilizacionais, não sucumbiu à indignação perante o inominável, e não desejou, em pensamentos, dar livre curso à sua fúria?

publicado por J.J. Faria Santos às 19:42 link do post
11 de Março de 2012

Downton Abbey retrata um tempo que projectava uma alegada ordem natural das coisas, onde os servidores nunca se sentiam serventuários e os poderosos esbanjavam magnanimidade e bom senso. Claro que este cenário idílico tinha as suas brechas – a discricionariedade raramente evita a prepotência. Numa sociedade altamente estratificada, a criadagem encontrava no grau de proximidade com o seu senhor a medida da sua auto-estima, quando não um sucedâneo de uma família ausente ou longínqua. Claro que esta “paz dos anjos” só poderia persistir enquanto todos respeitassem o acordo tácito de “cada um ocupar o seu lugar”. O diabo está nos detalhes e, aqui, o detalhe é como determinar o lugar de cada um e justificar a perpetuidade dessa condição.

No seu ensaio “A Classe Média: Ascensão e Queda”, Elísio Estanque cita um estudo realizado em Portugal e concluído em meados dos anos 90  do século passado para concluir que, apesar de ser inegável a ampliação da classe média e da mobilidade ser “um facto”, “quando olhamos as classes dos extremos, os índices de reprodução social são bem mais acentuados do que os da mobilidade”.O autor cita também um estudo comparativo da OCDE, de 2010, donde se pode extrair a conclusão de que “os países do Sul da Europa são os que evidenciam processos mais escassos de mobilidade social”.

Numa passagem recente pelo nosso país, Michael Marmot, professor catedrático em Epidemiologia e Saúde Pública, desfiou um série de dados eloquentes para se perceber o impacto que a desigualdade social tem na esperança de vida. Catarina Gomes, jornalista do Público, transcreveu alguns desses dados: em Westminster, “a diferença entre o mais rico e o mais pobre dos habitantes é de 17 anos”;em Washington D.C.: 18 anos. Se a comparação for feita entre países, chegamos a maiores disparidades: a esperança média de vida é de 42 anos para uma mulher no Zimbabwe e de 80 anos para uma mulher no Japão: de 47 anos para um homem no Quénia e de 82 anos para um homem na Suécia.

Desvalorizar a desigualdade social, remetê-la para o terreno da relíquia ideológica ou encará-la como um negligenciável dano colateral do dinamismo da economia de mercado tem um preço que se mede em vidas humanas – não só a sua qualidade mas, sobretudo, a sua duração.

publicado por J.J. Faria Santos às 14:45 link do post
07 de Março de 2012

Fosse eu um espírito gregário, e dado a manifestações de activismo, e estaria agora na linha da frente da promoção de uma petição para sensibilizar os responsáveis pela selecção musical de todo e qualquer conteúdo de emissão pública para a necessidade de evitar a difusão do omnipresente “Ai se eu te pego”. Volta “Macarena”, estás perdoada!

E digo sensibilizar porque seria inadmissível uma acção mais musculada, que se assemelhasse a censura, embora, na verdade, só esse radicalismo acalmasse a minha repugnância. Não desconheço que haja algo de irracional nesta minha aversão, mas não sei o que se me afigura mais ridículo: se a letra inane, se a música banal, se a interpretação delicodoce, se a coreografia infantil, se o patético transe colectivo das fãs.

Para popular ou popularucho, é mil vezes preferível a “Comunhão de bens” da Ágata (“podes ficar com a casa, o carro e as jóias…” – há aqui um louvável desprendimento em ritmo de valsa…); ou o “Afinal havia outra” da Mónica Sintra (onde algures na letra existe o quase poético “amor das horas vagas”); ou até a malandrice explícita das canções do Quim Barreiros. Agora este arremedo vagamente eroticizado (ai se eu te pego), soa a preliminar pouco convincente de paixão pouco arrebatada. “Nossa / assim você me mata”, diz ele. Mais depressa morre ela… de tédio…ou de síndrome de indigência musical. Sim, porque isto do despertar das sensações requer imaginação e alguma sofisticação. Ambas patentemente ausentes deste repelente “sucesso” instantâneo.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:01 link do post
04 de Março de 2012

Imagem: freefoto.com

 

No Inverno, podemos encontrar conforto numa caneca de leite quente com chocolate, enquanto a chuva escorre pelas vidraças  e fazemos rodar no leitor de CD Ella ou Billie. Mas nada se compara à exposição desavergonhada aos esparsos raios de sol, cuja fraqueza, que lamentamos, nos comprazemos em aceitar. Nesse dias, em que esconjuramos a precipitação, nada mais apropriado que a suave batida sincopada da bossa nova. Da velha guarda: Maysa, Sylvia Telles, Miúcha ou Nara Leão. Uma cedência limitada ao poderio anglo-saxónico é aceitável, seja sob a forma de uma “Wave” cantada pelo Sinatra ou de uma “Dindi” versão Sarah Vaughan, cuja inimitável voz transforma o verso “Like a river that can’t find the sea” no ne plus ultra  da perdição.

À noite, permita-se a submissão à contemporaneidade, encarnada pela eficácia dançável de Rihanna. “We found love in a hopeless place”, diz ela, como se nós não soubéssemos que ele reside no mais insuspeito dos lugares. E se nos encerrarmos numa dessas noites revivalistas dos espaços nocturnos, quem sabe se não rememoramos um hit do início dos anos 90, “This is your life”  ,  onde se cantava “Where is the purpose in your life / Where is the truth / Do you remember your hopes, your dreams? / They are no longer your own”. Como se vê, todas as circunstâncias são susceptíveis de sugerir uma meditação sobre o sentido da vida…mesmo quando estamos a saborear um Manhattan, encandeados por jogos de laser e de lazer.

publicado por J.J. Faria Santos às 14:39 link do post
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