NO VAGAR DA PENUMBRA
17 de Outubro de 2017

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“Quanto mais precários são os empregos, menos produtiva é a economia”, declara Marianne Thyssen, comissária europeia para o Emprego e Assuntos Sociais. “Todas essa formas de trabalho inseguras são extremamente caras – tanto para os afectados como para a sociedade como um todo”, considera o ex-economista-chefe do FMI Olivier Blanchard, que prossegue: “Havia essa visão de que com sindicatos mais fracos e mais flexibilidade salarial a saída da crise seria mais rápida e isso foi exposto como um credo religioso.” Blanchard acrescenta ainda que “essa era uma maneira de os ministros das Finanças e os bancos centrais atirarem o fardo para os outros”.

Estas afirmações constam de um excelente artigo editado no Público de 9 de Outubro, assinado por Paulo Pena e Harald Schumman, e elaborado no âmbito do projecto Investigative Europe. Nele se explica que instituições como o BCE, o FMI e a Comissão Europeia que defendiam as famigeradas reformas estruturais da legislação laboral “estão agora preocupadas com o efeito da precarização”, e citam relatórios do próprio FMI e da OCDE que não encontram “efeitos estatisticamente significativos sobre a produtividade” da regulamentação do mercado de trabalho, no primeiro caso, ou que vislumbram “um impacto positivo limitado” ou mesmo nulo da desregulação, no segundo caso.

Como sabemos, Passos Coelho atribuía grandes méritos às autoproclamadas “reformas estruturais” que teria promovido, entre elas a da legislação laboral. O seu alcance e relevo permitiam que o ex-primeiro-ministro lhe atribuísse uma quota-parte significativa no crescimento actual do PIB. Opinião não partilhada por Bagão Félix, que ouvido pelos autores do artigo afirma taxativamente que “a relação entre a desregulação dos mercados de trabalho e o crescimento económico é um erro”.

 

Um dos outros dogmas económicos frequentemente invocados ao serviço de convicções ideológicas insensíveis a desmentidos empíricos (mesmo quando se apregoa a evidência da realidade) é o efeito no emprego dos aumentos no salário mínimo. De facto, para um mesmo universo de estudo podem existir conclusões contraditórias. Numa das versões pode concluir-se pelo aumento líquido do emprego jovem, noutra pode enfatizar-se a destruição de emprego, nomeadamente de trabalhadores menos qualificados. Mesmo especialistas na matéria como o actual ministro das Finanças, que desaconselham aumentos desligados da produtividade, reconhecem que o efeito do aumento do salário mínimo sobre o emprego é pequeno. Claramente negligenciável quando no outro prato da balança se põem a redução da desigualdade e a diminuição da pobreza.

 

A ideia de que um corte nos impostos não só tem um impacto significativo no crescimento como também se paga a si mesmo é o último delírio de Trump, apoiado pelo economista Arthur Laffer e a sua famosa curva. A verdade é que a redução de impostos não é o factor preponderante para o incremento do PIB, para o qual contribuem diversos factores, sendo que “as taxas de juros são historicamente o mais significativo”, conforme escreveu Kurt Eichenwald num artigo para a Newsweek.

Eichenwald recorda que a história da curva de Laffer remonta a Dezembro de 1974 num restaurante em Washington. À mesa estavam quatro apoiantes do Partido Republicano: além do economista, o editor do Wall Street Journal Jude Wanniski, Donald Rumsfeld e Dick Cheney. Socorrendo-se de um guardanapo de papel, Laffer explicou que uma taxa de 0% não se traduziria em qualquer receita fiscal, mas que uma taxa de 100% também não porque ninguém teria incentivo para trabalhar. Por conseguinte, algures ao longo da curva existiria o valor adequado da taxa a cobrar que permitiria maximizar a receita. O grande problema, destaca Eichenwald, é que mesmo que a “teoria seja correcta – e a experiência demonstra que não”, a curva de Laffer, além de não determinar esse número, demonstra à saciedade que existe um ponto em que os défices explodem, tornando “irresponsáveis” os cortes fiscais.

O jornalista cita estudos de economistas independentes que colocam a taxa ideal do ponto de vista da arrecadação de receita nos 68%, 70% e 35%, claramente acima das taxas de tributação da generalidade dos países ocidentais (um relatório da OCDE divulgado no mês passado, indicava que o imposto sobre os lucros das empresas que em 2000 era, em média, de 32,2% baixara para 24,7% em 2016). Eichenwald, que considera que “os pressupostos da curva de Laffer não existem no mundo real”, conclui afirmando que só existem duas razões para os cortes nos impostos: a primeira é a circunstância da taxa ser tão elevada que inequivocamente condiciona negativamente o crescimento económico; a segunda é mais prosaica: os ricos querem-nos.

publicado por J.J. Faria Santos às 19:39 link do post
10 de Outubro de 2017

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Foi de madrugada, porque o late night é tão apropriado à análise política na intimidade dos protagonistas, que Maria João Avillez procurou “apurar a devastação” do Pedro. Concentrou-se no seu “olhar esverdeado”, no “sorriso cortez”, na “vontade férrea”. O líder que sobrevivera a “massacres vários” e a “coelhos enforcados nalguns sítios por onde passava”, que salvara o país de “catástrofes várias”, decidira partir. É assim que, no Observador, ela descreve o seu tête-à-tête com Passos Coelho, algures entre a imaginação prodigiosa de um Frederick Forsyth e a riqueza estilística de uma Danielle Steel. Para o caso de suspeitarmos de algum ressabiamento, trata de nos explicar que não é uma “passista com ranço”(?). O seu depoimento arrebatado, ainda que mortificado, é o resultado de ter “sido testemunha (sentada na primeira fila de tudo) da passada política de Passos”. Trata-se, portanto, da visão privilegiada de quem tem acesso aos corredores do poder, de quem ao fazer o primeiro esboço da História já tem a clarividência e o distanciamento suficientes para enunciar a priori os seus  grandes protagonistas, de quem despojada de paixões isola os factos claros, límpidos e indiscutíveis. Mesmo quando assina artigos de opinião.

 

Avillez apontou António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa como “dois dos grandes obreiros (há outros) da teia onde desde há seis anos se tenta asfixiar politicamente o agora ex-líder do PSD e o próprio PSD”. Denunciou a “alegria” de Marcelo com o destino de Passos, mas advertiu que o PR detesta e teme Rio. Dois portugueses que ele não ama, conclui-se. Rangel desistiu, “por razões familiares” ou assustado com a previsível dureza da campanha. Montenegro optou por abraçar a missão preferida dos líderes e barões do PSD – o comentário político na televisão. Enquanto enxameiam canais de sinal aberto e por cabo, esmeram-se nas denúncias de uma alegada hegemonia da comunicação social esquerdista e na proclamação gongórica de asfixias democráticas. Resta Santana para reanimar a luta no PPD/PSD e enfrentar Rio com toda a bravura de menino-guerreiro. E quanto ao ex-autarca nortenho, que sabemos nós? Pedro Santos Guerreiro diz que ele “é um homem perigoso para quem o critica” e que “terá de mostrar se tem visão tamanha ou tacanha”. Quanto a mim, sei de um Rio que convive mal com o escrutínio dos média, que parece bater aos pontos Passos na obstinação e que ostenta uma “visão” (sejamos generosos…) demasiado tecnocrática da actividade política (recordo a tristemente célebre máxima “quando ouço falar de cultura puxo logo da calculadora”).

 

Curiosamente, uma outra colunista do Observador, Maria de Fátima Bonifácio, depositava em tempos grande confiança em Rui Rio, mais exactamente num pacto de bloco central firmado entre ele e António Costa. Numa entrevista ao Jornal de Negócios em 2013 declarou: “Não tenho nenhuma dúvida de que um pacto entre Rio e Costa seria muitíssimo melhor para o país do que um pacto entre Seguro e Passos.” Claro que nessa altura não definia Costa como alguém que “não respeita ou honra a sua própria assinatura”, como hoje o qualifica. Mas, por outro lado, também Passos, alguém que diz hoje prezar e admirar, era objecto de uma análise pouco lisonjeira: “O Passos é muito impreparado, viu-se pela quantidade de erros calamitosos que já fez, pela maneira como gere o país e pela atitude.” Mudou de opinião, o que é certamente legítimo, mas não terá sido por causa do “olhar esverdeado”. Deve ter-lhe agradado o zelo governamental  na aplicação da cartilha ideológica. Palpita-me que terá mudado de opinião em relação a Rio. Deve tender a vê-lo agora como alguém que, para a citar, “atrapalha, impede ou sabota as reformas que pudessem talvez abreviar a chegada de Portugal à História”. Todos sabemos que certa direita se acha no lado certo da História. Só me surpreende a modéstia do talvez.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:25 link do post
03 de Outubro de 2017

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Há um bar em Nova Iorque, leio na edição digital da New Yorker (numa peça com direito a ilustração de Jorge Colombo), que tomou o nome de Oscar Wilde, e cujo website apresenta como mote : “a public place for private affairs”, qualquer coisa como “um lugar público para assuntos privados”, embora a palavra affairs permita várias interpretações. Os clientes são recebidos à entrada por uma estátua representando o escritor sentado e no seu interior, cuja decoração terá orçado os 4 milhões de dólares, pululam citações do autor em objectos de mármore.

 

Um bar pode ser, entre outras coisas, um lugar de prazeres e vícios. Parece apropriado que exista um bar com o nome do escritor irlandês. Afinal, trata-se do homem que escreveu que “um homem culto nunca lamenta um prazer”, que “o vício é uma afirmação do intelecto”, que “um dos grandes prazeres encontrados na má conduta é o de haver tantas coisas para dizer aos bem comportados”, e ainda que “a perversidade é um mito inventado pelas pessoas de bem para explicarem o estranho atractivo dos outros”.

 

 

Fernando Pessoa frequentava um estabelecimento de bebidas incomensuravelmente menos glamoroso, denominado Abel Pereira da Fonseca, onde se deixou retratar em 1929, escrevendo na dedicatória da fotografia que enviou a Ofélia “Fernando Pessoa em flagrante delitro”. Pessoa, cujas crises hepáticas ou pancreáticas se tornaram mais frequentes no final da vida motivadas pelo consumo excessivo de álcool, escreveria em 19 de Novembro de 1935 um último poema em português que terminava com um lapidar “Dá-me mais vinho, porque a vida é nada”.

 

O poeta português foi recentemente objecto de um artigo de Adam Kirsch na mesma New Yorker, Fernando Pessoa’s Disappearing Act, onde o Livro do Desassossego era qualificado como “a misteriosa obra de arte do grande modernista de Portugal”. Kirsch, que sublinha o significado em português da palavra pessoa, vê-o, na prosa como na poesia, como um “escritor em fuga do seu próprio nome”, e considera o uso dos heterónimos como um dos elementos que o inscrevem no movimento modernista, acabando por englobá-lo numa geração de poetas que “acreditava no que Oscar Wilde apelidou de ‘verdade das máscaras’”.

 

O próprio Pessoa, enquanto Bernardo Soares, escreve no Livro do Desassossego que “ a maioria dos homens vive com espontaneidade uma vida fictícia e alheia. A maioria da gente é outra gente, disse Oscar Wilde, e disse bem.” Na mesma obra, explica que “todo o prazer é um vício, porque buscar o prazer é o que todos fazem na vida, e o único vício negro é fazer o que toda a gente faz.” Mas a sua grande dependência não passava pelas libações do Abel Pereira da Fonseca. “Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo em que vivo”. Porque “há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma (…)”

publicado por J.J. Faria Santos às 20:13 link do post
26 de Setembro de 2017

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John le Carré fotografado por Annie Leibovitz para a Vanity Fair no ambiente bucólico da Cornualha. As espessas sobrancelhas formam uma espécie de telhado dos olhos e uma transviada madeixa de cabelo branco abre caminho na testa em direcção ao nariz. A pose é distinta, mas com bonomia e sem projectar arrogância ou presunção.

Salman Ruhsdie fotografado por Thomas Prior para a Time em plano próximo do rosto. Aqui as sobrancelhas estão arqueadas e os olhos parecem espreitar por entre as pálpebras construindo uma expressão entre o mefistofélico e o tenso, com um nariz contraído e os lábios cerrados.

 

Que nos diz a encenação do retrato de um escritor? Será a expressão da sua vontade, da visão do fotógrafo ou um compromisso entre as duas? Talvez a resposta não seja verdadeiramente importante. O mais relevante residirá na progressiva desvalorização da noção do escritor enquanto criatura ascética e devota ao seu métier, longe de qualquer contaminação com a mundaneidade, enclausurada no seu convento intelectual.

Haverá certamente alguma lucidez nos que vêem nos mecanismos de funcionamento das editoras, com as suas exigências de sessões de autógrafos, entrevistas promocionais, encontros com leitores, uma forma perversa de retirar tempo ao escritor para aquilo que é a essência do seu trabalho. Mas ele certamente encontrará na presença neste mundo real fontes de inspiração para a construção do outro mundo, o das narrativas que se entretêm a expandir os limites do possível e do imaginável.

 

Nada parece estar mais longe das preocupações de le Carré, que acabou de ver editado o seu mais recente romance, A Legacy of Spies, e que afirma à Vanity Fair que “A Guerra Fria acabou, mas é neste ponto que nos situamos enquanto pessoas: ainda sem rumo, ainda sem fé”. Já Rushdie, mostra-se preocupado com o facto da sua reputação de amante de festas na companhia de belas mulheres poder afectar a sua credibilidade enquanto autor. E não se revê no retrato do glitterati de braço dado na passadeira vermelha com a bombshell. Como explicou à jornalista da Time: “A maior parte da vida de um escritor é passada em sossego lutando com as palavras em frente a uma página”. O mais recente resultado dessa luta é o romance The Golden House, onde reflecte sobre a era Trump e sobre um mundo real em que “a esfera pública se tornou grotesca”. Talvez a visibilidade mediática do escritor sirva para evidenciar, iluminar ou denunciar o grotesco da vida real, o grotesco que imaginávamos possível apenas na ficção.

 

publicado por J.J. Faria Santos às 20:30 link do post
19 de Setembro de 2017

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Irmãos,

 

Outros Presidentes mais vocacionados para a gestão dos silêncios prefeririam um vocativo mais formal (portugueses, por exemplo), mas a minha predilecção pelo esbanjar dos afectos e a minha formação católica reclamam uma expressão mais fraterna.

 

É com manifesta perplexidade que vejo o meu mandato ser contestado, na forma e no conteúdo. Quem será a oposição ao Presidente que ama todos os portugueses? Não há oposição, digo eu, outros dizem que está moribunda e já não ressuscita. Tem de ser alguém muito distraído. (E na leveza deste qualificativo estou a usar uma quantidade expressiva de caridade cristã…) Com quotas de popularidade de oitenta e tal por cento, tem de ser alguém muito distraído.

 

Dizem que esbanjo palavras em epístolas e sermões, acusam-me do terrível pecado da concórdia com o irmão Costa, como se eu não fosse o Presidente de todos os credos e os meus passos (abrenúncio!) se extraviassem do caminho recto e caíssem na tentação de seguir os desígnios do Diabo e dos ímpios. Mas no rally presidencial, quando eu viro à direita em Portugal, a direita está distraída a bater na esquerda, não nota. Em vez de aproveitar, não nota. A sorte dela é que a distracção não é um pecado mortal.

 

Muitos proclamam que promovo a idolatria, que os santinhos foram substituídos pelas profanas selfies. Em verdade vos digo, quem assim se pronuncia parece desconhecer os misteriosos, e por vezes ínvios, desígnios da Presidência. Estar próximo é também estar ao alcance de um toque na galeria de um smartphone.

 

Irmãos, ouçam este Marcelo Nuno que vos fala. Sem cair no pecado da soberba ou do orgulho, permitam-me que no sublime propósito de unir os portugueses vos proponha a celebração da fraternidade e do amor. Amai-vos, pois, uns aos outros como eu vos amo. E, sobretudo, nunca olvidem que o essencial, é que o nosso génio – o que nos distingue dos demais – é a indomável inquietação criadora que preside à nossa vocação ecuménica. Abraçando o mundo todo.

 

Palavra da salvação da pátria.

 

(todos) Glória a vós, Senhor Presidente!

 

(Apesar de este ser um exercício de ficção, as frases apresentadas a cheio foram efectivamente escritas/proferidas pelo Presidente da República.)

 

publicado por J.J. Faria Santos às 19:54 link do post
12 de Setembro de 2017

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A) CENAS DE UMA INVESTIGAÇÃO ÉPICA

 

Personagens: Rosário Teixeira, procurador; Paulo Silva, inspector tributário; e duas testemunhas do sexo feminino.

     

       I.  Maldita Cocaína

 

Rosário Teixeira: “…há aqui várias conversas em que essa garrafa, essa expressão ‘garrafa de vinho’ é utilizada e nós também ficamos com a ideia (…) de que seria outro tipo de produtos, que seria comprado em conjunto…”

 

Testemunha 1: “Não, de forma alguma, não sei de que é que está a falar.”

 

Rosário Teixeira: “Estou a falar em consumo de cocaína.”

 

Paulo Silva: “Ou outras substâncias, ninguém está a dizer que seja só cocaína.”

 

Testemunha 1: “Não tenho conhecimento.”

 

      II. Ménage à Trois (Clube do Livro)

 

Paulo Silva: (Pretendendo saber se a Testemunha 1 tinha estado com José Sócrates em casa da Testemunha 2, local aonde chegou cerca das 22h30 e saiu às 6h23 do dia seguinte.) “O que é que aconteceu nessa noite? Tirando as questões que, como é óbvio, não interessam aqui ao inquérito.”

 

Testemunha 1: “Certamente, estive a consultar algum livro (…) ou alguns livros.”

 

Paulo Silva: “Hum, não se recorda? Beberam vinho, então, garrafas de vinho?”

 

      III. Hiperidrose ou Jogging de Interiores

 

Paulo Silva: (Aludindo a um outro encontro, ocorrido cinco dias depois) “Não se recorda? Nem de, às 2 da manhã, ligar ao sr. engº, no dia 22 de Outubro, a dizer que até estava preocupada com ele, porque ele tinha transpirado muito. Isso também não lhe diz nada?”

 

Testemunha 1: “Não, não. Transpirar muito?”

 

Paulo Silva: Pois (…), começo a entrar por aqui por coisas…”

 

Testemunha 1: “Não.”

 

Paulo Silva: “…que depois, são indelicadas, eventualmente ou não, não sei, não faço ideia, até podem ter feito um jogging lá dentro do apartamento e alguém transpirou, não sei. Posso estar a ser indelicado ou não, mas, se quer que eu vá aos pormenores, eu continuo.”

 

      IV. In Vino Veritas (Não me sindique!)

 

Rosário Teixeira: “Esta [Testemunha 1] nunca esteve em sua casa?”

 

Testemunha 2: “Não, não, não. Não estou a perceber, são coisas pessoais.”

 

Rosário Teixeira: (irritado) “(…) não tem que sindicar as razões de ser das minhas perguntas. Tem é de responder às perguntas ou não.”

 

Paulo Silva: “Era tradicional vocês [a Testemunha 2 e José Sócrates] beberem numa noite três, quatro garrafas de vinho?”

 

Testemunha 2: “Sim”

 

Paulo Silva: “Era normal? Certo. Nessas noites que beberam vinho, também houve uma vez em que esteve presente a [Testemunha 1] ?

 

Testemunha 2: “No jantar em minha casa, sim.”

 

 

B) A FONTE

 

Os pormenores dos interrogatórios às duas testemunhas (que ocorreram a 5 de Fevereiro de 2015), onde se incluem os excertos acima transcritos, foram divulgados pela revista Sábado, em trabalho assinado por António José Vilela. Apesar da tonitruante apresentação da peça (“suspeitas explosivas do Ministério Público”), o jornalista esclarece que o consumo de drogas deixou de ser crime em Portugal desde Novembro de 2011; que nos resumos dos depoimentos das testemunhas não consta qualquer menção directa a drogas, cocaína ou estupefacientes; e ainda que nunca o ex-primeiro-ministro foi confrontado acerca deste assunto. O director da revista, Eduardo Dâmaso, afasta qualquer “voyeurismo” em relação à postura dos inquiridores, relevando o facto destes encontros acarretarem gastos que seriam pagos com o dinheiro que Santos Silva faria chegar ao amigo. Dâmaso, porém, acaba por reconhecer que esta linha de investigação “abre a porta a todo o tipo de críticas”.

 

 

C) INTERROGAÇÕES ACERCA DOS INTERROGATÓRIOS

 

Numa investigação com inúmeras ramificações, que passaram, entre outras, pela PT, pelo Grupo Lena, pela Octapharma, pela Parque Escolar, pelo resort de Vale do Lobo, pelo BES ou pela CGD, justifica-se esta opção pelo esmiuçar de despesas pessoais associadas a episódios da vida privada e íntima? Que se pretendia ao pressionar as testemunhas, insinuando ou mesmo ameaçando divulgar pormenores íntimos quase a contragosto que depois apareceriam “escarrapachados num processo”? Serviria um determinado perfil do suspeito, designadamente um retrato de alguém escravo de vícios e apetites, como um indício adicional de culpabilidade?

 

Na verdade, algumas perguntas formuladas sobretudo pelo inspector tributário fizeram-me lembrar a série Dear John, protagonizada por Judd Hirsch, e exibida nos EUA entre 1988 e 1992 (foi emitida na RTP sob o título Querido John). A sitcom desenrolava-se no contexto de um grupo de apoio a indivíduos solteiros e recém-divorciados liderado por Louise, uma inglesa muito empática, acolhedora e compreensiva, mas cujo tópico de conversa, mais tarde ou mais cedo, tendia para matérias de cariz sexual. Na verdade, em todos os episódios, a pergunta sagrada acabaria por surgir: “Were there any…sexual problems?”.

publicado por J.J. Faria Santos às 19:54 link do post
05 de Setembro de 2017

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Ouvi dizer que Cavaco Silva estava preocupado com a independência de orgãos como o Banco de Portugal e o Conselho de Finanças Públicas e lembrei-me logo dos tempos em que ele vociferava contra “as forças de bloqueio”, ou seja, “todos aqueles sectores ou políticos que, frontal ou encapotadamente, querem impedir a legislação reformadora e querem bloquear a modernização do país”.

 

Constou-me que Cavaco Silva considerou que em Portugal também existem fake news, e que se teria indignado com a hipótese de “um Presidente telefonar a um jornalista para lhe passar uma notícia”, e ocorreu-me aquele episódio 2 em 1 em que um assessor de Belém recebeu “indicação superior” para se encontrar com um jornalista para relatar uma mirabolante teoria da conspiração, segunda a qual o Presidente da República estaria sob a vigilância do Governo.

 

Li que Cavaco Silva procurou incutir aos jovens alunos “coragem para combater o regresso da censura” (?) e recordei o episódio “Sousa Lara” em que um escritor foi vítima das suas convicções ideológicas (deve ser um exemplo de como a realidade derrotou a ideologia…).

 

Os jornais relataram que Cavaco Silva teceu considerações acerca de “aumentos de impostos indirectos”, “cativações de despesa” e “deterioração da qualidade dos serviços públicos” e reparo que desvalorizou os grandes indicadores económicos como o crescimento do PIB, a taxa de desemprego, o défice orçamental, o investimento ou a dívida pública.

 

Noto que Cavaco Silva aludiu aos “devaneios revolucionários” de uma certa esquerda e logo rememoro um bem-humorado texto de Woody Allen, onde ele apresenta como requisitos para o sucesso de uma revolução alguém ou algo indutor da revolta e que os revoltosos apareçam e façam a revolução. Allen, que reduz a revolução a uma espécie de dança de salão, frisa ser imprescindível que ambas as partes (opressores e oprimidos) compareçam num determinado local a dada hora, especificando que o vestuário é habitualmente casual.

 

Cavaco Silva, que se levantou às seis da manhã e chegou à Universidade de Verão do PSD em mangas de camisa e sem gravata para dar uma “aula informal e despretensiosa”, proclamou que os revolucionários europeus acabaram a perder o pio. O que, do ponto de vista dele, deve ser preferível à “verborreia frenética da maioria dos políticos”. Livre do espartilho do fato presidencial assumiu-se como líder inspirador de uma facção, a sua facção. Está de regresso a casa e optou por restringir a sua influência ao seu clube ideológico. Está de regresso às suas obsessões, aos seus rancores e ressentimentos.

 

Deixou-se fotografar em grupo (o mestre inspirador dos jovens discípulos) e acedeu a um retrato a dois, conta o Público. Mas quando o jovem sacou do telemóvel para a selfie da moda, eis que, decerto horrorizado, o Aníbal guerreiro da realidade se viu forçado a pedir a uma terceira pessoa para produzir o instantâneo. Um mito alimenta-se de símbolos. Nem que seja de símbolos de mesquinhez. Tudo é relevante na luta do intrépido Aníbal contra o abominável homem das selfies.

publicado por J.J. Faria Santos às 20:10 link do post
29 de Agosto de 2017

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É um clube de sexo para a elite financeira. Anónimo. Quando o jovem (Ewan McGregor) pergunta à mulher madura, elegante e sofisticada (a sempre soberba Charlotte Rampling) a razão porque recorre a este expediente, a resposta é ditada pela força da evidência com um subtexto algo feminista: “Pela mesma razão que os homens o fazem – a economia do arranjo. É intimidade sem complexidade.” O filme é de 2008, intitula-se No Limite da Ilusão (Deception no original), foi realizado por Marcel Langenegger e conta no elenco com Hugh Jackman e Michelle Williams.

 

Não se trata de prostituição, não há comércio para além do dos sentidos. É uma questão de logística. O acordo entre os membros da Lista permite a economia de recursos (entre eles, o tempo) e a maximização do lucro (o prazer), preferencialmente no contexto sofisticado dos hotéis de luxo. Porque aqui não há lugar para os que só encontram o fervilhar do erotismo nos ambientes sórdidos e degradantes de um qualquer bas-fond.  “Estás livre esta noite?” é a frase que desencadeia cada encontro, no que é efectivamente um exercício de liberdade desprovido de quaisquer considerandos moralistas. Mas embora as regras do jogo estejam claramente definidas, como sempre nas relações interpessoais há o risco do desequilíbrio na percepção do caminho a trilhar. Pode o compromisso nascer do jogo do desapego, do distanciamento emocional?

 

O filme dá uma resposta apaziguadora aos que vêem neste esquema uma sucessão de encontros que acalmam o corpo e inquietam a alma. Como se o corpo-a-corpo sucessivo tivesse como destino o vazio e a liberdade já não fosse mais que uma imparidade a antecipar um prejuízo irremediável. Após uma série de peripécias enganadoras, Ewan McGregor e Michelle Williams acabam juntos.  

 

Seria ousado ver nestas relações ocasionais de geometria variável uma solução de perenidade, satisfatória e absolutamente gratificante, mas seria ilusório achar que nas relações mais duradouras e monogâmicas (como o casamento) não haja desequilíbrios no grau de investimento na relação de cada um dos parceiros. O sentimento de frustração e incompletude também poderá morar por aqui. Iris Murdoch, no seu romance O Mar, O Mar, coloca na boca de Peregrine, figura versada em tumultos matrimoniais, a afirmação de que todos os “casamentos duradouros são baseados no medo” e que nele as pessoas se acomodam a posições de dominação e submissão”.

 

Como bem sabemos, o casamento (tal como as uniões de facto) também pode ser um acordo de conveniência ou um arranjo que contemple o apoio mútuo, uma espécie de lenitivo para a solidão e o desamparo. Seremos capazes de avaliar a distância entre a “economia do arranjo” de Rampling e o arranjo que garante a segurança económica de algumas uniões de conveniência? Uma opinião informada implicaria um conhecimento aprofundado da verdade (essa furtiva representação fiel) de cada relação. Talvez seja avisado recorrer de novo a Iris Murdoch, citando agora da mesma obra uma frase de Charles Arrowby, o protagonista, “Podemos ser demasiado inventivos na procura da verdade. Por vezes, devemos simplesmente respeitar a sua face velada.”

 

Imagem: Charlotte Rampling fotografada por Helmut Newton em 1969

(Courtesy of Bert Christensen)

publicado por J.J. Faria Santos às 13:50 link do post
21 de Agosto de 2017

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Comecemos pelos factos, esse empecilho na rota de sucesso do populista. A imigração é vital para minorar o envelhecimento demográfico de Portugal, contribuindo de igual modo para a sustentabilidade do sistema de segurança social português. Colocando nos pratos da balança as contribuições dos estrangeiros e as prestações sociais por eles auferidas, o saldo financeiro é positivo (309,2 milhões de euros em 2014).

 

O número de reclusos estrangeiros no sistema prisional português, em 2014, totalizava 2469 indivíduos (redução de 6,7 % face ao ano anterior). Acresce que 25% destes reclusos são estrangeiros não imigrantes, transitoriamente em território nacional, e que a aplicação da medida de prisão preventiva é mais frequentemente aplicada aos estrangeiros em geral (risco de fuga, por exemplo). Qualquer tentativa de associar imigração e criminalidade não tem base empírica. Comparando a taxa de criminalidade dos portugueses e dos estrangeiros com as mesmas características (idade e sexo), é possível concluir que “as taxas dos dois grupos se equiparam, desmistificando a ideia de que os estrangeiros ou imigrantes são mais propensos à actividade criminosa que os cidadãos nacionais”. 

 

Estes e outros dados e informações podem ser consultados em Imigração em Números – Relatório Estatístico Anual de 2016 (com dados referentes a 2013 e 2014) da responsabilidade do Observatório das Migrações, em cujo parágrafo inicial do capítulo 5 se encontram referências a estudos que atestam que “os imigrantes assumem um papel fundamental na melhoria da eficiência dos mercados de trabalho, sendo que sem os imigrantes alguns sectores económicos e actividades certamente não sobreviveriam ou entrariam em crise”.

 

As alterações à lei, que resultaram da transposição de três directivas europeias mas também de projectos do PCP e do Bloco de Esquerda, de acordo com o Ministério da Administração Interna mantêm inalterado “o regime de afastamento de estrangeiros em situação ilegal ou por razões de segurança”, e fazendo fé nas declarações de fonte oficial do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, mesmo tendo obtido uma “promessa de contrato de trabalho”, os candidatos terão de “preencher todos os demais requisitos previstos na lei, entre os quais a entrada legal em território nacional (,..)” ( Expresso, edição de 19 de Agosto).

 

Como interpretar então a frase do líder do PSD: “O que é que vai acontecer ao país seguro que temos sido se se mantiver esta possibilidade de qualquer um viver em Portugal?”, e a sua afirmação de que o Estado “deixa de poder expulsar alguém que cometeu crimes graves”? Podemos dar largas à indignação e carregar na adjectivação. Ou, em alternativa, citar o deputado do PSD,  ex-chefe de gabinete de Passos Coelho, ex-secretário de Estado com responsabilidades sobre políticas de imigração e doutorando nesta área, entrevistado pelo Expresso.

 

Feliciano Barreiras Duarte faz menção a equívocos (“percepções e opiniões erradas”), leviandade e incompetência (“associar imigração com terrorismo é errado, demagógico, é redutor e é perigosíssimo”) e eleitoralismo (“Parece que afinal vale tudo para ter votos e tentar ganhar eleições”). 

 

Longe parece ir o tempo do “que se lixem as eleições”. Ou então, simplesmente, como Barreiras Duarte nota, o PSD “também tem racistas e xenófobos, que pelos vistos têm apoios internos para defenderem essas posições”.

publicado por J.J. Faria Santos às 15:28 link do post
15 de Agosto de 2017

Entertainment - Playing card - Eight of Clubs - Be

 

 

 

THE SHINING   Sinopse: Um desportista de fama mundial, com um brilho intenso e milhões de seguidores nas redes sociais, é acusado de defraudar o fisco espanhol em cerca de 15 milhões de euros. Reclamando a sua inocência, o atleta de colossal celebridade atribui a acusação ao incómodo das pessoas com o seu brilho ofuscante, acrescentando sapientemente que os “insectos só atacam lâmpadas que brilham”. (O realizador do filme tem a genial inspiração de recorrer a um insert com imagens do momento em que uma traça ataca implacavelmente a estrela lesionada no relvado.) Na audiência com a juíza sucedem-se os momentos de tensão, mas o espectador não pode deixar de alvitrar: e se ele lhe mandasse uma mensagem com um convite insinuante? Ou uma fotografia do seu six-pack ? O filme vê-se com agrado, embora seja um produto da indústria entregue a um realizador tarefeiro, e parece não ter sido afectado pelas sucessivas birras da sua estrela. Ao que consta, o actor principal terá criticado o director de fotografia e a maquilhadora (não realçaram devidamente a sua máscula beleza), a equipa de efeitos especiais (o brilho não foi exponenciado) e o argumentista por não ter dado relevo ao impacto no processo do tão falado brilho, ao que lhe foi explicado que a Justiça é cega e, por conseguinte, imune ao seu dom. O desportista terá também ficado desagradado pelo facto do produtor não ter concordado em pressionar o argumentista a incluir uma cena cómica, na qual um médico louco invadia a audiência aos gritos de “estupor moral!”, seguindo-se a sua expulsão escoltado por representantes da autoridade.

 

 

 

O PADRINHO   Sinopse: Um magistrado disponibiliza-se para ser juiz de turno do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste e acaba por ser responsável pela análise de processos de candidaturas a eleições autárquicas. A rejeição de uma candidatura por alegadas irregularidades desencadeia um rol de reacções e suspeitas, sobretudo quando se percebe que o juiz é afilhado do actual presidente da Câmara, que se recandidata, e que a sua mulher é funcionária da autarquia. Para agravar ainda mais a situação, os argumentos aduzidos para rejeitar agora a candidatura de um ex-presidente (e também ex-presidiário) tinham sido desvalorizados pelo próprio juiz, quatro anos antes, numa análise similar. O padrinho faz questão de explicar que o afilhado, o ex-presidiário, o juiz e ele próprio fizeram parte da comissão política de um partido na região. E acusa o challenger de “inadmissível” pressão sobre o poder judicial.

 

 

 

 

CÓDIGO DE CONDUTA   Sinopse: Um adjunto de um secretário de Estado viaja para a China a convite de uma empresa tecnológica. Num ambiente de grande intolerância para com a aceitação por parte de figuras com cargos públicos de ofertas de entidades privadas susceptíveis de originar conflitos de interesse, o membro do gabinete do secretário de Estado apressa-se a esclarecer que pagara a viagem, admitindo que a estadia fora grátis. Mas eis que, oportunamente, o MNE faz constar que caso o valor da dita estadia ultrapasse o limite de 150 €, isso equivale a uma violação do Código de Conduta “incompatível com a continuidade no exercício das funções”. Acossado, o adjunto pede a exoneração. Por outro lado, num desenvolvimento algo inesperado, é tornado público que o autarca protagonista do filme anterior (O Padrinho) também já viajara para a China a convite da mesma empresa, beneficiando da oferta de voos e estadia.  Teremos uma dupla nomeação para os Óscares, um como actor principal e outro como actor secundário?

 

 

 

O REGRESSO DA MÚMIA   Sinopse: Um ex-professor universitário reformado de uma longa carreira política, onde se celebrizou por se arrogar de uma infalibilidade papal e por atribuir à inspiração da Nossa Senhora de Fátima a capacidade de fazer um país cumprir as metas de um programa económico, regressa simultaneamente à política e à academia. Na Universidade de Verão do seu partido de sempre, o professor propõe-se dissertar acerca do tema “Os Jovens e a Política: Quando a realidade tira o tapete à ideologia”. A intriga espalha-se, o suspense adensa-se. Os seus fiéis defendem que ele se vai pronunciar acerca da forma como os constrangimentos económicos condicionam a acção dos políticos (essa corja). Outras fontes adiantam que ele narrará com vigor a maneira como a realidade (um acordo parlamentar à esquerda) tirou o tapete à sua ideológica vontade (um Governo de direita). A resposta ocorrerá numa cena de grande fôlego filmada num longo plano-sequência.

publicado por J.J. Faria Santos às 15:18 link do post
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