NO VAGAR DA PENUMBRA
30 de Julho de 2011

Quo Vadis, Europa? Perguntam, atarantados e descrentes, políticos e jornalistas, diplomatas e pensadores, conformistas e visionários. Lamentam-se as vistas curtas do poder e fazem-se arriscadas profissões de fé nos mecanismos de autogestão. Evitam-se gestos de ruptura para não desestabilizar o mastodonte, fingindo-se ignorar que o descrédito espreita a coberto da pusilanimidade e da opção pelo controlo de danos. Sucumbir ao totalitarismo da finança seria trágico para o destino europeu e poria em causa aquilo que George Steiner, no ensaio "A Ideia de Europa", chamou de "herança dupla de Atenas e Jerusalém". Escreveu Steiner (no livro citado): "A dignidade do homo sapiens é precisamente essa: a percepção da sabedoria, a demanda do conhecimento desinteressado, a criação da beleza. Fazer dinheiro e inundar as nossas vidas de bens materiais cada vez mais trivializados é uma paixão profundamente vulgar e inane." Não ignoramos que é difícil elevar o espírito em tempos de austeridade e privação , mas não é a satisfação das necessidades básicas que aqui se quer relevar. Condições adversas geram muitas vezes a formulação de grandes desígnios. "A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe.", escreveu Fernando Pessoa. Está na hora de promover uma concertação social que liberte os europeus das contingências rasteiras do viver quotidiano, de forma a que neste, e para além deste, se irmanem naquilo que a arte é na sua essência: um conjunto de representações de uma realidade objectiva pelo homem e para o homem. Da multiplicidade das representações advirá a energia para uma transformação que liberte a Europa do logro das soluções economicistas.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:07 link do post
24 de Julho de 2011

Diz-se que não sabia lidar com a fama. Que procurou manter na notoriedade os rituais do anonimato: beber uns copos e jogar bilhar em pubs esconsos. Tentou a reabilitação, várias vezes, para acabar imersa numa espiral de dependência e excesso. Os desequilíbrios em palco nada mais eram que a projecção de uma desconformidade interior que a toldava. Talvez para ela, a vida fosse como um casino, com toda a casta de jogos de azar, onde a volúpia do ganho é quase sempre iludida pela ruína da má sorte. Amy Winehouse não conseguiu escapar à maldição das artísticas almas atormentadas. "O amor é um destino resignado", cantou ela em "Love is a losing game". E a vida? Poderia a vida dela ser um destino em construção?

publicado por J.J. Faria Santos às 17:08 link do post
16 de Julho de 2011

Em 1976, Carlos do Carmo gravou "Estrela da Tarde", o original de Ary dos Santos e Fernando Tordo, acompanhado por uma orquestra dirigida por Thilo Krasmann. A peça arranca com violinos lancinantes em diálogo com o piano, para seguir embalada pelo fraseado e pela dicção superlativas do cantor. Em 2007, Paula Oliveira editou uma versão jazzy , com Bernardo Moreira no contrabaixo e Leo Tardin ao piano, caracterizada por uma interpretação contida e suave, em que a voz da cantora explorou a languidez das palavras. Dois anos depois, Mafalda Arnauth retomou a tonalidade jazzística, numa recriação algo dramática, entre a súplica e o arrebatamento, como quem arrisca o voo sem ponderar o elevado risco de queda. Já em 2011, os Amor Electro pegaram na matriz do original e fizeram uma releitura electrónica, pondo em contraponto a voz cristalina de Marisa Liz e o poder declamatório de Adolfo Luxúria Canibal, que com a sua voz cheia e desmesurada conferiu espessura e intensidade às palavras. Ary dissera a Tordo: "(...) apetecia-me uma canção para meter muitas palavras, para dizer muitas coisas, muitas coisas...". E disse. Escreveu, num tempo em que a poesia se cantava e não de deixava acantonar nas coutadas de uns happy few, um clássico absoluto da MPP.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:12 link do post
10 de Julho de 2011

Em Fevereiro de 2010, o Presidente da República qualificava a avaliação das agências de notação financeira, em relação ao nosso país, como "profundamente errada, injusta e sem fundamento". Acusava também os mercados de tentarem encontrar um "alvo para realizar ganhos". No final do ano, criticava a "retórica de ataque aos mercados", recomendando que trabalhássemos para reduzir a nossa dependência externa. No corrente ano, num debate eleitoral, censurou "aqueles que insultam os mercados". Não se notou a sua indignação quando a Fitch cortou em cinco níveis o rating do país, já em 2011, mas eis que, esta semana, embalado pelo consenso liberal e pelo coro institucional, considerou o comportamento da Moody's "escandaloso", acusando as agências de rating norte-americanas de serem "uma ameaça à estabilidade da economia europeia, da zona euro e do bem-estar dos cidadãos". Enquanto que o governo "amigo dos mercados" reprimia a sua fúria, sem esconder o sentimento de traição das suas expectativas, Cavaco Silva, respaldado na reacção do establishment político e financeiro europeu, providenciava o analgésico para o "murro no estômago".  Recusando qualquer mudança de opinião, justificou a sua vigorosa reacção com o facto de agora haver um reconhecimento europeu de que estas instituições financeiras são uma ameaça, ou seja, a firmeza da sua intervenção na defesa dos interesses de Portugal, aparentemente e em determinadas situações, depende de uma caução externa. Seria de esperar, julgo, que uma posição de princípio não fosse condicionada por humores induzidos por receio de isolamento, cálculos eleitorais, simpatias pessoais ou afinidades ideológicas.

publicado por J.J. Faria Santos às 14:46 link do post
03 de Julho de 2011

Dominique Strauss-Kahn é o sedutor que gere o risco sempre entre o abismo e a ascensão, e gere o excesso entre o prémio e o castigo. A prudência não faz parte do seu catálogo, porque para ele toda a escassez mata a sedução e a subtileza limita. Insinuar-se na intimidade de forma intimidatória para a presa imprevidente é o combustível para o seu desejo. Não se detém perante o desconforto da visada, vê na persistência o remédio para a relutância, e sente que é a ousadia que potencia o efeito de encantamento que conduz à subjugação. Um crime de paixão seria uma condecoração, se não pusesse em causa a imunidade (impunidade) que o sedutor almeja.

Carla Bruni-Sarkozy é a sedutora que se alcandorou a mulher de Estado e que vai dar um filho à República. A metamorfose surpreendeu, a começar na imagem que é o seu activo principal, optando, num arremedo sacrificial, por esbater a sua presença para não ofuscar o marido. Dizem-na dissimulada e correm rumores de infidelidade, como que para corroborarem o seu proclamado aborrecimento com a monogamia. O poder de atracção dela provém da ausência de frivolidade; adivinha-se nela a força de uma cerebralidade que se impõe ao look, um pensar que se impõe ao deixar ver, uma determinação que verga o escrúpulo, uma ambição que reinventa a sua própria natureza. Mas não é por se enroscar aos pés do seu senhor que uma pantera se transforma num dócil animal doméstico.

publicado por J.J. Faria Santos às 15:04 link do post
02 de Julho de 2011

Manuela Moura Guedes, taliban da integridade jornalística, farol do jornalismo de investigação e vítima da longa noite socrática, enviou um SMS ao primeiro-ministro, alegadamente alertando-o para suspeitas relacionadas com negócios passados de Bernardo Bairrão que tornariam desaconselhável a sua indigitação como secretário de Estado. A história, narrada pelo Expresso, soa a ajuste de contas do casal Moniz com o ex-administrador da TVI, e envolve conversas de Paulo Portas com Pais do Amaral e de Miguel Relvas com a própria Manuela Moura Guedes. Não deixa de ser irónico que quem tanto se queixou de pressões sobre si se tenha empenhado tanto em exercê-las sobre outrem; e não deixa de ser curioso que se tenha envolvido de tal maneira num acto político, não acautelando acusações de promiscuidade entre o jornalismo e a política. Podemos, claro, supor que tenha sido um gesto em nome do interesse nacional, afastando assim a desconfiança de algo que pode ser encarado como uma mesquinha vingança.

Manuela "desmente totalmente" a notícia, que José Eduardo acha "uma imbecilidade". Num enredo que pode envolver uma vendetta, mas também jogos de poder e influência relacionados com a futura privatização de um canal da RTP, tomámos nota que Manuela pressiona por SMS. Se calhar por receio de estar a ser escutada...

publicado por J.J. Faria Santos às 19:25 link do post
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