NO VAGAR DA PENUMBRA
05 de Dezembro de 2017

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“Quando não quero, salto. O que está do outro lado? Não sei”, fala, como quem explica que a coragem pode ser ao mesmo tempo fruto da revolta e parceira da incerteza. Simone de Oliveira que, entrevistada para a revista do Expresso, diz que as “coisas foram acontecendo porque tinham de acontecer”, apesar de tudo soube dizer não ao destino e redesenhar o mapa da sua vida. Talvez por sempre ter prezado a independência e a liberdade, que lhe permitiram, por outro lado, dizer presente sempre que o amor a quis ou a paixão a incendiou. A mesma liberdade (“sou muito cabra quando quero”) que lhe possibilitou reagir a uma traição amorosa atirando ao prevaricador: “vais para a mesma cama de onde saíste”, permite-lhe agora confessar, desassombradamente, ter sido infiel. Seguramente, não terá sido infiel a ela mesma.

 

Não tem medo de ser franca (talvez tenha de ser fraca). Revela-se uma outsider que não é de frequentar “grupinhos” ou “capelas” nem de participar em jantares. Afirma gerir com dificuldade a solidão mas dispensa a “canseira” de viver acompanhada. E nunca fica deprimida mais de três dias. Dá-se melhor com os homens. Não alinha em solidariedades femininas acéfalas e, como sempre, não tem medo das palavras: “As mulheres são chatas, são burras”, porque reagem mal ao passar do tempo e equilibram deficientemente a sua dupla condição de mulher e mãe. Mas sente-se orgulhosa por ter desbravado caminhos para a mudança de comportamentos. E o futuro? Declara que tem “obrigação de ser uma mulher feliz”. E que não “lhe apetece nada” partir. Dir-se-ia que no poema da vida dela continua a existir “a esperança acesa atrás do muro” e “um verso em branco à espera do futuro”.

 

(“Alguém Que Teve Coração” é o título da versão portuguesa interpretada por Simone do clássico de Burt Bacharach e Hal David “Anyone Who Had A Heart”)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
28 de Novembro de 2017

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O cardeal de Rangum pediu ao Papa que evitasse nos seus contactos oficiais com as entidades birmanesas pronunciar a palavra “rohingya”, sob pena de criar um incidente diplomático. Embora se compreenda que, em certos casos, a veemência bem-intencionada possa ter efeitos contraproducentes, confesso que me irritam os apelos ao recurso à diplomacia titubeante para lidar com a brutalidade mais ignominiosa. A minoria muçulmana da Birmânia está, na definição da Amnistia Internacional “encurralada num sistema perverso de discriminação institucional e sancionado pelo Estado que constitui apartheid”, e aquilo que as Nações Unidas já classificaram como “limpeza étnica” conduziu ao êxodo de mais de 600 000 pessoas, desde Agosto, para o Bangladesh. Massacres, violações e destruição de aldeias e vilas fazem parte do catálogo de atrocidades cometidas pelas autoridades birmanesas que não reconhecem aos membros desta minoria o estatuto de cidadãos.

 

A acompanhar as imagens que reportam a “jornada desesperada” que se conclui com o atravessamento do rio Naf em direcção ao campo de refugiados em Balukhali, o fotógrafo Kevin Frayer descreve na Time o impacto que nele teve a visão de um rapaz que trepou por um camião, estendeu a mão e tocou na perna do homem que distribuía ajuda alimentar, primeiro, e depois abraçou-a, enquanto suplicava e se desfazia em lágrimas. Frayer diz que é difícil comparar a “magnitude da tristeza” do rapaz com qualquer outra situação que ele tenha presenciado. E, embora receando que o seu contributo profissional para a denúncia de uma situação atroz possa não ter sido suficiente, acrescenta que se as fotografias, por mais “fugazes” que sejam, conseguirem despertar a consciência de alguém, impelindo à acção, então terá valido a pena. O desespero de um grupo étnico que representa cerca de 5% da população birmanesa e cujo nome não pode ser pronunciado, ora devido a um patente desprezo, ora devido a um qualquer tacticismo diplomático, encontra assim expressão no rosto de um rapaz em pranto.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:01 link do post
21 de Novembro de 2017

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Não é uma alegoria acerca dos bastidores do poder, suas intrigas e traições. Não é uma distopia futurista prenunciando os perigos da inteligência artificial. Não é uma ficção surrealista a redefinir os cânones do drama televisivo. Não é uma narrativa pós-apocalíptica onde cada acção pode pôr em causa noções de humanidade e civilização. This Is Us é uma comédia dramática familiar, povoada de personagens em luta com os seus fantasmas e à procura de reinvenção. Confrontados com a frustração das suas expectativas, no fundo com a impossibilidade dos seus talentos estarem à altura das suas ambições, poderiam dizer como a Irina da peça Três Irmãs de Tchékhov: “…o tempo passa e eu ando sempre com esta impressão de que nos afastamos da verdadeira vida, da beleza da vida, que cada vez nos afastamos mais, caminhando para um precipício qualquer.”

 

Mas ao contrário das irmãs da peça do autor russo, enclausuradas nas circunstâncias da sua própria existência, os Pearsons e os Taylors de This Is Us, excluídos os momentos compreensíveis de autocomiseração, estão mais próximos das interrogações do tenente-coronel Verchínin na citada peça: “Muita vezes penso: e se começarmos uma vida nova, mas em consciência? O que se viveu até agora é um rascunho, digamos, e a outra é passada a limpo!”

 

Nesta série televisiva ninguém parece prescindir de passar a vida a limpo, mesmo quando acabam por perceber que muitas vezes o que parecia conversa acabada não passava, de facto, de um rascunho. This Is Us não ambiciona a grande operática de Os Sopranos nem a genialidade de Sete Palmos de Terra. O seu território de eleição está próximo de seriados como Irmãos e Irmãs, onde se mostra como no quotidiano doméstico das famílias o banal se aproxima muitas vezes do extraordinário. This Is Us fala-nos dos obstáculos e de como os laços de entreajuda nos podem conduzir à superação. Porque afinal, para citar as derradeiras palavras de Macha na peça de Tchékhov: “É preciso viver…É preciso viver.”

 

(Citações de Três Irmãs extraídas da edição da Relógio d’Água com tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:11 link do post
14 de Novembro de 2017

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A Associação dos Profissionais da Guarda já remeteu um “ofício para o comandante-geral da GNR a expor a situação”. O jornal O Mirante fala de uma questão “complexa que passa pela segurança dos próprios guardas e pelas dificuldades operacionais de vários postos”. Ao Observador (sem relação com o Mirante…), César Nogueira, presidente da citada associação, levanta a magna questão que Portugal não pode ignorar: “Se o ministro que nos tutela não cria condições para os guardas na sua própria residência, será que o vai promover no resto do país onde há situações ainda mais complicadas?”

 

O assunto que deveria ter dominado o ciclo noticioso e ocupado todos os fóruns (não fosse a Web Summit e a crónica falta de cidadania…) sintetiza-se da seguinte forma: os guardas que se ocupam da segurança da casa do ministro da Administração Interna tiveram de ser deslocados para o exterior da habitação porque os cães do governante ladravam furiosamente aos estranhos e não deixavam ninguém descansar. Os militares, que inicialmente não tinham sequer acesso aos sanitários, dispõem agora de “uma pequena casa de banho junto à piscina”, mas continuam sem local para uma “refeição quente”.

 

O jornal Público divulgou o perfil (“de aparência fofa e inofensiva”) e a identidade (“Simão Cão e Kiko Bardinas”) dos meliantes. Um caso exemplar de como as aparências enganam: os “fofos” começaram por ser agentes de poluição sonora e acabaram por ser responsáveis pela degradação das condições do exercício da profissão dos guardas, num inadmissível desrespeito pela autoridade do Estado. Claro que este episódio só aconteceu devido à incompetência e à irresponsabilidade da geringonça (reparem no silêncio cúmplice do deputado do PAN!), sendo de estranhar a apatia da oposição (porque não fala Assunção Cristas?). Felizmente que, dada a sua função da válvula de escape do regime e a sua agudíssima sensibilidade política, o senhor Presidente da República estará fortemente inclinado a exercer a sua magistratura dos afectos com avisos a tiracolo (não passa uma semana sem que os jornais informem que o PR fez um aviso ou transmitiu um recado…ao Governo, geralmente).

 

Inicialmente, Marcelo terá ponderado uma comunicação ao país. As funções de soberania do Estado são-lhe particularmente caras. Cães, que não são de guarda, a fazer gato-sapato de militares que cuidam da segurança de ministros e que, por causa da habitação se localizar numa “zona isolada” parecem eles próprios precisar de segurança, quiçá, de cães de guarda? Confuso? Não desesperem. Provavelmente, Marcelo já vai a caminho de Casal da Charneca, Santarém. Leva resmas de afecto e também uma cozinha de campanha. Mas esta última só será necessária se falhar o grande trunfo que ele detém: leva consigo o ilustre Asa, o pastor alemão que lhe foi oferecido pela Força Aérea, que vai servir de mediador e, se for preciso, intimidar, perdão, chamar à razão canina, o Simão e o Kiko.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:09 link do post
07 de Novembro de 2017

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Leio no site da Newsweek que uma fotografia de um “aparente encontro sexual” entre dois leões do sexo masculino causou um grande escândalo no Quénia. A peça escrita por Conor Gaffey esclarece que comportamentos deste género ocorrem em centenas de diferentes espécies animais, embora tal aconteça geralmente como complemento de uma actividade sexual heterossexual e não como um acto exclusivo. Daí, escreve o jornalista, os “cientistas serem relutantes em utilizar termos antropomórficos – como gay e lésbico – para classificar os animais que se envolvem com parceiros do mesmo sexo”. O caso atraiu a atenção de Ezekiel Mutua, responsável pela entidade que regula o mercado audiovisual e visto como um zelador da moral e dos bons costumes, que entendeu afirmar: “Estes animais precisam de aconselhamento, porque provavelmente foram influenciados por gays que visitaram os parques nacionais e se comportaram inadequadamente”. Esta é uma extraordinária proclamação. Por onde começar? Demos de barato que reunidos certos pressupostos os animais imitam o comportamento dos humanos. De que forma é que os leões foram “influenciados”? Os gays que visitam os parques nacionais do Quénia vão acasalar para a savana porque gostam de o fazer sendo observados por leões? Ou a influência limita-se a gestos de afecto mais discretos que os leões depois extrapolam até à consumação do coito? E, mais interessante, irá o Sr. Mutua pessoalmente ministrar o aconselhamento?

 

Interrogo-me que tipo de influência exerceria Trump sobre os leões se porventura visitasse os parques naturais do Quénia acompanhado pela discreta e contida Melania. Arrisco a afirmação de que Ezekiel Mutua a encararia como positiva, desde que o Presidente americano não se oferecesse para o aconselhamento, já que a perspectiva da promoção de actos como agarrar a genitália não devem preencher os requisitos de decência do moralista queniano. Aliás, não deixa de ser simbólico que numa altura em que o assédio sexual está na ordem do dia na América, resida na Casa Branca um confesso perpetrador.

Trump pode parecer um leão no Twitter, mas na verdade é um rato. James Wolcott explica-o na Vanity Fair de Novembro num artigo ilustrado soberbamente por Darrow. Neste momento, escreve Wolcott, “seria prematuro descartar a presidência Trump como uma espécie de roedor morto esparramado no linóleo. Na sua detestável resistência, ele está mais próximo de um rato encurralado”. Consequentemente, é de esperar que ele continue a espernear e que não se renda com facilidade. Mas quando ele abandonar a Casa Branca, prossegue Wolcott, “por reforma antecipada, para a prisão, para um sanatório ou para asilo na Rússia”, nessa altura começará o juízo final sobre o seu mandato. O que não pode esperar é a reflexão acerca do grande “desafio pós-Trump”: tornar a América um “país à prova de tiranos”. Inoculada com o trumpismo, a nação americana deveria ficar imune. Será que ainda vai aceder a uma dose de reforço? Dois mandatos seria, isto sim, uma dose de leão.

 

(Imagem: Pormenor da ilustração de Darrow para a Vanity Fair)

publicado por J.J. Faria Santos às 20:07 link do post
31 de Outubro de 2017

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“Tenho uma lista de pessoas a quem vou limpar o sebo, em primeiro lugar a ti. És uma mulher morta”, escrevera-lhe o ex-marido traído, “vexado e humilhado”. Por isso, quando o ex-amante abandonado da “mulher adúltera” lhe ligou e o chamou para o recontro final, (enfurecido por aquela se recusar a reatar a relação - digamos que a circunstância de a sequestrar num automóvel e de a manter coagida, não era por si só auspicioso para uma reconciliação), logo tratou de seleccionar do seu variado arsenal bélico (que incluía uma espingarda, um revólver, uma pistola ou um bastão extensível metálico) uma lustrosa moca com pioneses metálicos. O “desonrado” marido chegou ao ponto de encontro berrando: “minha puta, eu mato-te, minha puta, eu mato-te”.

 

Estavam reunidas as condições para que esta espécie de irmandade dos homens vexados, este insólito bromance em nome da vingança e do despeito, descambasse num espectáculo de violência. Enquanto o ex-amante a agarrava (o homem que há escassos minutos pretendia reatar uma relação expunha o objecto do seu afecto à fúria da vítima do adultério que ele ajudara a consumar), o ex-marido acertou-lhe vigorosamente com a moca no lado esquerdo da cabeça e em várias zonas do corpo. O corpo do delito. Tal deve ter sido a fúria do ex-marido traído que o fervilhar do ódio o desequilibrou e fez cair, possibilitando a fuga da mulher “falsa, hipócrita, desonesta, desleal, fútil, imoral” (na falta de mais e melhores adjectivos…). Talvez não seja completamente inusitada esta coligação de homens abandonados, esta solidariedade masculina na hora do infortúnio em que os inimigos de ontem são os vingadores de hoje, da mesma forma que se compreende que as “mulheres honestas” são “as primeiras a estigmatizar as adúlteras”.  As pessoas de irrepreensíveis princípios morais às vezes não podem olhar a meios para atingir os meritórios fins.

 

Felizmente para o homem traído, como o “adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e à dignidade da mulher”, só resta ao “douto” juiz exercitar a sua compreensão face ao “desonrado” e atenuar a pena. Felizmente para o amante abandonado, também ele usufrui por osmose da abundância de compreensão. A galdéria traiu o marido mas não se saciou muito tempo com o amante. Felizmente para a “mulher adúltera” não vive numa “sociedade” em que a pena para as facadas no matrimónio é a lapidação.

A palavra lapidar além de designar a acção de matar à pedrada, pode assumir o sentido de polir ou talhar, e em sentido figurativo pode ser empregada na acepção de educar ou aperfeiçoar. Daí o adjectivo lapidar ser utilizado para qualificar algo perfeito ou conciso. Não é o que se pode afirmar do acórdão do juiz Joaquim Neto de Moura. Só podemos lamentar esta justiça dos homens com h pequeno? Ou podemos tentar abalar o corporativismo com a força da nossa indignação?

 

Diz-se de um juiz que é irresponsável e inimputável pelas decisões que toma em juízo. Eis uma frase que parece uma nascente de múltiplas leituras, susceptível de ironias e cansaços. Eis uma frase que pode aterrorizar. No entretanto, quase consigo imaginar o “douto” juiz a acompanhar com um sorriso discreto uma recriação de um tema popular da música portuguesa: “Mulher adúltera, / Ai a mim não me convém. / Eu não quero andar na rua / com os cornos de ninguém. / Ai, ai, ai, ai / Mas eu gosto dessa mulher, / Quero tê-la ao pé de mim, / Beijá-la quando quiser.”

 

(Imagem: "Cristo e a Mulher Adúltera" de Lucas Cranach, O Velho - Wikimedia Commons)

publicado por J.J. Faria Santos às 19:53 link do post
24 de Outubro de 2017

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O discurso do Presidente da República na passada terça-feira foi celebrado por todos os observadores, e justamente, como adequado no tom, no estilo e no conteúdo. Compassivo com as vítimas, brutal com os responsáveis políticos. Marcelo assinalou, e muito bem, que fazer reformas “a pensar no médio ou longo prazo não significa convivermos com estas tragédias”. Seria pois lícito deduzir que a forte censura ao Governo implícita no seu discurso se deveria a uma qualquer inércia governamental nesta área. Sucede, porém, que um artigo de Ângela Silva no Expresso trata de nos esclarecer que o Presidente discordava fortemente do primeiro-ministro em duas questões: a demissão da ministra da Administração Interna e a rapidez no pagamento de indemnizações às vítimas. A

tragédia do dia 15 terá servido de pretexto, “de gota de água para o murro na mesa”. Ter-se-á tratado, então, de uma manobra de reforço de poder com uma goleada no campeonato do afecto e da sensibilidade. Nada de ilegítimo, nem que permita duvidar da sinceridade da sua empatia e compassividade. Mas talvez seja demasiado precoce augurar que a profusão de imagens iconográficas, a sua vocação para Presidente-Pietà, o possa projectar para a estratosfera do desempenho do cargo presidencial.

 

“Todos sentimos a sua angústia, a sua aflição, o sentimento de desamparo com que viveram as últimas horas”, declarou António Costa, referindo-se às vítimas dos incêndios e às populações em geral. Todos? Bom, correligionários e adversários uniram-se na classificação de um discurso baço, burocrático e a roçar a insensibilidade. Descontada a surpreendente inabilidade política do primeiro-ministro, talvez seja um diagnóstico manifestamente exagerado. Se pensarmos que a sensibilidade à flor da pele de Constança Urbano de Sousa era frequentemente interpretada como fragilidade psicológica, insegurança e incapacidade de comando, é aconselhável uma perspectiva menos severa de quem tem de dosear a capacidade de liderança com o peso na consciência do falhanço das funções básicas do Estado, da desprotecção civil generalizada. É que quando o termo de comparação é o Presidente dos afectos, todos os outros protagonistas se afundam na frieza. E toda a frieza será castigada.

 

A propósito, o Expresso recorda que o comentador Marcelo Rebelo de Sousa, numa acção de campanha do PSD, na Maia, em Maio de 2015, traçou um breve mas incisivo retrato psicológico do actual primeiro-ministro: “António Costa parece que é, mas não é um homem de afectos. O António Costa engana, é um racional, um frio, ele não é empático.”

Na mesma edição, o jornal entrevista Carlos Blanco de Morais, professor catedrático que foi aluno e assistente do actual Presidente da República e que o conhece há décadas. Curiosamente, este também alinha algumas considerações acerca do temperamento do Presidente. E que diz ele? Que a psicologia de Marcelo é “muito fluida e por vezes volúvel”. E acrescenta: “Se há alguém que faz cálculos políticos e não actua emotivamente é o PR. A gestão de afectos faz parte da sua estratégia presidencial, mas a idiossincrasia do Presidente é fria e de jogador.”

 

Regressou o tremendismo à análise política. É como se o Diabo político tivesse mesmo chegado com as chamas de um inferno bem terreno. Que se quebrou o vínculo entre o Governo e os governados, que a cooperação institucional entre Marcelo e Costa jamais será a mesma. Como se o Presidente rejubilasse com um Governo assente num compromisso de centro-esquerda. Marcelo, apesar de uma (até agora) irrepreensível postura institucional, provém de um espectro político oposto. Os seus afectos habitam noutras paragens. As suas motivações não se limitam ao sempre flexível conceito de interesse nacional.

Quanto à forma como os portugueses avaliam o Governo, é cedo para avaliar a extensão dos danos. Que vai depender da capacidade de reacção e do retomar da iniciativa política. A conjuntura política é como o amor no poema de Sá de Miranda que inspirou o título deste post: “Não espera razões, tudo é despeito, / tudo soberba e força; faz, desfaz, / sem respeito nenhum; e quando em paz / cuidais que sois, então tudo é desfeito.” Na política como no amor, o que é desfeito pode ser refeito.

publicado por J.J. Faria Santos às 21:03 link do post
17 de Outubro de 2017

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“Quanto mais precários são os empregos, menos produtiva é a economia”, declara Marianne Thyssen, comissária europeia para o Emprego e Assuntos Sociais. “Todas essa formas de trabalho inseguras são extremamente caras – tanto para os afectados como para a sociedade como um todo”, considera o ex-economista-chefe do FMI Olivier Blanchard, que prossegue: “Havia essa visão de que com sindicatos mais fracos e mais flexibilidade salarial a saída da crise seria mais rápida e isso foi exposto como um credo religioso.” Blanchard acrescenta ainda que “essa era uma maneira de os ministros das Finanças e os bancos centrais atirarem o fardo para os outros”.

Estas afirmações constam de um excelente artigo editado no Público de 9 de Outubro, assinado por Paulo Pena e Harald Schumman, e elaborado no âmbito do projecto Investigative Europe. Nele se explica que instituições como o BCE, o FMI e a Comissão Europeia que defendiam as famigeradas reformas estruturais da legislação laboral “estão agora preocupadas com o efeito da precarização”, e citam relatórios do próprio FMI e da OCDE que não encontram “efeitos estatisticamente significativos sobre a produtividade” da regulamentação do mercado de trabalho, no primeiro caso, ou que vislumbram “um impacto positivo limitado” ou mesmo nulo da desregulação, no segundo caso.

Como sabemos, Passos Coelho atribuía grandes méritos às autoproclamadas “reformas estruturais” que teria promovido, entre elas a da legislação laboral. O seu alcance e relevo permitiam que o ex-primeiro-ministro lhe atribuísse uma quota-parte significativa no crescimento actual do PIB. Opinião não partilhada por Bagão Félix, que ouvido pelos autores do artigo afirma taxativamente que “a relação entre a desregulação dos mercados de trabalho e o crescimento económico é um erro”.

 

Um dos outros dogmas económicos frequentemente invocados ao serviço de convicções ideológicas insensíveis a desmentidos empíricos (mesmo quando se apregoa a evidência da realidade) é o efeito no emprego dos aumentos no salário mínimo. De facto, para um mesmo universo de estudo podem existir conclusões contraditórias. Numa das versões pode concluir-se pelo aumento líquido do emprego jovem, noutra pode enfatizar-se a destruição de emprego, nomeadamente de trabalhadores menos qualificados. Mesmo especialistas na matéria como o actual ministro das Finanças, que desaconselham aumentos desligados da produtividade, reconhecem que o efeito do aumento do salário mínimo sobre o emprego é pequeno. Claramente negligenciável quando no outro prato da balança se põem a redução da desigualdade e a diminuição da pobreza.

 

A ideia de que um corte nos impostos não só tem um impacto significativo no crescimento como também se paga a si mesmo é o último delírio de Trump, apoiado pelo economista Arthur Laffer e a sua famosa curva. A verdade é que a redução de impostos não é o factor preponderante para o incremento do PIB, para o qual contribuem diversos factores, sendo que “as taxas de juros são historicamente o mais significativo”, conforme escreveu Kurt Eichenwald num artigo para a Newsweek.

Eichenwald recorda que a história da curva de Laffer remonta a Dezembro de 1974 num restaurante em Washington. À mesa estavam quatro apoiantes do Partido Republicano: além do economista, o editor do Wall Street Journal Jude Wanniski, Donald Rumsfeld e Dick Cheney. Socorrendo-se de um guardanapo de papel, Laffer explicou que uma taxa de 0% não se traduziria em qualquer receita fiscal, mas que uma taxa de 100% também não porque ninguém teria incentivo para trabalhar. Por conseguinte, algures ao longo da curva existiria o valor adequado da taxa a cobrar que permitiria maximizar a receita. O grande problema, destaca Eichenwald, é que mesmo que a “teoria seja correcta – e a experiência demonstra que não”, a curva de Laffer, além de não determinar esse número, demonstra à saciedade que existe um ponto em que os défices explodem, tornando “irresponsáveis” os cortes fiscais.

O jornalista cita estudos de economistas independentes que colocam a taxa ideal do ponto de vista da arrecadação de receita nos 68%, 70% e 35%, claramente acima das taxas de tributação da generalidade dos países ocidentais (um relatório da OCDE divulgado no mês passado, indicava que o imposto sobre os lucros das empresas que em 2000 era, em média, de 32,2% baixara para 24,7% em 2016). Eichenwald, que considera que “os pressupostos da curva de Laffer não existem no mundo real”, conclui afirmando que só existem duas razões para os cortes nos impostos: a primeira é a circunstância da taxa ser tão elevada que inequivocamente condiciona negativamente o crescimento económico; a segunda é mais prosaica: os ricos querem-nos.

publicado por J.J. Faria Santos às 19:39 link do post
10 de Outubro de 2017

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Foi de madrugada, porque o late night é tão apropriado à análise política na intimidade dos protagonistas, que Maria João Avillez procurou “apurar a devastação” do Pedro. Concentrou-se no seu “olhar esverdeado”, no “sorriso cortez”, na “vontade férrea”. O líder que sobrevivera a “massacres vários” e a “coelhos enforcados nalguns sítios por onde passava”, que salvara o país de “catástrofes várias”, decidira partir. É assim que, no Observador, ela descreve o seu tête-à-tête com Passos Coelho, algures entre a imaginação prodigiosa de um Frederick Forsyth e a riqueza estilística de uma Danielle Steel. Para o caso de suspeitarmos de algum ressabiamento, trata de nos explicar que não é uma “passista com ranço”(?). O seu depoimento arrebatado, ainda que mortificado, é o resultado de ter “sido testemunha (sentada na primeira fila de tudo) da passada política de Passos”. Trata-se, portanto, da visão privilegiada de quem tem acesso aos corredores do poder, de quem ao fazer o primeiro esboço da História já tem a clarividência e o distanciamento suficientes para enunciar a priori os seus  grandes protagonistas, de quem despojada de paixões isola os factos claros, límpidos e indiscutíveis. Mesmo quando assina artigos de opinião.

 

Avillez apontou António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa como “dois dos grandes obreiros (há outros) da teia onde desde há seis anos se tenta asfixiar politicamente o agora ex-líder do PSD e o próprio PSD”. Denunciou a “alegria” de Marcelo com o destino de Passos, mas advertiu que o PR detesta e teme Rio. Dois portugueses que ele não ama, conclui-se. Rangel desistiu, “por razões familiares” ou assustado com a previsível dureza da campanha. Montenegro optou por abraçar a missão preferida dos líderes e barões do PSD – o comentário político na televisão. Enquanto enxameiam canais de sinal aberto e por cabo, esmeram-se nas denúncias de uma alegada hegemonia da comunicação social esquerdista e na proclamação gongórica de asfixias democráticas. Resta Santana para reanimar a luta no PPD/PSD e enfrentar Rio com toda a bravura de menino-guerreiro. E quanto ao ex-autarca nortenho, que sabemos nós? Pedro Santos Guerreiro diz que ele “é um homem perigoso para quem o critica” e que “terá de mostrar se tem visão tamanha ou tacanha”. Quanto a mim, sei de um Rio que convive mal com o escrutínio dos média, que parece bater aos pontos Passos na obstinação e que ostenta uma “visão” (sejamos generosos…) demasiado tecnocrática da actividade política (recordo a tristemente célebre máxima “quando ouço falar de cultura puxo logo da calculadora”).

 

Curiosamente, uma outra colunista do Observador, Maria de Fátima Bonifácio, depositava em tempos grande confiança em Rui Rio, mais exactamente num pacto de bloco central firmado entre ele e António Costa. Numa entrevista ao Jornal de Negócios em 2013 declarou: “Não tenho nenhuma dúvida de que um pacto entre Rio e Costa seria muitíssimo melhor para o país do que um pacto entre Seguro e Passos.” Claro que nessa altura não definia Costa como alguém que “não respeita ou honra a sua própria assinatura”, como hoje o qualifica. Mas, por outro lado, também Passos, alguém que diz hoje prezar e admirar, era objecto de uma análise pouco lisonjeira: “O Passos é muito impreparado, viu-se pela quantidade de erros calamitosos que já fez, pela maneira como gere o país e pela atitude.” Mudou de opinião, o que é certamente legítimo, mas não terá sido por causa do “olhar esverdeado”. Deve ter-lhe agradado o zelo governamental  na aplicação da cartilha ideológica. Palpita-me que terá mudado de opinião em relação a Rio. Deve tender a vê-lo agora como alguém que, para a citar, “atrapalha, impede ou sabota as reformas que pudessem talvez abreviar a chegada de Portugal à História”. Todos sabemos que certa direita se acha no lado certo da História. Só me surpreende a modéstia do talvez.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:25 link do post
03 de Outubro de 2017

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Há um bar em Nova Iorque, leio na edição digital da New Yorker (numa peça com direito a ilustração de Jorge Colombo), que tomou o nome de Oscar Wilde, e cujo website apresenta como mote : “a public place for private affairs”, qualquer coisa como “um lugar público para assuntos privados”, embora a palavra affairs permita várias interpretações. Os clientes são recebidos à entrada por uma estátua representando o escritor sentado e no seu interior, cuja decoração terá orçado os 4 milhões de dólares, pululam citações do autor em objectos de mármore.

 

Um bar pode ser, entre outras coisas, um lugar de prazeres e vícios. Parece apropriado que exista um bar com o nome do escritor irlandês. Afinal, trata-se do homem que escreveu que “um homem culto nunca lamenta um prazer”, que “o vício é uma afirmação do intelecto”, que “um dos grandes prazeres encontrados na má conduta é o de haver tantas coisas para dizer aos bem comportados”, e ainda que “a perversidade é um mito inventado pelas pessoas de bem para explicarem o estranho atractivo dos outros”.

 

 

Fernando Pessoa frequentava um estabelecimento de bebidas incomensuravelmente menos glamoroso, denominado Abel Pereira da Fonseca, onde se deixou retratar em 1929, escrevendo na dedicatória da fotografia que enviou a Ofélia “Fernando Pessoa em flagrante delitro”. Pessoa, cujas crises hepáticas ou pancreáticas se tornaram mais frequentes no final da vida motivadas pelo consumo excessivo de álcool, escreveria em 19 de Novembro de 1935 um último poema em português que terminava com um lapidar “Dá-me mais vinho, porque a vida é nada”.

 

O poeta português foi recentemente objecto de um artigo de Adam Kirsch na mesma New Yorker, Fernando Pessoa’s Disappearing Act, onde o Livro do Desassossego era qualificado como “a misteriosa obra de arte do grande modernista de Portugal”. Kirsch, que sublinha o significado em português da palavra pessoa, vê-o, na prosa como na poesia, como um “escritor em fuga do seu próprio nome”, e considera o uso dos heterónimos como um dos elementos que o inscrevem no movimento modernista, acabando por englobá-lo numa geração de poetas que “acreditava no que Oscar Wilde apelidou de ‘verdade das máscaras’”.

 

O próprio Pessoa, enquanto Bernardo Soares, escreve no Livro do Desassossego que “ a maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia. A maioria da gente é outra gente, disse Oscar Wilde, e disse bem.” Na mesma obra, explica que “todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.” Mas a sua grande dependência não passava pelas libações do Abel Pereira da Fonseca. “Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo em que vivo”. Porque “há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma (…)”

publicado por J.J. Faria Santos às 20:13 link do post
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