NO VAGAR DA PENUMBRA
13 de Fevereiro de 2018

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“Durante a noite, no meu leito / busquei aquele que a minha alma ama; / procurei-o mas não o achei.”, lamenta-se a Esposa. Mas eis que, depois de percorrer a cidade, o encontrou. “Agarrei-me a ele e não o largarei mais, / até que o tenha introduzido na casa de minha mãe / no quarto daquela que me concebeu.”

O encantamento é mútuo. “O teu porte assemelha-se ao da palmeira / e os teus seios são os teus cachos. Eu disse: ’Subirei à palmeira, / e colherei os seus frutos.’”, desabafa arrebatadamente o Esposo, para logo acrescentar: “A tua palavra é como um vinho excelente / que corre deliciosamente para o amado / e desliza por entre os seus lábios e os seus dentes.”

 

A Esposa mostra-se preocupada com as convenções sociais ou até, porventura, com os constrangimentos morais ou religiosos, expressando alguma frustração por ter de moderar os seus ímpetos amorosos, pois confessa: “Quem me dera que fosses meu irmão / amamentado aos seios de minha mãe / para que, encontrando-te fora, te pudesse beijar / sem que ninguém me censurasse.”

O Esposo, porém, apressa-se a sossegá-la com uma eloquente descrição da vitalidade do amor: “Põe-me como um selo sobre o teu coração, / como um selo sobre os teus braços; / porque o amor é forte como a morte, / a paixão é violenta como o sepulcro, / os seus ardores são chamas de fogo, / os seus fogos são fogos do Senhor. / As muitas águas não poderiam extinguir o amor, / nem os rios o poderiam submergir.”

 

O Cântico dos Cânticos é um dos livros didácticos do Antigo Testamento, sendo apresentado como “um poema em que se canta e exalta o amor humano como fruto da natureza sexuada, origem da complementaridade e convívio social”. E é seguramente um bom ponto de partida para rejeitar interpretações doutrinárias de cariz religioso que censuram a expressão e a vivência dos afectos. Que não só se afastam da sua missão de conforto espiritual como também se aproximam da desumanidade e da tentação dirigista e ditatorial.  Ou então são, pura e simplesmente, insensatas. Porque “muitas águas não poderiam extinguir o amor”, a sua chama divina. Nem sequer a água benta de D. Manuel Clemente. É que estes não são fogos que incineram; são fogos que iluminam e inspiram a existência.

 

Citações extraídas da 8ª edição da Bíblia Sagrada da Difusora Bíblica

Imagem: "Adão e Eva" de Tamara de Lempicka (courtesy of Bert Christensen)

publicado por J.J. Faria Santos às 14:39 link do post
06 de Fevereiro de 2018

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Como se sabe a Justiça luta com uma crónica falta de meios, pelo que nunca é demais sublinhar a oportuna investigação destinada a avaliar os três tipos de crimes que poderiam estar associados aos dois lugares que Mário Centeno solicitou ao Benfica. Certamente que foi devidamente ponderada a apreensão de correspondência electrónica do assessor diplomático e do chefe de gabinete do ministro, e acautelada a possibilidade de aparecerem emails escarrapachados no jornal oficioso do Ministério Público. Estou certo que foi avaliada a proporcionalidade das acções empreendidas, de forma a evitar danos reputacionais ao ministro e ao Estado português, e até à própria Justiça, sempre sujeita a acusações de leviandade. Já para não falar do alarme social causado pela percepção de que um ministro da República, e logo o das Finanças, poderia vender isenções de impostos a troco de um punhado de convites… E das repercussões na imprensa internacional e nas instituições europeias.

 

O inquérito conduzido pela 9ª secção do DIAP de Lisboa foi arquivado porque se concluiu pela inexistência de qualquer crime, dado que, de acordo com o soberbo e esclarecedor jargão jurídico, “as circunstâncias concretas eram susceptíveis de configurar a adequação social e política própria da previsão legal”. Se não percebeu, ou achou a formulação abstrusa, não se sinta diminuído pela sua flagrante ignorância; é que a nobre arte de administrar a Justiça não se coaduna nem com o simplismo nem com a simplicidade. Só uma vanguarda iluminada garante a integridade da decisão. Nas imortais palavras de Joana Marques Vidal: “Os inquéritos são abertos porque se considera que há notícias de crimes. Faz-se a investigação adequada e decide-se o futuro”. Digamos, então, que se o Ministério Público continuar a estabelecer nexos de causalidade com a criatividade e a leveza demonstradas neste inquérito, o futuro promete ser mais acidentado que radioso.

 

Vicente Jorge Silva, no seu artigo dominical no Público intitulado Justiça e jornalismo no esgoto, lamentou que a “conivência entre alguns jornalistas e agentes da Justiça” tivesse atingido “um tal grau de desvergonha que cria laços de dependência e servilismo mútuos”. Especificamente sobre o caso que envolveu o ministro das Finanças, deplorou “que as autoridades judiciais se tenham limitado a reagir, como marionetas acéfalas, à pista maldosa do jornalismo de sarjeta”.

 

É pena que a percepção generalizada de que sob a direcção de Joana Marques Vidal a acção do Ministério Público não se tem deixado condicionar pelo estatuto ou pelo poder dos suspeitos seja manchada por conluios pouco saudáveis (quando não flagrantemente ilegais), pelo resvalar para o populismo e pelas tentações justicialistas. Por ora, a Europa pode suspirar de alívio porque o presidente do Eurogrupo não prevaricou. E Portugal, tirando os guardiães da ética imaculada, pôde comprovar a lisura de procedimentos do seu ministro das Finanças, por causa (ou apesar) da costumada Justiça.

 

Imagem: inimigopublico.pt

publicado por J.J. Faria Santos às 20:09 link do post
28 de Janeiro de 2018

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Para Donald J. Trump, uma sanita em ouro de 18 quilates, mesmo com a assinatura do artista italiano Maurizio Cattelan, não deve passar (literalmente) de um shithole. Conforme a definiu Paul Schwartzman no Washington Post, “a sanita em ouro maciço, completamente funcional, é uma peça interactiva intitulada América que os críticos têm descrito como uma sátira incisiva ao excesso de riqueza neste país”. Durante um ano a peça esteve em exibição nos sanitários públicos do quinto andar do Museu Guggenheim, em Nova Iorque, para uso dos visitantes. 

 

É certo que Donald e Melania tinham solicitado ao museu o empréstimo de um quadro de Van Gogh, Paisagem com Neve (a curadora do museu, Nancy Spector, lamentou não ser possível aceder ao pedido), mas não seria de esperar que o Presidente, com o seu gosto por dourados (da talha dourada à chuva dourada) e decorações barrocas, apreciasse a obra de Catellan? Pensando bem, não seria até grandiloquente que ele disparasse os seus tweets fora de horas com o traseiro ricamente acoplado a uma sanita dourada?

 

Spector explicou ao casal Trump que o quadro estava impedido de viajar excepto em ocasiões raras, e mostrava-se esperançada que a oferta da América fosse apreciada. Não é crível que a sugestão de Spector tenha sido desprovida de ironia ou intencionalidade, tendo em conta que no dia a seguir à eleição presidencial escrevera no Instagram: “Este deve ser o primeiro dia da revolução para recuperar a nossa amada pátria do ódio, do racismo e da intolerância”.

 

O jornalista do Washington Post recorda uma característica pessoal de Trump, o facto de sofrer de misofobia, para sugerir que seria improvável que ele aceitasse uma sanita já previamente utilizada. Mesmo sabendo que, durante o período de tempo em que esteve em exibição, aproximadamente de quinze em quinze minutos uma equipa de limpeza tratava de manter o dourado imaculado. Mas, quem sabe? Talvez Trump contrate uma equipa de infecciologistas e arranje maneira de tornar a América de Maurizio Cattelan novamente grandiosa.

 

Imagem: www.guggenheim.org

publicado por J.J. Faria Santos às 17:49 link do post
23 de Janeiro de 2018

Já sabíamos que não era dado a purismos. Que rigor, integridade artística irrepreensível e talento não implicavam submissão a capelinhas ou regiões demarcadas de sonoridades. Que via na miscigenação dos sons e dos estilos uma garantia de inovação. Já o tínhamos ouvido, por exemplo, cantar a Gaivota acompanhado pela toada de flamenco da guitarra de Joel Xavier, e Palavras Minhas envolta num sumptuoso arranjo com Bernardo Sassetti ao piano e Carlos Martins ao saxofone, com ele em modo cantor de jazz. Agora, com a cumplicidade do produtor cubano Oscar Gomez, reinventou Lisboa, Menina e Moça.

O tema arranca com o piano e uma espécie de spoken word. Depois há a guitarra a sublinhar a portugalidade e arremedos de jazz latino com a proeminência do saxofone. Até que entra um coro de vozes e estamos quase em território de escola de samba. De forma soberba e magistral, o cantor molda-se a esta paisagem sonora com a facilidade com que a genialidade disfarça a complexidade e entretém-se a fazer citações. Nestas alturas, a lisboeta menina e moça acolhe Guantanamera, Sodade e a versão espanhola de Meu Fado Meu.

Como sempre, como dantes, Carlos do Carmo está na linha de frente. É este seu tema que abre o alinhamento de Jazz in Fado, projecto editado pela Universal Music Portugal no final do ano passado e que inclui, entre outros, Hélder Moutinho, António Zambujo, Raquel Tavares, Ana Bacalhau e Carminho, esta última inimitável e arrebatadora no lindíssimo Escrevi Teu Nome no Vento.

 

Pioneiro do drum & bass e do trip-hop, Goldie estabeleceu a sua reputação em meados dos anos 90 do século passado com a edição do álbum Timeless, com a mistura harmoniosa de batidas aceleradas e linhas de baixo com apontamentos orquestrais e voluptuosas vozes soul. O ano passado editou The Journey Man, alvo de críticas mistas, as menos favoráveis a sublinhar a sua tendência para ser excessivamente ambicioso e a notar a sua dificuldade em disciplinar o seu talento. Seja como for, o álbum em questão conta com colaborações de gente como Pat Metheny e José James, apresentando as tais excelentes vozes soul soberbamente amparadas pelo piano ou por arabescos orquestrais, ou comandando a melodia sobre um cama de breakbeats.

This is not a love song, Mountains e Tomorrow’s not today são apenas três amostras da exemplar conjugação da linguagem clássica da música de inspiração soul com os ritmos modernos, sem que tudo se dilua numa amálgama insípida de banda sonora para ginásio com pretensões a hino erótico como a que prevalece nas tabelas de vendas da actualidade. É sempre preferível a ambição desmedida que instala alguma desordem e arrisca o falhanço à mediania que assenta na repetição de fórmulas.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:12 link do post
16 de Janeiro de 2018

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Escolhemos o passado que queremos, mas não quando queremos. Por vezes, ele impõe-se perante nós, parece rasurar cruelmente as boas memórias e esfrega-nos na cara os fracassos, as insuficiências e as más escolhas. É disto que fala Sandro William Junqueira quando escreve em Quando as Girafas Baixam o Pescoço (Editorial Caminho):”Por que é que o passado tem esta perna alta, esta passada larga? Para onde quer que vá apanha-a com o seu braço comprido e toca-lhe no ombro para logo descoser o dique das recordações. E o rio galga as margens e inunda o terreno baldio do seu desespero. A memória é a âncora que nos prende ao Inferno.”

 

O futuro é também o envelhecimento. “Acumulamos cansaço sobre cansaço ao longo do comprido túnel do tempo, como mantos que se sobrepõem nas costas, para as dobrarem”, escreve S. W. Junqueira. Podemos valorizar a experiência, a maturidade, a serenidade (por vezes uma máscara da resignação) com que lidámos com as contrariedades, mas a fadiga está lá. A partir de certa altura, o inventário das perdas está demasiadamente presente e não há vida diariamente reinventada que o possa fazer esquecer. Continuamos a acreditar na luz ao fundo do túnel do tempo, mas interrogámo-nos com maior frequência acerca da sua resistência e durabilidade. Um sopro mais ou menos intenso extinguirá a chama? Teremos engenho para a reavivar?

 

A generalidade das pessoas vive no terror da solidão. Do fracasso de todas as fórmulas de conjugalidade, do abandono, da redução ao estado de pária social. E sobretudo da situação extrema em que a perda de autonomia possa conduzir à mais abjecta miséria humana. Na teoria geral do mundo do senso comum, a solidão parece ser encarada como uma derrota avassaladora no jogo social. Parece nunca ocorrer a ninguém que a aversão à solidão pode também ser sintoma da incapacidade de cada um de nós se confrontar consigo próprio. Com os nossos talentos e as nossas lacunas. É que por mais legítimo (e seguramente reconfortante) que seja a expectativa de podermos contar com a nossa rede de afectos, haverá sempre circunstâncias em que seremos confrontados com a responsabilidade de decidir acerca das mais íntimas das nossas convicções. Nessa altura, retiramo-nos do mundo, da mundanidade. Como num sufrágio, como se estivéssemos numa cabina de voto, decidimos o nosso rumo. A analogia não é assim tão absurda. Fala-se da solidão do poder, por que razão não se poderá falar da solidão de viver?

 

Há quem ponha na mesma equação a solidão e o silêncio. Quem, ao chegar a casa, ligue a televisão ou o rádio para embalar o quotidiano com a companhia dos sons, das vozes. Como se preenchesse espaços em branco, como se esconjurasse a vacuidade. Os modos de vida modernos oferecem-nos doses infinitas de ruído orquestrado de forma a parecer melodia. O som ambiente é de tal modo omnipresente (nos elevadores, nas esplanadas, nos edifícios em geral) que já nos esquecemos do legítimo som do meio ambiente. E quantas vezes tagarelamos na ilusão de estarmos a dialogar? Seria mais sensato meditar na sabedoria clássica de Eurípedes: “Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio”.

 

Imagem: "Alone in her Thoughts" de Ryan S. Brown (courtesy of Bert Christensen)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:40 link do post
09 de Janeiro de 2018

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Ele diz que tem um programa “que é absolutamente extraordinário, feito por uma equipa fantástica”. Não, não estou a falar de Donald Trump e da sua propensão para os auto-elogios hiperbólicos. Pedro Santana Lopes não quer tornar Portugal grandioso, limita-se a querer que “Portugal seja a nova Finlândia”. (Curiosamente, um dos ideólogos da direita, Rui Ramos, defendeu em Novembro passado que o actual Governo é composto por uma “geração derrotada, uma espécie de mortos-vivos da política”, cuja origem remonta ao consulado governamental de Guterres que almejaria, precisamente, “transformar Portugal numa Finlândia”. Deste ponto de vista, lá se vai o “caminho novo” que Santana pretende trilhar. Enfim, pode sempre argumentar que a receita para lá chegar é diferente.)

 

Não lhe faço a injustiça de o comparar a Trump, mas posso sempre fazer notar que ambos apreciam a mobilização dos apoiantes - enquanto o Presidente americano viu na sua tomada de posse uma multidão nunca antes reunida em cerimónias idênticas, Santana Lopes promete “voltar a encher a Alameda” graças ao entusiasmo que o seu projecto vai suscitar. Não se imagina a perder, até porque tem feito um “trabalho imenso” e apresentou um programa que julga “ninguém apresentou”. Desafiado pelo Expresso a encarar um cenário de derrota, responde prontamente: “Só gosto de trabalhar com hipóteses positivas.” (Em Belém, Marcelo suspirou com a perspectiva de lhe sair mais um “optimista irritante”.)

 

Em relação ao Presidente da República, Santana já se pronunciou a favor da sua recandidatura, apoiando o seu mandato “exigente” mas “solidário”, e aproveita a entrevista ao semanário para afirmar que o PR introduziu na política portuguesa uma nova “lógica de funcionamento”, pelo que “as lideranças distantes das pessoas não são já para este tempo”. Rui Rio, o seu adversário na luta pela liderança do PPD/PSD, além de “limitado” e “paroquial”, cometeu o sacrilégio de não ter visitado as localidades atingidas pelos incêndios. Como sabemos, a política do século XXI exige um atestado de afectos, uma certidão de empatia, um elevado quociente de inteligência emocional.

 

Estas considerações foram tecidas apesar da sua relutância em falar de traços de personalidade, porque acha que “isso é uma conversa para revistas sociais”. Já a historiadora Maria de Fátima Bonifácio, não obstante considerar que nenhum dos candidatos lhe “convém”, não hesita em caracterizar Santana Lopes como “doce, charmoso, afectivo, é (quase) impossível não ser cativado por ele. Um homem bom, sem dúvida.” (Público, 6.01.2018)

 

De revistas sociais, quem percebe é Lili Caneças. Que até já desfilou numa arruada empunhando uma bandeira da coligação Portugal à Frente, na companhia de Santana, Marcelo e Passos Coelho. Agora, parece rendida à personalidade de Mário Centeno, “o CR7 das Finanças”. Seguramente que lhe deve ter dito que ele não aparenta ser um “morto-vivo”. Na verdade, é altamente provável que lhe tenha dito qualquer coisa como isto: Não percebo o que esse tal Rui Ramos quis dizer com essa do morto-vivo, darling. Estar vivo é o contrário de estar morto!

publicado por J.J. Faria Santos às 20:15 link do post
02 de Janeiro de 2018

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“Tenho sido muito crítica, sobretudo em relação aos noticiários televisivos e à sua dependência financeira do drama baseado na realidade e que neste momento tem como centro a Casa Branca, que seguem como quem segue um guião, de modo muito próximo e com as mesmas ferramentas de um reality show. Vemos a intriga em directo, quem entra e quem sai. O problema é que estes formatos são lucrativos, porque as pessoas vêem as notícias por cabo da mesma maneira que vêem reality shows. Vêem-nas como entretenimento, causam dependência, criam expectativa como as Donas de Casa Desesperadas…” É nestes termos que em entrevista ao Público Naomi Klein, a propósito do fenómeno Trump, se refere a um contexto pejado de fake news e factos alternativos. Klein tem uma visão bastante cáustica do desempenho jornalístico, chegando ao ponto de afirmar que “se consegue quase ver o sofrimento físico nos rosto dos pivots” quando têm de mudar de assunto para abordar matérias da “política real”.

 

No dia seguinte, num artigo no mesmo jornal onde verberava o “tacticismo que domina a política portuguesa”, Pacheco Pereira aludia “a uma comunicação social muito limitada ao ‘caso’ da semana, explorado ad nauseam”. Crítico impenitente das fórmulas jornalísticas prevalecentes, cada vez mais a reboque da indignação do dia nas redes sociais, o historiador já notava em Setembro passado algo que Marcelo Rebelo de Sousa e Donald Trump tinha em comum, e que era o facto de “ambos terem chegado ao poder através de uma contínua utilização do sistema mediático moderno, com criatividade e intuição, moldando o universo dos media aos seus interesses pessoais e políticos”. Nessa altura, Pacheco Pereira notava “a complacência e a cumplicidade” de muitos jornalistas. Agora, vê em Marcelo “um factor suplementar de instabilidade”, e encontra naquilo a que se convencionou chamar de “afectos” nada mais do que “uma fórmula de aumentar tanto a sua popularidade que ela lhe serve de poder em matérias em que constitucionalmente não se devia meter”.

 

Portanto, será pedir demais uma cobertura menos hagiográfica da agenda presidencial? Uma análise mais incisiva às suas motivações e às suas deliberações? Uma visão menos maniqueísta da realidade política em que Marcelo parece tão etéreo que quase ascendeu ao estatuto de líder espiritual da nação? Algo que vá além da crónica das suas viagens pela nossa terra. Não está em causa uma perspectiva globalmente positiva do seu mandato até ao momento (que subscrevo); trata-se de não veicular uma visão acrítica de cada gesto ou de cada palavra. Constatamos a sua omnipresença, supomos a sua omnisciência, mas permitimo-nos duvidar da sua omnipotência. Nem mesmo um reputado constitucionalista pode fazer prevalecer a magistratura dos afectos sobre a separação de poderes.

 

Imagem: Foto de Joyce N. Boghosian (Wikimedia Commons)

publicado por J.J. Faria Santos às 14:52 link do post
27 de Dezembro de 2017

 

Na véspera do Ano Novo supõe-se que a esperança esteja no seu apogeu. Celebra-se mais uma oportunidade, mais um recomeço, e inúmeros sonhos confluem para agitar o coração à laia de provocação e desafio. É basicamente disto que nos falam quatro versos do tema A Perfect Year (“It's New Year's Eve and hopes are high / Dance one year in, kiss one goodbye / Another chance, another start /So many dreams to tease the heart”). 

 

A canção faz parte do musical Sunset Boulevard, que tem libreto de Don Black e Christopher Hampton e música de Andrew Lloyd Webber, e foi baseado no filme homónimo de 1950 de Billy Wilder. A película de Wilder centra-se na figura de Norma Desmond, uma decadente vedeta do cinema mudo que leva uma existência artificiosa na expectativa de um regresso triunfal. Há um curioso paralelo que é possível estabelecer com a cantora inglesa Dina Carroll – também ela experimentou um sucesso significativo nos anos 90 (recebeu inclusivamente um Brit Award), para acabar enredada em disputas contratuais e problemas de saúde que acabaram por sabotar o reerguer da sua carreira. Os seus dotes vocais e sensibilidade artística estão, porém, bem patentes na sua versão de A Perfect Year.

 

Norma Desmond julgava a sua grandeza intacta, imune ao passar do tempo e ao progresso, esses devoradores de estatutos. Por isso, comparava a sua grandiosidade à pequenez das novas fitas, e proclamava imperturbável que nos anos dourados as vedetas não precisavam de diálogos porque tinham rostos (tão expressivos que dispensavam as palavras, supõe-se). Se pensam que o retrato da decadência entre a esperança patética e o puro delírio de Norma Desmond é um ponto de partida demasiado sombrio para evocar desejos para 2018, pensem duas vezes. Há sempre um módico de inconsciência e delírio na esperança que desperta em nós um qualquer recomeço. O filósofo Luciano Floridi declarou ao Público que “algumas das maiores conquistas da humanidade ocorreram porque sempre tivemos esperança em algo mais e nunca nos contentamos com o que existia”. Já Oscar Wilde postulava: “O homem pode acreditar no impossível, mas não pode acreditar no improvável”.

 

Sejamos pois sujeitos da esperança, embarquemos na ambição do ano perfeito (mesmo que no fundo de nós permaneçam os resquícios do cepticismo) e que à entrada de 2018 cada um de nós proclame, como versões de Norma Desmond de todas as idades e de todos os sexos: “Estou pronto para o meu grande plano”.

publicado por J.J. Faria Santos às 14:32 link do post
19 de Dezembro de 2017

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Numa das suas crónicas do século passado, António Lobo Antunes rememora os Natais passados com o avô oficial de Cavalaria. Quando o avô morreu, “a família dispersou-se e os Natais acabaram”. O escritor associa a quadra a uma infância feliz no seio de uma família alargada. Num curto e impressivo relato, descreve um cenário que inclui “velhinhas que cheiravam a remédios”, “tias poeirentas do Brasil” e a criadagem alinhada para receber os presentes, entregues pela avó “numa pompa de condecorações do 10 de Junho”. Lobo Antunes apresenta um “avô de boquilha [que] presidia à confusão com um sorriso”. E em que poderia consistir a “confusão”? “Bolas que partiam vidros e terrinas”, “automóveis de corda que se alguém punha um pé em cima dava um mortal para trás” e ruidosos “revólveres de fulminantes” que “perturbavam a canasta”. Mas não perturbavam o avô, símbolo máximo de amor, benevolência e protecção.

 

“A crowded room / Friends with tired eyes”, cantam os Wham na omnipresente Last Christmas. Há um momento, há sempre um momento nas noites de Natal, por mais breve que seja, em que a melancolia se revela e mesmo numa sala repleta se instala o olhar cansado. Pode ser o efeito da maratona de iguarias ou da generosa ingestão de bebidas espirituosas. Ou um embevecimento entorpecido pelo calor das chamas da lareira ou do aquecimento central num ambiente de algazarra infantil e não só. Pode ser um simples cansaço físico generosamente acolhido pelo sofá. Ou a nostalgia despertada pelos ausentes. Mas também pode ser um momento em que se antecipa o fim de festa, como se o culminar de uma gloriosa cavalgada de preparação dessa festa e da escolha dos presentes, como se um tremendo investimento emocional, de repente desse origem a uma sensação de insuficiência, de frustração de expectativas. Perdemos demasiado tempo numa encenação fervorosa do júbilo quando ele se revela em todo o seu esplendor nos pequenos gesto de afecto que na maior parte das vezes dispensam até a palavra como laçarote.

 

Nem todos os homens à beira do abismo têm a sorte de serem sustidos pela intervenção de um anjo, como sucede com George Bailey (interpretado por James Stewart) em Do Céu Caiu Uma Estrela. O anjo Clarence mostra-lhe que a vida de um homem toca a vida de muitas pessoas e que o seu desaparecimento deixa um tremendo vazio. Seguramente um vazio maior que aquele que em momentos de desespero assola a consciência de um homem derrotado. Se não tivermos a resistência para afastar os pensamentos negros em momentos de derrocada emocional, ao menos que tenhamos a sorte de ter um anjo terreno para nos dar a mão. O Natal é também, ou é sobretudo, isto.

 

Crónica de Natal in Livro de Crónicas de António Lobo Antunes, Publicações Dom Quixote

Last Christmas composta por George Michael

Do Céu Caiu Uma Estrela (It's a Wonderful life) é um filme de 1946 realizado por Frank Capra

publicado por J.J. Faria Santos às 20:42 link do post
12 de Dezembro de 2017

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Marcelo avisa. Marcelo alerta. Marcelo teme. E que teme Marcelo desta vez? Bom, parece que com o novo cargo de Mário Centeno, o Presidente receia que ele não consiga controlar o eleitoralismo da margem esquerda que apoia o Governo. Ou seja, acha que falta frenesim a Centeno para jogar em dois tabuleiros. Mas nos intervalos de proclamações ao estilo soundbite (“somos os nórdicos do século XXI”), o frenético PR vai-se entretendo a lançar nomes para a futura liderança do PSD (os presentes contendores não o entusiasmam…). Montenegro já não é o eleito. O novo golden boy é Carlos Moedas, porque, diz o Expresso, “encaixa na política mais cosmopolita e dos afectos”.

 

E por falar em Luís Montenegro. Não é que o ex-líder parlamentar afirmou que a eleição de Centeno para presidir ao Eurogrupo se deveu “também ao que Passos Coelho, Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque fizeram no quadriénio 2011-2015”? Citando Miguel Sousa Tavares, que ridicularizou este argumento, “há uma diferença entre perder mal ou perder transformando derrotas em vitórias de anedota”.

 

E por falar em Passos. O ex-primeiro-ministro vai escrever um livro sobre os anos do Governo. Uma coisa “muito factual” (nada de contaminar os relatórios técnicos com uma visão política mais permeável aos afectos. Excel Forever!). Esperemos que não constem na obra os célebres “factos alternativos” ao estilo da famigerada Kellyanne Conway… O que seguramente não teremos é…frenesim. Nem sequer na concepção da obra. O projecto não é para já. Para os mais ansiosos, resta esperar que as ideias para o tomo amadureçam em cascos de carvalho para evoluírem mais rapidamente.

 

O Politico diz que António Costa é a nona figura mais influente da Europa e vê-o como “um político duro atrás de um pronto sorriso de campanha”. Esperemos que esta dureza seja sinónimo de resistência, doutra forma seria difícil ultrapassar a sequência de faux pas que se sucederam à tragédia de Pedrógão Grande. Parece que este exemplar nórdico do século XXI, irritantemente optimista, consegue ser popular também na Europa, e sem grande frenesim. É que para Costa a popularidade de um político talvez seja como as reformas a aplicar num dado país: não existem na variedade “pronto-a-vestir” e devem ser feitas por medida, adequadas ao corpo da nação.

 

Imagem: www.flash.pt

publicado por J.J. Faria Santos às 20:43 link do post
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